
(Foto: cottonbro studio/Pexels)
Em janeiro passado, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o historiador e filósofo israelense Yuval Harari lançou uma provocação: pensar a inteligência artificial como uma nova forma de imigração, muito mais intensa do que todas as ondas de imigração já ocorridas.
Para ele, os produtos da IA, os “imigrantes digitais”, não apenas ocuparão postos de trabalho, mas também transformarão culturas, línguas e a vida cotidiana. Se a sociedade decidir manter essas mudanças sob controle, precisa agir desde já, regulamentando o tema, pois em cinco anos, estima Harari, será tarde demais.
Já se sabe do potencial disruptivo da IA, especialmente no campo econômico: seu impacto já começa a ser sentido, com empresas usando a tecnologia como justificativa para demissões em massa. Oportunidades de trabalho em funções de entrada na área de desenvolvimento de software estão em declínio; outras áreas devem ser impactadas em breve. A IA já interpreta exames radiológicos, compõe músicas, dirige táxis. Mesmo sem atingir a chamada “inteligência artificial geral”, anunciada por executivos do setor, o poder atual da tecnologia já ameaça provocar uma ruptura econômica que pode atingir proporções históricas.
A jornalista alemã Katrin Bennhold abordou recentemente os aspectos políticos do tema, escrevendo para The World, newsletter global do The New York Times.
Segundo ela, a história mostra que grandes transformações econômicas raramente ficam restritas ao campo econômico. No século XVIII, a Revolução Industrial, impulsionada pela máquina a vapor, converteu uma Europa de agricultores em uma sociedade de operários. O processo foi longo e doloroso: décadas de trabalho extenuante, cidades poluídas e queda na expectativa de vida.
Dessa experiência nasceram a consciência de classe, o movimento operário e correntes políticas como o marxismo e a social-democracia. Mais tarde, a Grande Depressão dos anos 1930 levou à criação de redes de proteção social e ao fortalecimento do conceito de Estado de bem-estar social.
Nem sempre é preciso uma mudança dessa magnitude para gerar efeitos políticos profundos. O chamado “choque da China”, entre 1999 e 2011, quando cerca de 2 milhões de americanos perderam seus empregos em função do aumento da presença chinesa nos fluxos de comércio global, alimentou ressentimentos que ajudaram a eleger Donald Trump e elevaram tarifas a níveis não vistos desde os anos 1930.
Agora, especialistas como Erik Brynjolfsson, da Universidade de Stanford, alertam que a IA pode afetar não milhões, mas dezenas ou centenas de milhões de trabalhadores; mesmo os otimistas reconhecem que a transição será turbulenta. “O bolo vai crescer muito”, diz Brynjolfsson, “mas sem controle, muita gente será prejudicada e ficará insatisfeita”.
Já há sinais de resistência: têm acontecido protestos contra a instalação de centros de dados em países como Canadá, Chile, Japão, Estados Unidos e Irlanda, motivados principalmente pelos problemas ambientais causados por essas estruturas. Pesquisas mostram que a IA é mais impopular nos EUA do que a agência de imigração (ICE – Immigration and Customs Enforcement), envolvida em episódios de violência. Analistas acreditam que eleições futuras poderão ser decididas por questões ligadas à tecnologia, especialmente à IA.
Estudiosos do assunto destacam alguns pontos que também devem ser levados em consideração: em primeiro lugar, o futuro da IA ainda está sob controle humano: decisões políticas e regulatórias determinarão se ela substituirá ou complementará o trabalho humano e como a riqueza gerada será distribuída. Em segundo lugar, os primeiros e principais atingidos não serão operários, mas trabalhadores do conhecimento, como jornalistas e advogados, justamente aqueles acostumados a exercer influência política.
O terceiro ponto são os aspectos de natureza política: da esquerda, da direita e até mesmo do Papa, há pedidos de regulação e isso pode dar origem a novas coalizões políticas.
Se a Revolução Industrial levou um século para se consolidar, a revolução da IA pode se desenrolar em apenas uma ou duas décadas. O futuro econômico e político ainda é incerto, mas uma coisa parece clara: não será preciso esperar muito para descobrir como essa nova “onda migratória digital” vai redesenhar nossas sociedades.
Por tudo isso, vale a pena refletir, com urgência, sobre a provocação de Harari.
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Vivaldo José Breternitz é Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – vjnitz@gmail.com.
