
(Foto: Ricardo Stuckert/PR)
O ano de 2025 vai terminando e cresce um novo entusiasmo no audiovisual brasileiro com a trajetória de prêmio, indicações e recordes de bilheteria do filme “O Agente Secreto”, do diretor Kleber Mendonça. Seguindo a trilha do filme de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que saiu vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional e foi ovacionado no Festival de Veneza, o filme estrelado por Wagner Moura já ganhou Melhor Direção e Melhor Ator em Cannes e está indicado em três categorias para o Globo de Ouro. Em 2026, a cerimônia do Oscar será um mês depois do carnaval, então já não dá para dizer que a trajetória dos dois filmes será a mesma nem os resultados. Mas não é essa a questão. Este texto é um comentário sobre os elementos da trajetória de foguete de “Ainda Estou Aqui” e o que ela tem a ver com a arquitetura da comunicação contemporânea e, em especial, com o jornalismo[1]. Com isso, quem sabe a gente fique atento a esses e outros elementos no caminho de outros filmes brasileiros na busca por reconhecimento, recursos e público.
A conquista de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025 do filme brasileiro Ainda Estou Aqui foi uma espécie de ‘alinhamento de planetas’. Além de acontecer em pleno carnaval no Brasil, a vitória no Oscar foi o último evento de uma campanha internacional de seis meses que contou com a presença do filme em festivais em diversos países e uma atuação multimídia, que articulou a cobertura jornalística, entrevistas da equipe a jornalistas de vários países e a repercussão nas redes sociais e na imprensa brasileira. A trajetória internacional do filme foi determinante no desenho do céu dessa reunião de fatores.
No Brasil, não havia estreia nacional do filme e tampouco ele circulava em festivais ou exibições. Em setembro de 2024 vem a notícia do sucesso de crítica e de público especializado, aplaudindo o filme de pé por 10 minutos no Festival de Veneza de 2024 e concedendo o prêmio de melhor roteiro. Naquele momento, a primeira repercussão de massa acontece com a cobertura jornalística do festival. A trajetória internacional anterior à nacional, no volume que teve e desde o início com notícias de sucesso, pode ter servido inclusive de blindagem ao filme contra críticas produzidas pela polarização política e por rótulos eventualmente aplicados pelas ativas redes da extrema direita brasileira.
Reconhecimento nacional e internacional
Contudo, Ainda Estou Aqui além de conquistar públicos progressistas, furou bolhas e alcançou públicos mais amplos. Nesse aspecto, tanto a dinâmica convergente da trajetória de seis meses de Veneza ao Oscar quanto o fato disso ter acontecido longe do Brasil colaboraram para a ampliação do impacto positivo no país. Com as sucessivas premiações e a fruição através da comunicação nas redes e da imprensa internacional, com muito conteúdo legendado chegando ao Brasil, Ainda Estou Aqui construiu um reconhecimento nacional a partir de fora, chegou ao público e fez história.
A partir dessa ancoragem internacional, Walter Salles sabia o que queria. A estratégia explicada pelo diretor era de apresentar o filme no maior número de lugares possível. Fazer com que o filme fosse visto. Em cada lugar onde o filme foi exibido, teve como resultado premiações, exposição dos atores, que participaram presencialmente, junto com o diretor, dessa peregrinação internacional, e produção de entrevistas com jornalistas locais e internacionais, inclusive de veículos brasileiros. Em uma trajetória crescente, e relativamente rápida, a articulação entre presença e produção jornalística foi combinada e amplificada com a atuação do público nas redes sociais. Especialmente do público brasileiro.
Mais do que amplificada, a atuação do público nas redes redesenhou a trajetória e a comunicação do filme. Recentemente o presidente da Academia do Oscar, Bill Kramer, esteve no Brasil e deu entrevistas sobre o impacto das postagens nas redes sociais da premiação com a imagem da atriz principal do filme, Fernanda Torres, e da presença dos brasileiros engajando em comentários, curtidas e compartilhamentos. “O movimento certamente fez os votantes prestarem atenção no filme e na atuação dela”, avaliou Kramer em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em matéria publicada em 4 de outubro de 2025. “Ficamos sem entender o que estava acontecendo. Todos aqueles comentários em português, foi fantástico. Pensamos: ‘é, estamos mesmo globais’”.
O presidente do Oscar contou, na vinda ao Brasil para acompanhar o Festival de Cinema do Rio, como aconteceu o movimento fora do comum da audiência brasileira nas redes sociais da Academia, especialmente o Instagram, já dois meses depois da aparição do filme no Festival de Veneza. “Em novembro, tivemos um evento em que nós damos Oscars honorários a cineastas. E Fernanda participou daquele evento. Se chama ‘Governors Awards’. E quando nós postamos a foto de Fernanda houve uma explosão de alegria, excitação e engajamento nas nossas redes sociais que permaneceu assim desde aquele momento”. Bill Kramer se refere à postagem da conta da Academia do Oscar (@theacademy) no dia 18 de novembro de 2024 que, nos dias e semanas seguintes chegava a cada dos milhões de interações (quase um ano depois[2] a postagem tem quase 3 milhões de curtidas e 843 mil comentários). Enquanto as postagens do mesmo período chegam em média a 10 mil curtidas, com uma delas alcançando a marca de pouco mais de 100 mil curtidas como é o caso da publicação com a foto de Kate Winslet ou Demi Moore, com quase 60 mil. “Nós ganhamos milhares de novos seguidores depois daquele momento. Muitos do Brasil. E mesmo hoje se você for até os nossos canais, você vai ver muitos comentários em português. Então nós amamos aquele momento”[3].
Fernanda Torres viraliza nas redes
Esse movimento da audiência brasileira nas redes sociais não se deu apenas nas contas relacionadas ao Oscar, mas na dinâmica de contas pessoais, na produção de memes e na recuperação de trabalhos de Fernanda Torres na televisão. A atriz tem uma vasta produção de televisão com trabalhos de comédias em séries da TV Globo como “Os Normais” (no ar de 2001 a 2003), quando fazia par com o ator Luiz Fernando Guimarães, e na série “Entre Tapas e Beijos”, que foi ao ar de 2011 a 2015, quando contracenava com Andrea Beltrão. E tudo isso passou a ser revisto nas redes sociais, em “cortes”, ou seja, em vídeos curtos com trechos de cenas das séries. As personagens Vani e Fátima voltaram a ser sucesso nas redes da audiência brasileira, que ainda não tinha visto o filme de Walter Salles, mas que engajava na disputa pelo Oscar, revisitando as personagens de comédia de Fernanda Torres, interagindo com a presença da atriz na campanha de Ainda Estou Aqui e com o périplo da equipe nos festivais internacionais e em entrevistas para jornalistas dos países em que passavam.
Nessa ideia de pensar numa constelação de componentes que conduziram o filme ao prêmio internacional e à popularidade junto ao público brasileiro, o jornalismo também teve uma presença importante nessa conjugação convergente de comunicação. Especialmente através de entrevistas, o jornalismo profissional aparece como um dos protagonistas dessa comunicação à medida que costura a factualidade da presença do filme e da equipe nos eventos relacionados ao cinema, seleciona com critério de noticiabilidade o desempenho e a conquista de premiações do filme, repercute com o público no Brasil e dialoga com atores e com o diretor. Isso é feito pela imprensa brasileira no exterior e por jornalistas em cada um dos países em que o filme é exibido.
Especialmente as entrevistas, quase todas produzidas fora do Brasil, agendadas pelo roteiro de festivais internacionais. Elas tiveram grande repercussão na audiência nacional e passaram também a circular integralmente e em “cortes” nas redes sociais brasileiras, onde o material é mais uma vez material transformado, refeito, comentado, transformado em ‘memes’. Fernanda Torres foi chamada de diva, de “mãe”, de “totalmente indicada”, “totalmente oscarizada”, “totalmente premiada”, criando e circulando bordões mais uma vez misturando a rememoração de histórias antigas que circularam nas redes, entrevistas em que ela contava casos passados, personagens e entrevistas para a divulgação e comentário da repercussão do filme.
Jornalismo, entretenimento, memória
Cada entrevista concedida a jornalistas na época da divulgação do filme, especialmente as realizadas por Fernanda Torres, produziu um ‘azeitamento’ fundamental dessa engrenagem em alguns momentos entendida pela produção, que escolheu esse caminho de circular presencialmente pelo exterior, proporcionando essa presença, a produção de conteúdo através dos festivais e se afastando da exibição no Brasil até aquele momento. Mas em outros simplesmente o jornalismo e a comunicação em torno do filme foram partes de uma dinâmica da convergência. A cada entrevista, Fernanda Torres oferecia uma reflexão nova e renovada do filme a partir da repercussão da obra e das entrevistas anteriores.
As entrevistas da atriz (e as de Selton Mello, ator, e de Walter Salles, diretor) deram ênfase a ideias como a de que o filme, além de tratar da ditadura brasileira, fala sobre família porque mostrava as transformações na vida de uma mãe e seus quatro filhos, após o desaparecimento do marido. Ela falava ainda sobre a “jornada do herói”, que se refere à mitologia, mas que é também uma referência conhecida sobre uma forte tradição narrativa do cinema. A trajetória no caso é a da heroína do filme, Eunice Paiva, que inicia a história como a dona de casa que tem uma vida estável e feliz com a família e encerra a narrativa como uma proeminente advogada, atravessada pelos desafios de perder o marido e passar a vida em busca de respostas para o seu desaparecimento e o reconhecimento da morte pelo Estado.
Ao longo das entrevistas, comentando o filme e construindo um contexto fora dele, Fernanda Torres passou a falar sobre a relação de mãe e filha, mais precisamente a dela própria com a mãe, a também atriz Fernanda Montenegro, que participa do filme fazendo uma versão mais velha da personagem interpretada por Torres. Ela incorporou essa ideia aos comentários sobre o filme incluindo ainda a coincidência de Walter Salles ter dirigido a mãe em Central do Brasil, que duas décadas antes havia conquistado a indicação ao Oscar de Melhor Atriz e não levou o prêmio. Muitas das entrevistas de Fernanda Torres sobre o filme foram realizadas em inglês a jornalistas dos países onde o filme passava, chegando à audiência estrangeira (local) e à audiência brasileira, legendadas, que repercutia nas redes no Brasil e nos canais institucionais dos festivais e prêmios como o Oscar.
Por meses essa dinâmica foi sendo repetida e construindo, nessa interação e atravessamento do jornalismo e das redes sociais, o caminho de popularidade e impacto até chega ao Oscar do 2025. O entretenimento tem conseguido compreender muito mais essa nova arquitetura da comunicação contemporânea, que implica em estratégias de preparação para a atuação mas, sobretudo, da participação e do acompanhamento ativo e reflexivo ao longo do processo, entendendo a transformação no papel ativo e participativo da audiência, a atuação transmídia e as inovações tecnológicas, a presença física e a circulação e declaração de pessoas, o papel do afeto e das emoções e ainda o lugar do jornalismo e das mídias sociais, em diálogo, nesse caldo. Diante da trajetória de “Ainda Estou Aqui”, pode observar desempenhos de novos filmes como “O Agente Secreto”, que também traz o jornalismo com um dos componentes para tratar de memória. Mas isso é assunto para outros “Comentários da Semana” em 2026.
[1] Trechos do texto foram apresentados originalmente no Encontro da Rede de Investigadores de Comunicação Internacional (ERICI) de 2025.
[2] Esses são números encontrados na postagem em acesso realizado em 6 de outubro de 2025.
[3] Bill Kramer em entrevista à Globonews no Brasil outubro de 2025.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Vanessa Pedro é Jornalista, doutora em Literatura pela UFSC e pesquisadora associada do objETHOS/UFSC
