Quinta-feira, 30 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

A fragmentação da web aberta e os desafios do jornalismo na era da IA

(Foto: Ann H/Pexels)

Desde 2025, a Google anunciou mais uma de suas tecnologias vendidas ao mercado como uma ferramenta revolucionária: o AI Mode, que agora substitui os resultados de busca na internet, que antes eram realizados por hiperlinks, por respostas em formato de conversa, mediadas pelo Gemini, seu chatbot de inteligência artificial.

A empresa, que abriu seu capital na bolsa em 2004, carregava a promessa de promover uma internet baseada na ampla circulação de informações e na democratização do acesso ao conhecimento. Em carta dirigida aos acionistas, seu cofundador, Larry Page, escreveu: “Acreditamos que uma sociedade que funcione bem deve ter acesso abundante, gratuito e imparcial a informações de alta qualidade”.

A Google se comprometeu com esse modelo e facilitou a porta de entrada para a chamada “web aberta” (open web), garantindo que milhões de sites dos mais diferentes segmentos do mercado fossem encontrados nas buscas por seus usuários por meio do sistema de hiperlinks.

A Economia da Atenção e a Concentração de Poder

Duas décadas depois, o Google consolidou esse modelo de negócio e tornou-se uma das empresas mais poderosas do planeta. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou uma receita de US$ 94,7 bilhões, impulsionada pelos avanços em computação em nuvem e inteligência artificial, que elevaram seu faturamento a um novo patamar histórico. Em conjunto com outras gigantes da tecnologia, como Nvidia, Apple e Microsoft, essas empresas concentram um valor de mercado que supera o PIB de economias como Japão, Índia, Brasil, Reino Unido, França e Itália. Trata-se de um poder econômico que movimenta bilhões de dólares na economia de dados e influencia a forma como as pessoas acessam, consomem e se relacionam com as informações produzidas pela mídia.

FONTE: Portal de resultados da Alphabet

Quando a IA Substitui a Busca

Recentemente, o Google também alterou a estrutura de sua caixa de pesquisa pela primeira vez em 25 anos. Agora, os usuários podem adicionar fotos e vídeos às consultas, delegando aos agentes de IA a tarefa de realizar buscas em seu lugar. Um processo que antes dependia da ação direta do indivíduo passa a ser mediado por sistemas treinados por algoritmos, que selecionam, sintetizam e priorizam informações antes mesmo que o usuário tenha contato com as fontes originais. Essa lógica torna os usuários cada vez mais dependentes desse modelo de acesso à informação, que entrega respostas de forma passiva e, muitas vezes, deixa de direcioná-los aos sites em que os conteúdos foram extraídos.

Em uma reportagem publicada pelo The New York Times, o jornal afirma que essa estratégia tem apresentado muitos efeitos. Os usuários agora passam mais tempo no Google. Segundo um estudo realizado em outubro do ano passado pela Growth Memo, uma newsletter especializada em marketing, constatou-se que 75% das sessões dos usuários nunca saíam do AI Mode para acessar a web. À medida que a empresa incorpora seus sistemas de IA, editoras, empresas, bancos, ONGs e instituições públicas que dependem do Google para direcionar o usuário até os seus sites estão enfrentando uma crise de audiência. Os estudos e pesquisas produzidos, assim como grandes reportagens, são apresentados em resumo pelo modo IA do Google, aprisionando seus usuários à limitação das respostas geradas pela IA.

Em um teste realizado para a escrita deste comentário, solicitei ao campo de busca do Google que apresentasse os resultados da pesquisa da Growth Memo. No resultado criado pela IA, ela apresenta um resumo em três linhas e indica dados superficiais da análise, assim como um único hiperlink para a consulta. Como a newsletter da Growth Memo é liberada apenas para assinantes pagos, a IA não consegue ter acesso às informações. O resultado apresentado não é fruto do conteúdo original, mas um compilado de informações obtidas de outros sites que mencionam o estudo. Dessa forma, os usuários que, em tese, deveriam pagar para ter acesso ao conteúdo são apresentados a uma versão superficial da pesquisa.

FONTE: Captura de tela dos resultados da IA do Gemini

A Reação da Indústria de Mídia

Na última semana, diversos órgãos de imprensa, como USA Today, Politico, The Economist, People e Reuters, anunciaram que estão avaliando os acordos realizados com o Google, devido ao impacto da IA na substituição das buscas tradicionais, segundo informações publicadas pelo The Wall Street Journal.

De acordo com a publicação, a iniciativa faz parte de um coro crescente de empresas de mídia digital que têm expressado frustração com a gigante de buscas, controlada pela Alphabet. Elas afirmam que o mecanismo de busca deixou de ser uma fonte confiável de visitantes, especialmente depois que o Google ampliou, nos últimos meses, seus recursos de busca baseados em inteligência artificial, o que vem transformando a forma como as pessoas fazem perguntas. Elas alegam, ainda, que a IA reduz o tráfego proveniente das buscas e abala os modelos de receita das editoras (Trecho da reportagem do jornal O Globo, 2026).

O debate crescente sobre limitar o acesso do Google a reportagens gratuitas produzidas pelos veículos de mídia faz coro a uma insatisfação das empresas com a utilização de bots, que já representam metade do tráfego pago na web. Parte desses robôs coleta dados de sites para treinar sistemas de IA; outros comercializam essas informações para empresas ligadas ao marketing e à publicidade. De um lado, existe um modelo de negócio financiado pelo Google, que se tornou altamente lucrativo, enquanto editoras, jornais e veículos independentes precisam navegar entre crises de confiança, credibilidade e também de financiamento, evidenciando cada vez mais a insustentabilidade desses acordos vendidos pelos diversos segmentos do marketing como indispensáveis para a comunicação do século XXI.

A Autoridade Jornalística em Disputa

No livro Journalistic Authority: Legitimacy in the Digital Era (em tradução livre, Autoridade Jornalística: Legitimidade no Ambiente Digital), ainda sem publicação no Brasil, o pesquisador Matt Carlson argumenta que o discurso que legitima a produção de notícias mediada por algoritmos concentra-se na eficiência e na capacidade dos modelos de inteligência artificial de processar grandes volumes de dados. No entanto, esse discurso deixa em segundo plano uma questão central: a desumanização do trabalho jornalístico e a precarização da produção de notícias, tratadas como processos cada vez mais baratos, escaláveis e facilmente replicáveis, desconsiderando os custos da apuração, da verificação e da técnica jornalística. Nesse contexto, os modelos de IA representam também uma ameaça direta à valorização e à permanência do trabalho humano nas redações.

Junto a esse discurso, a expressão de que os algoritmos são neutros também não pode ser tomada como premissa verdadeira. O autor afirma que os algoritmos possuem sua própria “política” e refletem preconceitos e decisões subjetivas de seus criadores, muitas vezes ocultados ao público. Esse cenário coloca os jornalistas sob uma pressão permanente para buscar uma nova base de autoridade por meio da criatividade e da reinvenção de novos modelos e práticas de sustentabilidade, uma disputa que dificilmente se equilibra, considerando que o poder das grandes empresas de tecnologia supera a capacidade de produção e divulgação do jornalismo mediado por pessoas. Segundo o autor, na era digital, a autoridade jornalística está refém de um sistema sociotécnico híbrido, em que as máquinas não são apenas ferramentas, mas atores que moldam o conhecimento público. Depois dessa análise, uma pergunta termina sem resposta: como criar modelos de jornalismo que sejam capazes de se sustentar em um mundo onde as empresas de IA fragmentam a produção do conteúdo e monetizam com a precarização da informação?

Para se Aprofundar no Tema:

Muralha de IA do Google leva jornais e agências a avaliarem romper com a big tech

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Resumo da pesquisa Growth Memo 2026

Estudo da Fortune sobre as maiores companhias de tecnologia do mundo

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Publicado originalmente em objETHOS.

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Andressa Oliveira é  Jornalista, pesquisadora do objETHOS e doutoranda do PPGJOR/UFSC