O Atlas da Notícia vai incluir iniciativas de jornalismo nativo das plataformas digitais na 8ª edição do mapeamento, que começa a ser feita agora. O tema foi discutido em um webinário organizado pelo Observatório da Imprensa, com a participação do presidente do Projor, Sérgio Lüdtke, da professora titular sênior da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP) e coordenadora do grupo de pesquisa COM+, Beth Saad e Maíra Carvalho, jornalista e executiva especializada em gestão de mídia e tecnologia, com passagem por empresas como TikTok, Meta e Grupo Globo. O debate teve mediação da jornalista Denize Bacoccina, editora do Observatório da Imprensa e pode ser visto, na íntegra, aqui.
Sérgio Lüdtke revelou, em primeira mão, o foco do novo mapeamento do Atlas. O grupo de trabalho passa a se debruçar sobre o conceito de “jornalismo nativo de plataforma” – profissionais ou iniciativas (coletivas e individuais) que pensam a criação, produção e distribuição de notícias prioritariamente dentro de ecossistemas de terceiros (como Instagram, TikTok, YouTube, Substack e Spotify). Estudos preliminares da base do Atlas indicam que entre 25% e 30% das organizações de jornalismo online já operam sob a lógica do empreendedorismo individual ou focados em redes.
O Olhar Acadêmico e a Hibridização do Setor
A professora Beth Saad analisou como a academia conceitua esse novo cenário, destacando a complexidade e a hibridização das terminologias (como newsfluencers ou criadores de notícias). Ela diferenciou as “iniciativas informativas” (especialistas acadêmicos ou técnicos que difundem conhecimento com didatismo nas redes) das “iniciativas jornalísticas” (que herdam os rituais de apuração e checagem, mas adotam integralmente a linguagem das plataformas). Saad apontou o celular e a internet móvel como os grandes motores dessa mudança de hábito no Brasil profundo.
As Fronteiras da Investigação e a Economia dos Criadores
Maíra Carvalho avaliou a distinção prática entre o jornalista tradicional e o criador de conteúdo focado em notícias. Para ela, gêneros complexos como o jornalismo investigativo exigem fôlego financeiro, tempo e estrutura jurídica contra litígios que criadores individuais dificilmente conseguem sustentar sozinhos. Por outro lado, Carvalho trouxe dados do ecossistema de creator economy no Brasil, citando que 65% dos criadores se enxergam como empreendedores, embora a maioria comece operando de forma solitária ou em duplas.
A Crise de Atenção e o Distanciamento Histórico das Massas
Ao debaterem os achados do relatório da Reuters (Digital News Report 2026) – que apontou o avanço do vídeo online sobre a TV –, os convidados diagnosticaram um problema histórico: o jornalismo de prestígio brasileiro sempre foi construído para dialogar com as elites e as esferas de poder econômico, falhando em criar pontes reais e de fácil entendimento com as classes mais populares (bases da pirâmide). As plataformas digitais acabaram ocupando esse vácuo ao pulverizar vozes e formatos mais acessíveis.
O case da “Cazé TV” e os novos parâmetros de negócio
O sucesso da Cazé TV no YouTube foi utilizado como um exemplo prático e robusto de “plataformização”. Os participantes pontuaram que o fenômeno de audiência não se deve apenas ao carisma e à linguagem descontraída de Casimiro Miguel e equipe, mas sim a uma escolha deliberada e complexa de modelo de negócio baseado 100% em plataformas digitais, operando fora das amarras tradicionais da legislação de radiodifusão e atraindo marcas com novos formatos publicitários.
O painel concluiu em tom de consenso que o cenário de “plataformização” e fragmentação da atenção é um caminho sem volta. O grande desafio estrutural não é a falta de interesse do público por notícias – que permanece alto –, mas a urgência de os veículos tradicionais e novos empreendedores encontrarem um equilíbrio financeiro enquanto aprendem a falar a linguagem das próximas gerações.
Resumo gerado com utilização do Google Gemini e edição humana.
Assista ao debate na íntegra:
