
(Foto: Muhammed Ensar/Pexels)
A relação entre jornalismo e inteligência artificial ainda está num nível primário, pois a IA é vista apenas como uma ferramenta para acelerar, ampliar e diversificar modelos de produção de notícias, herdeiros da era analógica. Os estudos mais avançados indicam, no entanto, que a IA vai alterar profundamente toda a teoria e prática do jornalismo enquanto atividade ligada à informação e comunicação. Mas são ainda hipóteses, porque o processo é recente e está fortemente influenciado por empreendedores em busca de lucros e de poder.
A maioria dos jornalistas e pesquisadores ainda está mais preocupada com a eficiência da IA e com o temor de que ela intensifique ainda mais o desemprego entre profissionais. A grande imprensa está também preocupada com o fato de os algoritmos vasculharem arquivos jornalísticos sem pagar direitos autorais, engrossando a corrente empresarial que quer regulamentar a IA.
O que somente poucos começam a vislumbrar é a mudança estrutural que os processos de inteligência artificial inevitavelmente vão provocar na forma como o jornalismo se insere no conjunto de sistemas de produção de conhecimento na sociedade digital. Este é, na verdade, o grande desafio a ser enfrentado e que muito provavelmente mudará toda a arquitetura dos fluxos de informação.
A IA ainda é tratada no exercício do jornalismo basicamente como um sistema mais sofisticado de buscas. Até agora quando alguém fazia uma busca no Google, recebia em troca indicações de sites onde poderia encontrar detalhes sobre o tema a ser explorado. Na IA, o Gemini, mecanismo de inteligência artificial do Google, fornece ao pesquisador uma síntese interpretada dos sites que tratam do problema sob investigação.
Robotização e desemprego
Trata-se de um avanço considerável em matéria de exploração dos documentos digitalizados na web e uma economia não menos considerável no tempo que um repórter ou editor gastava até agora para fazer a síntese e interpretação dos vários resultados obtidos numa busca simples no Google. Muitos acham que isto pode gerar uma robotização do jornalismo, acelerar o desemprego de profissionais menos qualificados e dificultar a capacitação de jovens recém-saídos da universidade.
Em sua essência, são reações típicas do temor diante das consequências das inovações tecnológicas, como já ocorreu com as resistências ao surgimento das plataformas digitais (Facebook, TikTok e outras) e ao fenômeno dos influenciadores. São preocupações reais, mas elas são apenas uma parte de um conjunto de dilemas que afetam a essência do jornalismo e que ainda são pouco pesquisados e discutidos pelos profissionais e pela imprensa.
O primeiro deles é a questão da confiabilidade nas respostas aos prompts (perguntas) feitos a um site de IA por quem está preparando uma reportagem, notícia, artigo ou comentário. A resposta oferecida pelo software é o resultado do trabalho de algoritmos programados por alguém, logo sujeita a vieses e distorções de quem os desenvolveu. Portanto, quem fez a pergunta ou consulta precisa confiar plenamente no programa da IA, coisa que atualmente é altamente questionável dada a crescente concentração de projetos num mercado altamente competitivo e submetido à fortes pressões geopolíticas das grandes potências mundiais.
A eficiência e qualidade das respostas dependem diretamente da amplitude, diversificação e atualização dos bancos de dados varridos pelos algoritmos de IA. Atualmente há uma “guerra” aberta, onde a ética não está em primeiro lugar, entre projetos como ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), e CoPilot (Microsoft) pela captação de recursos financeiros para sofisticar algoritmos, ampliar o universo de pesquisa de dados e buscar a hegemonia no campo da IA.
Dá para confiar na IA?
A questão da confiabilidade nos resultados fornecidos por softwares de IA é crucial para os jornalistas porque a credibilidade é um dogma na profissão. Não dá para checar as conclusões de um relatório de IA porque isto equivaleria a visitar todos os milhões de documentos vasculhados pelos algoritmos. Isto é simplesmente impossível. Logo usar respostas fornecidas por programas envolvidos numa batalha empresarial, onde vale praticamente tudo, insere uma dúvida estrutural no trabalho jornalístico.
A guerra entre os gigantes da IA deixou de ser apenas uma disputa entre empresas para se transformar também num problema geopolítico, o que complica ainda mais a questão da confiabilidade. Estados Unidos e China disputam a hegemonia global no terreno da inteligência artificial, algo que inclui também a produção de processadores, controle de terras raras e caça a especialistas. A guerra da IA invadiu os mercados financeiros, depois que os negócios envolvendo pesquisa, desenvolvimento e comercialização concentraram em torno de 90% de todos os investimentos na bolsa norte-americana nos últimos 10 meses. Só em 2025 foram investidos meio trilhão de dólares em projetos de IA, na Europa e Estados Unidos.
A soma de todos estes interesses mostra que o jornalismo está diante de um grande desafio. A inteligência artificial altera os fluxos informativos ao priorizar desdobramentos em vez dos pressupostos. O avanço da tecnologia força os profissionais a se preocupar mais com as conclusões e respostas da AI em vez do material primário (dados, fatos e eventos). A transparência e a confiabilidade passam a ser mais importantes do que nunca, o que exigirá toda uma série de novos comportamentos e habilidades de quem pratica o jornalismo.
