Sábado, 18 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1384

O relacionamento pantanoso do jornalismo com suas fontes

(Foto: Rafael Garcin/Unsplash)imprens

Durante muitos anos, nas escolas de jornalismo e mesmo nas salas de redação das empresas jornalísticas ocorriam, de tempos em tempos, discussões sobre os riscos (e possibilidades) da relação entre jornalistas e fontes.

“Fonte” aqui é entendida como a pessoa ou organização que tem informações que parecem ser relevantes para a construção de alguma reportagem. Diz o senso comum jornalístico que notícia boa é aquela que alguém não quer ver publicada. E, portanto, devemos desconfiar da notícia que alguém insiste muito para que seja publicada.

A divulgação dos eventos relacionados às redes de influência e corrupção criadas por Jeffrey Epstein nos Estados Unidos e por Daniel Vorcaro no Brasil ajudam a dar conteúdo real e prático às advertências contidas em muitos manuais de ética jornalística quanto ao que se chamava, genericamente, de “plantações”.

Depois que o poderoso manipulador foi preso e que seus crimes e arquivos começaram a ser publicados, fica relativamente fácil perceber a teia de interesses e os objetivos de cada enlace dessa teia. Mas o jornalista precisa lidar com redes de variada amplitude (paroquiais, municipais, estaduais…) cotidianamente. E nem sempre, antes que o escândalo principal estoure, é possível perceber por que o empresário tal, ou o deputado cicrano, ou o cidadão X estão dizendo isso ou aquilo, defendendo esta ou aquela posição. Ou oferecendo, com gentileza e sigilo, tal e qual informação.

Julgar o que é pura plantação a serviço de alguma manobra política ou empresarial e o que de fato é notícia importante para os leitores é coisa difícil. Que exige desconfiômetro bem calibrado. Num dos manuais de ética jornalística que ajudei a fazer, dei um exemplo de relação entre repórter e fonte, que acho oportuno mencionar:

O que dizer então da intimidade? A primeira coisa que um político esperto (ou um empresário atilado) faz é azeitar suas relações públicas. Trata jornalistas como irmãos de fé, camaradas. Dá tapinhas nas costas e oferece presentinhos que, no começo, são até bem inocentes. Ou distribui informações. Os políticos e seus assessores vivem querendo agradar os jornalistas. São simpáticos quando lhes interessa. E generosos quando sentem que o terreno é fértil. Tudo por quê? Porque, se conseguem ter um jornalista tolo “na mão”, fica fácil “plantar” as informações de seu (deles) interesse. E o tolo as publica como se fosse coisa exclusiva, obtida graças à sua capacidade e ao seu tino profissional. Não passam de fantoches, os coitados. (O caminho das pedras, Diarinho, Itajaí, 2012, pg 23)

Trata-se de um dilema profissional: como se aproximar do poder e dos círculos de influência para obter informações e, ao mesmo tempo, manter uma distância segura dessas mesmas pessoas e áreas? E, claro, é possível estabelecer um certo padrão de qualidade jornalística a partir da forma como o/a profissional lida com esse dilema.

É importante que as fontes tenham confiança no/a jornalista. E isso em geral ocorre quando vêem que suas declarações e informações foram publicadas corretamente. E é importante que o/a jornalista saiba se está sendo manipulado/a ou não e em que medida. E isso exige alguma vivência, experiência e, como já disse, “desconfiômetro equilibrado”. Não é, portanto, uma coisa banal, um relacionamento sem riscos. Uma apuração jornalística é sempre uma operação delicada e repleta de detalhes sutis. Com facilidade pode levar à morte da credibilidade profissional.

Em vários ambientes de produção de material jornalístico, atualmente, a carga de trabalho, a redução de equipes e a desatenção das chefias leva à supressão de uma etapa importante da apuração: o repórter não se relaciona mais diretamente com a fonte, não entrevista quem tem a informação. Recebe, de assessores de imprensa, as respostas que a fonte acha oportuno divulgar.

E há também exemplos radicais daquilo que disse logo no início (“devemos desconfiar da notícia que alguém insiste muito para que seja publicada”): por meio das assessorias enviam, como quem não quer nada, reportagens completas, às vezes com fotos e videos, prontas para serem publicadas. Para tristeza de quem ainda sonha com algum vigor ético no exercício do Jornalismo esses materiais, com assustadora frequência, são aproveitados sem alteração e sem informar ao leitor sobre a forma como foi obtido.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Cesar Valente é Jornalista, Mestre em Jornalismo e pesquisador do objETHOS.