Quinta-feira, 21 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1389

Vários frames de mentiras: a comédia sobre um drama jornalístico

(Foto: Erik Uruci/Pexels)

filme alemão Tausend Zeilen (2022, “Mil linhas”), é baseado no livro Tausend Zeilen Lüge – Das System Relotius und der deutsche Journalismus, do jornalista espanhol Juan Moreno, lançado em 2019. Neste, Moreno narra sua experiencia no caso que viria a ser possivelmente o maior escândalo do jornalismo alemão em décadas. Aliás, do jornalismo alemão e mundial.

Juan Moreno, radicado há décadas na Alemanha, revelou à revista Der Spiegel e ao mundo, que o repórter Claas Relotius por anos fabricou inúmeras reportagens, total ou parcialmente, ao escrever para a que é uma das maiores publicações jornalísticas do país.

O livro de Moreno (Mil linhas de mentiras – O sistema Relotius e o jornalismo alemão, em tradução livre), que não tem edição em português, narra os meses em que trabalhou com Relotius na Spiegel, em uma reportagem, e o processo posterior que o levou a desmascarar o então colega. E assim como diz o subtítulo, descreve como funcionou, por muitos anos, o “sistema Relotius”, o modus operandi que levou o suposto jornalista a enganar muitos por tanto tempo, ganhar vários prêmios e tornar-se o protegido da maior revista alemã de notícia.

Tausend Zeilen Lüge não é um livro enfadonho, muito pelo contrário. No entanto, sua narrativa não tem nada de engraçada. Pelo contrário, é trágica, em muitos momentos. Mostra quão perto do abismo esteve Moreno tantas vezes tentando provar que o colega estava errado. Abismo pessoal, profissional, mental. Ele mostrou evidências robustas das inconsistências de Relotius a seus editores diversas vezes. Contudo, estas de nada valiam diante da confiança que a Spiegel tinha no seu premiado repórter e na desconfiança que tinham de Moreno.

Já o filme Tausend Zeilen é uma comédia que beira o pastelão. É um filme alemão, falado em alemão, com atores alemães ou baseados na Alemanha. Contudo, parece uma típica comédia bobalhona americana. Os personagens têm um quê de bonachão – em especial os editores da revista. São arquétipos, rasos. Falando nos editores, no início do filme, eles têm uma fala bastante vergonhosa. Algo do tipo ‘temos que escrever histórias que atraiam os leitores, que chamem a atenção’. Nada contra história que atraia leitores. O problema é sacrificar o jornalismo em detrimento da verdade e em prol do entretenimento. E porque a fala não corresponde ao padrão jornalístico da Spiegel.

Não é porque um veículo errou uma vez que toda sua história vai pelo ralo. Como diz o ditado, não precisa jogar o bebê com a água suja. Spiegel não foi o primeiro grande veículo jornalístico a ter um caso de repórter que inventa fatos. Outro escândalo conhecido foi o caso Jayson Blair, no New York Times. Ao finalmente se dar conta do esquema Relotius, a revista, além de demitir os principais responsáveis, desculpou-se e explicou-se em longas páginas, e instaurou uma série de mudanças jornalísticas, incluindo na área de fact-checking. Mostrou também quais e o que dos textos de Relotius eram falsificações. Tudo isso está compilado numa página do veículo dedicada ao caso.

Voltando ao filme, parece que o maior escândalo do jornalismo alemão do século fica em segundo plano para focar num dramalhão exacerbado da vida pessoal de Juan Moreno. A relação entre ele, sua esposa e filhas é mostrada em tons tragicômicos, enquanto a busca pela verdade é recheada de cenas ligeiras com uma pitada de pastelão.

Fiquei pensando se senti tudo isso por ser uma jornalista, uma pesquisadora de jornalismo e alguém que preza pelo jornalismo ético. Pois alguém com outra profissão talvez não se preocupasse ou se importasse com o pastelão e apenas apreciasse o filme como comédia. Talvez qualquer outro espectador sem maiores preocupações não tenha se atentado aos detalhes ridículos de como o jornalismo é apresentado.

Que uma coisa seja dita: eu assisti ao filme antes de ler o livro. Alguém poderia dizer que eu esperava uma adaptação totalmente fiel. E, geralmente, quem assiste a uma adaptação cinematográfica de um livro querido tende a desgostar desta. Eu fui ler o livro justamente porque, pelo que lembrava (via jornalismo) não era aquele pastelão. Era uma história séria. O filme muda alguns personagens, suas nacionalidades, profissões etc. Tais detalhes não me incomodaram e não foram o motivo do meu desgosto. O que incomodou, e muito, foi ver o jornalismo ser um ator bobalhão na história e ser pano de fundo para uma comédia de erros quando a história real em que a obra foi baseada passar longe disso.

Juan Moreno, o responsável por desmascarar o falsário, era e continua sendo um jornalista freelancer. Ele, ao contrário de Relotius, não fazia parte da equipe da Spiegel. À época, mesmo antes do livro, ele falou inúmeras vezes sobre o caso para veículos jornalísticos, mas nunca pareceu uma pessoa arrogante, nunca clamou para si o papel de herói nem nunca maldisse o veículo. Ao contrário, muitas vezes se viu obrigado a defendê-lo, como afirma no livro. A revista errou. E muito. Mas Claas Relotius é o principal responsável.

Pela sua seriedade, muito me admirou que ele tenha aprovado tal adaptação. Bem, desconheço qualquer opinião dele sobre o filme. Tampouco estou certa de que ele tenha tido alguma participação no roteiro ou condução. Talvez tenha simplesmente aprovado o livro para ser adaptado, sem saber como exatamente seria o produto final. Se alguém quiser ver o filme, que veja. Mas, se quiserem saber o que realmente aconteceu, leiam o livro ou as reportagens sobre o caso. Hoje, é fácil traduzir sites. E há reportagens sobre o ocorrido também em portuguêsHá falsários por todas as partes. Reportagens podem ter mil linhas de mentiras. Mas o jornalismo não é feito só delas.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Juliana de Amorim Rosas é Pesquisadora Pós-doc no Erich Brost Institute (Alemanha), é doutora em jornalismo (UFSC) e pesquisadora associada do objETHOS