Quinta-feira, 14 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1388

“Não sobrou nada para o betinha”: quando a linguagem da machosfera se torna cultura pop

 

(Foto: Ron Lach/Pexels)

O post do influenciador ridicularizava expressões típicas das redes: “farmou aura”, “sabor de” e outras comuns a uma linguagem que absorve o que circula nas plataformas a uma velocidade difícil de acompanhar.

Eu estava fazendo o que a maioria das pessoas fazem por longas horas. Scrollando a tela do celular, consumindo conteúdo raso, passando rapidamente de um vídeo a outro, rindo de piadas de gosto duvidoso para um adulto na minha idade.

Parei naquele vídeo porque uma das expressões com as quais ele fazia piada me chamou mais a atenção do que as outras.

 “Não sobrou nada para o betinha”.

Não sei ao certo porque, mas desci aos comentários (o que é um erro, eu sei. A primeira versão do título da minha tese era “nunca leia os comentários”, algo que eu estava justamente fazendo naquela pesquisa). Achei um deles interessante. Em tom de piada, uma mãe dizia não aguentar mais ouvir o filho de 7 anos repetir que “não sobrou nada para o betinha”. Segundo ela, o menino tinha ouvido a expressão dos coleguinhas de escola e a repetia ironicamente em múltiplas situações.

No amplo jogo de disputas, apropriações e reapropriações da linguagem, é difícil dissecar uma expressão até encontrar a sua origem, empreitada a qual se dedicou Raymond Williams, mas na qual não me atrevo a entrar aqui. Os sentidos se constroem e reconstroem coletivamente e, como já apontado por Bakhtin, mudam conforme quem pronuncia e em que contexto. O que não muda é o fato de que a expressão “não sobra nada para o betinha” tenha sido amplamente apropriada e difundida entre influenciadores da chamada “machosfera”. Agora, ao que parece, integra o quadro da cultura pop.

Entre alfas e betas

O mundo dos chamados red pills hierarquiza os homens em dois grupos. Na linguagem interna da machosfera, “beta” é o homem subalterno, o que falha na conquista, o que não domina. Por outro lado há o “alfa”, na visão desses sujeitos, viril e bem-sucedido. A divisão, aparentemente simples, carrega uma arquitetura ideológica mais complexa: ela não apenas classifica homens, mas prescreve comportamentos, estabelece hierarquias e, sobretudo, define o que significa ser homem, especialmente quando tratamos de masculinidades em formação, como no caso de uma criança de 7 anos.

Essa construção tem raízes históricas complexas e bem profundas. Ela se alimenta de uma longa tradição de masculinidade hegemônica, conceito desenvolvido pela socióloga Raewyn Connell, que organiza as relações de gênero em torno de um modelo dominante de masculinidade ao qual todos os demais são subordinados. O que a machosfera faz é digitalizar e radicalizar essa tradição, empacotando-a em memes, vídeos e terminologias que circulam com velocidade e alcance sem precedentes. É curto, raso, repetitivo. Facilmente consumido no eterno scrollar das telas.

Um dos muitos problemas dessa construção é que ela é pública e performática. O homem alfa da machosfera não é apenas aquele que domina, é aquele que demonstra que domina. As plataformas digitais funcionam como palco: o influenciador que humilha, que rejeita, que “não dá moral” não está apenas expressando uma identidade, está produzindo um espetáculo de masculinidade para consumo coletivo. E esse espetáculo tem audiência, tem algoritmo e, claro, tem receita. Como mostrou o relatório do NetLab-UFRJ, 80% dos canais da machosfera brasileira utilizam alguma forma de monetização. Há um bom documentário na Netflix sobre o tema.

A machosfera produz uma masculinidade profundamente dependente do olhar alheio, uma masculinidade que só existe enquanto performance pública, enquanto aprovação do grupo, enquanto engajamento na tela. O homem que precisa provar a cada vídeo que não é beta revela, justamente nessa necessidade compulsória de prova, a fragilidade da identidade que tenta sustentar.

Agora imagine essa necessidade sendo introjetada na cabeça de meninos e adolescentes, para além dos enormes problemas que ela já causa em homens adultos e em suas vítimas, as mulheres. A enorme onda de violência contra elas é um dos resultados mais visíveis da propagação desses discursos.

Connell (2013) já apontava que as masculinidades não são fixas, mas construídas relacionalmente, em tensão permanente com outras masculinidades e com as feminilidades. O que a machosfera se recusa aceitar é que não existe um modelo natural e eterno de ser homem, mas disputas históricas, culturais e políticas em torno do que a masculinidade deve significar. Ao fingir revelar uma verdade oculta sobre os homens, a “pílula vermelha” como metáfora do despertar, ela está, na prática, fabricando uma ficção identitária e vendendo-a como natureza.

A disputa pela linguagem

Lugar de disputa constante, a linguagem é o campo da construção social da realidade. A língua não apenas descreve o mundo, ela o elabora. Quando uma expressão como “não sobrou nada para o betinha” migra dos fóruns da machosfera para o pátio de uma escola, ela não chega sozinha. Ela carrega consigo uma visão de mundo que prega que os homens se dividem entre vencedores e perdedores, que o fracasso afetivo é uma forma de derrota moral, que há algo errado com o homem que não domina. O menino que a repete é um sintoma preocupante do mundo que se constrói nas plataformas e que toma forma nas brincadeiras das crianças.

Os bakhtinianos nos ensinaram que o signo é ideológico, que cada palavra carrega as marcas de quem a usou antes e dos conflitos em que esteve envolvida. Mas há um passo além que importa aqui: quando um discurso se normaliza, ele deixa de parecer discurso. Deixa de parecer escolha, posição, ideologia. Passa a parecer senso comum, evidência. É exatamente isso que Stuart Hall identificava como o momento mais eficaz da operação ideológica: não quando ela convence, mas quando ela dispensa a necessidade de convencer.

A machosfera entendeu isso antes de muitos críticos. Ela não opera prioritariamente pelos argumentos, mas pela repetição, pelo humor, pelo meme, pela linguagem cotidiana. Infiltra-se nas conversas, nas piadas, nas expressões que os meninos trocam no recreio. E quando a linguagem normaliza, os comportamentos que ela carrega começam a parecer igualmente normais. O desprezo pela mulher que “passou dos 30”, a humilhação do homem considerado beta, a ideia de que afeto é fraqueza. Tudo isso não precisa ser ensinado explicitamente quando já está embutido nas palavras que circulam.

Daí a importância de nomear. Não para policiar a linguagem, mas para devolver a ela sua condição de escolha, de arena, de campo em disputa. Como diria Raymond Williams, as palavras têm história, e recuperar essa história é fundamental.

REFERÊNCIAS

CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, James W. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 241-282, jan./abr. 2013.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

NETLAB-UFRJ; MINISTÉRIO DAS MULHERES. Aprenda a evitar “esse tipo” de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube. Rio de Janeiro: NetLab/UFRJ, 2024. Relatório técnico.

VILAÇA, Gracila; D’ANDRÉA, Carlos. Da manosphere à machosfera: práticas (sub)culturais masculinistas em plataformas anonimizadas. Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 410-438, 2021.

VOLÓCHINOV, Valentin (Círculo de Bakhtin). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.

WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. Tradução de Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo, 2007.

Publicado originalmente em objETHOS.

***

Álisson Coelho é Doutor em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e pesquisador associado do ObjETHOS