Quinta-feira, 25 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1394

A câmera e a corda: a sociedade do espetáculo e o risco como mercadoria

(Foto: Erik Mclean/Pexels)

A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos de idade, arremessada da Ponte do Esqueleto, em Limeira-SP, durante um salto de rope jump sem estar presa às cordas de segurança, em 13 de junho de 2026, oferece mais do que um caso de negligência empresarial a ser apurado pela Justiça. Oferece, sobretudo, um sintoma exemplar de uma configuração cultural em que o registro da experiência passou a importar mais do que a própria experiência, e em que o risco extremo se converteu em insumo de uma economia simbólica baseada na visibilidade.

O dado mais perturbador do episódio não é apenas a ausência da corda, falha técnica e procedimental gravíssima, mas a permanência da câmera GoPro nas mãos da vítima até o instante do impacto, e o fato de que, segundo testemunhas, funcionários da empresa responsável retiraram o equipamento do corpo antes que as autoridades chegassem ao local. A prioridade material dada à recuperação da imagem, em detrimento da preservação da cena e, antes disso, da própria vida, inverte de modo cabal a hierarquia que deveria orientar qualquer prática de risco controlado, e é precisamente essa inversão que merece ser pensada além dos limites do noticiário.

Essa inversão dialoga diretamente com o diagnóstico que Guy Debord formulou há mais de meio século sobre a sociedade do espetáculo, a saber, a vida social contemporânea como acumulação de representações, em que o vivido se degrada em imagem e a imagem, por sua vez, adquire autonomia e valor de troca superiores aos da experiência que lhe deu origem. Para o autor, o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens, um modo de organização da vida coletiva em que a aparência substitui o ser e a posse, e em que tudo aquilo que antes era vivido diretamente se transforma em representação a ser consumida.

O que o caso de Limeira explicita, contudo, é uma categoria que Debord não poderia antecipar em toda sua extensão, a financeirização algorítmica da própria imagem do corpo em risco, mediada por plataformas que recompensam diretamente, em métricas de alcance e monetização, o conteúdo capaz de gerar choque, identificação ou comoção. Não se trata mais apenas de uma vida mediada pela representação, mas de uma vida estruturada, desde o planejamento, para produzir representação. O salto não é vivido e depois narrado, ele é projetado, desde o início, como conteúdo. A câmera não documenta acessoriamente o evento, ela é, em certo sentido, sua finalidade implícita, o dispositivo que converte a queda de trinta a quarenta metros em capital de atenção circulável nas mídias sociais.

A lógica não opera apenas no nível individual de quem salta em busca de reconhecimento digital, mas é sustentada institucionalmente, e é aqui que a reflexão se torna particularmente relevante para a crítica da comunicação e da imprensa. Empresas que comercializam experiências de risco extremo dependem, cada vez mais, do conteúdo gerado pelos próprios clientes como forma de publicidade gratuita e prova social de autenticidade da experiência oferecida. A imagem do salto funciona como vitrine para os saltos futuros, peça de um circuito promocional que prescinde de investimento publicitário tradicional porque o próprio consumidor se torna produtor voluntário de propaganda.

Existe, portanto, um interesse econômico direto, ainda que não necessariamente deliberado em cada instância concreta, que o registro aconteça e seja recuperado, mesmo que isso signifique relativizar os protocolos de segurança que deveriam ser inegociáveis. A pressa em retirar a câmera do corpo da vítima, antes mesmo da chegada da perícia policial, sugere uma cumplicidade estrutural entre a economia da espetacularização e a negligência que custou uma vida. Cumplicidade que não precisa ser conspirativa para ser real, basta que a lógica do negócio tenha naturalizado, ao longo do tempo, a centralidade do registro visual a ponto de subordinar a ele os próprios reflexos de segurança e de preservação de provas.

O quadro institucional ganhou contornos ainda mais graves com a revelação de que a empresa Entre Cordas não possuía autorização para realizar atividades esportivas na Ponte do Esqueleto, estrutura pertencente à União e administrada pela Secretaria de Patrimônio da União. O acesso ao local, que havia sido bloqueado em 2024 por solicitação da própria SPU às prefeituras da região, foi reaberto após pressão de empresários locais em sessão da Câmara de Vereadores de Limeira, evidência de que a viabilização da atividade ilegal contou com articulação política deliberada, e não apenas com omissão fiscalizatória do poder público.

A Justiça, ao decretar a prisão preventiva dos três funcionários presos em flagrante, citou expressamente a negligência da empresa, mas o episódio revela uma negligência que extrapola os limites da gestão privada do negócio, pois se trata de uma economia local do risco espetacular que captura, ainda que parcialmente, as próprias instâncias de decisão municipal, subordinando a interdição de segurança pública ao interesse econômico de manter em funcionamento uma atração capaz de gerar fluxo de visitantes e, com ele, conteúdo replicável nas mídias sociais. A câmera e a corda, nesse sentido, não são apenas metáforas da relação entre indivíduo e plataforma, são também índices de uma engenharia institucional em que o poder público local abre mão de sua função protetiva em troca da promessa de dinamismo econômico associado ao espetáculo do risco.

Essa configuração encontra ressonância também na crítica que Byung-Chul Han desenvolve sobre a sociedade do desempenho e a psicopolítica neoliberal. Para o autor, o sujeito contemporâneo não é mais coagido externamente a se expor ou a se arriscar, como ocorria nos modelos disciplinares clássicos descritos por Michel Foucault, ele se voluntaria para isso, internalizando a lógica de que a visibilidade é uma forma de capital pessoal e de que a autoexploração, inclusive a exposição do próprio corpo ao perigo, é um investimento legítimo em si mesmo, uma forma de autorrealização que se confunde com liberdade. Não há, nesse modelo, um opressor externo facilmente identificável, há um sujeito que se torna empresário de sua própria imagem, disposto a converter a adrenalina e o risco corporal em moeda de reconhecimento social, em métricas de engajamento que funcionam como índice de valor pessoal numa economia afetiva da visibilidade. A morte de Maria Eduarda não cancela essa lógica voluntária, ela revela, antes, o ponto em que a autoexploração performática encontra seu limite material mais cru, quando o corpo que deveria gerar a imagem se torna, ele próprio, o resíduo descartado depois que a imagem é recolhida.

Existe, contudo, uma dimensão adicional que interessa diretamente à crítica da imprensa e que não pode ser omitida desta reflexão, uma vez que o próprio circuito noticioso participa, ainda que de modo distinto, dessa economia do espetáculo do risco. A cobertura midiática de mortes em esportes radicais frequentemente oscila entre o dever legítimo de informar sobre falhas de segurança e responsabilidades penais, e uma estetização do acontecimento que reproduz, em registro jornalístico, a mesma lógica de consumo de imagens-choque que caracteriza as mídias sociais.

A profusão de vídeos obtidos por terceiros, a ênfase recorrente na altura da queda, na ausência da corda, no relato minucioso dos depoimentos dos presos, tudo isso compõe uma narrativa que, mesmo quando tecnicamente correta e factual, corre o risco de transformar a tragédia em mais um produto de consumo emocional dentro do próprio campo jornalístico. Não se trata de relativizar o dever de apuração e denúncia, que é central à função da imprensa em casos de negligência com vítimas fatais, mas de reconhecer que a fronteira entre informar sobre o espetáculo da morte e replicar sua lógica espetacular é tênue, e que a imprensa crítica tem a responsabilidade de não apenas narrar o ocorrido, mas de nomear e desnaturalizar a engrenagem cultural que o produziu.

É precisamente nesse ponto que a reflexão sobre o caso de Limeira ultrapassa o registro do fato isolado e se converte em diagnóstico de época. O esporte de risco controlado nasceu, historicamente, como prática que negociava o limite entre o perigo real e a segurança técnica. A corda, nesse sentido, não é um acessório, mas a própria condição de possibilidade da experiência, o que permite ao corpo experimentar a vertigem da queda sem pagar por ela com a vida. Quando esse equilíbrio é subordinado à lógica do registro, quando a câmera importa mais do que a corda no momento da urgência, algo na própria natureza da prática se corrompe, o risco deixa de ser administrado para se tornar espetáculo a ser consumido, e a segurança passa a competir, em termos de prioridade prática, com a estética da imagem a ser produzida. Esse deslocamento não é exclusivo dos esportes radicais. Ele se repete, em escalas e formas diversas, em inúmeras práticas contemporâneas nas quais a mediação digital se torna mais relevante do que a experiência mediada, da alimentação à viagem, do trabalho ao luto, tudo tende a ser reorganizado em função de sua “instagramabilidade”.

Resta, por fim, uma questão de responsabilidade que não pode ser dissolvida na análise estrutural, sob pena de se eximir os agentes concretos do episódio de suas obrigações concretas. A reflexão sobre a sociedade do espetáculo não substitui a apuração jurídica sobre o que houve no momento do salto, sobre quem deveria ter colocado a corda e checado o equipamento, sobre por que a câmera foi retirada antes da perícia, sobre a cadeia de omissões que tornou possível que uma jovem de vinte e um anos fosse arremessada de uma ponte sem qualquer proteção.

Essa apuração ganha sentido mais amplo, e mais útil ao debate público que a imprensa deve fomentar, quando lida à luz da cultura que a torna possível, uma cultura em que o espetáculo do risco é cultivado como produto, em que a imagem do perigo vale mais, no mercado simbólico das redes digitais, do que a vida que o produziu, e em que até mesmo a cobertura jornalística precisa vigiar constantemente sua própria cumplicidade com essa lógica. A corda que faltou e a câmera que sobrou compõem, juntas, uma metonímia exata do nosso tempo, e cabe à crítica da comunicação, mais do que a qualquer outro campo do saber, recusar-se a apenas narrar essa metonímia e assumir a tarefa de desmontá-la.

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Ramsés Albertoni é professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).