Sexta-feira, 21 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1402

Inteligência artificial: nova fronteira de desigualdade no jornalismo?

(Foto: cottonbro studio/Pexels)

Transformações tecnológicas afetam o jornalismo de diferentes formas, impactando rotinas, práticas, linguagem, difusão de conteúdo e formatos. Esse não é um processo novo, muito menos recente. A evolução da sociedade e seus hábitos impactam diretamente a indústria jornalística; porém, o papel central do produtor de notícias jamais havia sido questionado de forma tão contundente quanto nos dias atuais, com a adoção da inteligência artificial nas redações. Estudos sobre a percepção dos jornalistas, desenvolvidos em vários lugares do mundo, convergem na necessidade de garantir o “humano no centro” da produção, tendo a tecnologia como aliada, e não como substituta. Mas é isso mesmo que acontece na prática?

A integração da inteligência artificial (IA) no jornalismo ocorre de forma desigual, reforçando assimetrias estruturais entre conglomerados de mídia de elite e redações locais com recursos limitados. Essa assimetria amplifica uma profunda divisão tecnológica na indústria jornalística, composta por diferentes níveis de desigualdade, decorrentes de disparidades regulatórias, econômicas, de acesso, de infraestrutura, de literacia no uso da tecnologia, de difusão, de remuneração dos conteúdos, de aceitação do público, entre outros.

Em um artigo publicado na revista Behaviour & Information Technology, Teresa Hammerschmidt, Katharina Stolz e Oliver Posegga debatem o conceito de AI Divide: uma forma multidimensional de desigualdade, marcada por disparidades nas capacidades de indivíduos, organizações e sociedades para desenvolver, acessar e obter benefícios sustentáveis das tecnologias de Inteligência Artificial. No jornalismo, isso se observa em diferentes níveis (transnacional, nacional, regional e local), sem se restringir apenas às regiões do mundo economicamente mais vulneráveis. Por exemplo, enquanto grandes veículos podem arcar com a criação de subsidiárias ou laboratórios especializados em IA, redações menores frequentemente recorrem a ferramentas comerciais, o que amplia sua dependência das big techs.

Desigualdades de uso e amplificação da precariedade

Em um estudo realizado na Grécia, Ioanna Kostarella e colegas afirmam que jornalistas locais frequentemente atuam como “canivetes suíços”, recorrendo a ferramentas de IA como assistentes ad hoc para lidar com volumes esmagadores de tarefas. Embora a tecnologia possa agilizar atividades rotineiras como transcrição, busca de dados e tradução, o tempo economizado é frequentemente realocado pela gestão para atribuições adicionais, em vez de reportagens aprofundadas ou investigativas. Os autores argumentam que, em desertos de notícias, a adoção de IA é comumente impulsionada por repórteres tecnologicamente experientes, e não por estratégias organizacionais coerentes. Muitos permanecem alheios a ferramentas específicas de IA que poderiam apoiar seu trabalho diário, devido a restrições econômicas e estruturais.

A persistente falta de treinamento técnico amplia ainda mais a lacuna entre o potencial da IA e sua aplicação prática. No Reino Unido, embora mais da metade (56%) dos jornalistas entrevistados usem inteligência artificial profissionalmente pelo menos uma vez por semana, apenas um terço recebeu treinamento do seu empregador. Homens e jornalistas jovens são os usuários de alta frequência entre os jornalistas ingleses.

O resultado é a fragmentação dos fluxos de trabalho e a ausência de diretrizes éticas padronizadas que regulem o uso de IA na mesma redação. E, neste ponto, aparece outra dimensão de desigualdade: a de literacia da equipe, ou seja, a habilidade de uso. A disponibilidade da tecnologia não significa que todos tenham as mesmas condições de aprendizado, treinamento, suporte à qualificação e compreensão crítica dos limites da tecnologia para sua incorporação ao jornalismo. Fazer uso adequado demanda compreender a tecnologia, suas limitações, potencialidades, riscos, linguagem e como interagir com ela. Este treinamento ainda fica sob responsabilidade dos jornalistas, em muitos lugares, o que cria um desnível técnico e de conhecimento que contraria o objetivo central de aprimorar as rotinas e processos das organizações jornalísticas.

A inteligência artificial pode ser uma aliada do jornalismo, mas isso não acontece automaticamente. É preciso entender em que condições essa tecnologia chega às redações, quem consegue utilizá-la, quem recebe treinamento e quem se beneficia dos ganhos de produtividade. Onde há infraestrutura, investimento, treinamento e pessoas especializadas, a tecnologia pode potencializar o trabalho. Já nos locais em que essas condições não existem, ela pode intensificar desigualdades existentes e aprofundar a precarização do trabalho jornalístico.

Fontes consultadas para escrever este texto:
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Publicado originalmente em objETHOS.

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Janara Nicoletti é pesquisadora de jornalismo, docente na Universidade de Siegen e DW Akademie e pesquisadora associada ao objETHOS