
(Foto: Anna Keibalo/Pexels)
Escrevo este texto como quem participa de uma conversa que vem de longe e se atualiza semanalmente neste blog: a sintomatologia de um jornalismo alquebrado em busca de dias melhores. Não discordo dos diagnósticos, a maioria dos quais de uma precisão e clareza notáveis. O que me interessa, no entanto, são os prognósticos que eles insinuam diante de uma sociedade cada vez mais dependente das mediações sociotécnicas na articulação de processos sociais a processos midiáticos em larga escala.
Genro Filho (1987) acreditava que o jornalismo era indispensável para sociedades complexas como as nossas, porque atenderia às necessidades de informação que elas demandam. Meditsch (1997) atribui ao jornalismo a capacidade de produzir para a sociedade um tipo de conhecimento centrado na realidade. Resulta de ambos que a legitimidade do jornalismo vem dessa condição de articular as necessidades de informação ao conhecimento indispensável sobre o real.
Mas lendo atentamente as análises e críticas que se fazem aqui sobre a performance jornalística atual, e acompanhando diariamente o próprio trabalho jornalístico, depreendo que o jornalismo não fornece nem bem a informação que a sociedade supostamente necessita, nem bem o conhecimento indispensável sobre a realidade – pelo menos no chamado jornalismo de referência ou corporativo. As razões para isso são muitas e estão bem documentadas nos artigos aqui publicados. Cito dois exemplos recentes: o artigo da Schirlei Alves, sobre as pressões e violência que moldam a produção jornalística, e o da Sílvia Meirelles, sobre Neymar e a mídia.
Entendo que há dois problemas entrelaçados nesta equação informação-conhecimento. O primeiro tem a ver com uma aparente contradição entre as necessidades de informação da sociedade e as informações necessárias para a sociedade. Esse problema tem sido formulado, a meu ver, com a distinção entre interesse do público e interesse público. Esta distinção parece ser inconciliável a tal ponto que, ou o jornalismo será relevante se atender ao interesse público, ou não será. A questão, no entanto, é entender por que o interesse do público é tão diferente do interesse público. Ou seja, por que razão aquilo que a sociedade considera necessário não corresponde às informações que supostamente seriam necessárias e indispensáveis. Em parte, a resposta está no jornalismo que, em busca de audiência e engajamento, já não distingue um do outro. Mas também tem desdobramentos sobre o segundo elemento da equação: o jornalismo como produtor de conhecimento sobre a realidade.
Se as notícias são produto de todo tipo de constrangimento e pressão – violência e marketing, poder e capital econômico, fontes e enquadramentos, por exemplo –, a realidade que podemos conhecer é determinada por estes fatores e por um interesse do público forjado em práticas discursivas altamente midiatizadas por meio de redes sociais digitais e uma indústria de algoritmos que moldam esse interesse. Neste mercado discursivo midiatizado, o jornalismo passa a ser mais um a disputar audiência e espaço de atenção, e sua legitimidade ou capacidade para produzir a informação de interesse público parece perder relevância. O conhecimento da realidade que advém daí passa a ser um saber coisas sobre o mundo, um saber referencial, superficial, panorâmico. Aqui jornalismo e sociedade são feitos da mesma matéria.
Contudo, há que se considerar que as sociedades complexas, justamente por serem complexas, não formam um todo homogêneo. Elas têm necessidades de informação e interesses difusos, que o jornalismo, ele também heterogêneo, jamais poderá atender plenamente. O que o jornalismo pode e faz é oferecer um menu de acontecimentos, que ele seleciona e hierarquiza segundo certos interesses e necessidades que respondem à vontade de saber da parcela da sociedade para a qual ele trabalha. O conhecimento, então, não está no resultado da produção jornalística, mas na combinação entre o que cada parte da sociedade pode saber pelo jornalismo e o modo como ela articula este saber a outros saberes de referência que compõem seu contexto, preferência, interesse e necessidade.
A crítica ao jornalismo, embora justa e necessária, muitas vezes está sustentada num modelo de jornalismo que não tem amparo na sua historicidade. O bom e o mau jornalismo são produto desta sociedade heterogênea, fragmentada e complexa, que a atividade jornalística ajuda a moldar. Jornalismo e sociedade se encontram nesta mutualidade.
O problema da crítica, no entanto, não é o diagnóstico, correto e preciso, mas o que ela insinua. E o que ela insinua é que um dia o jornalismo teria sido mais do que é e que, no futuro, poderá ser mais do que tem sido. Então, se as condições de produção do jornalismo são tão determinantes como a crítica o demonstra, o atendimento das necessidades de informação da sociedade e a produção de um conhecimento genuíno sobre a realidade não podem ser debitados integralmente na conta do jornalismo.
Porque, sendo o jornalismo o que é, nas circunstâncias em que se encontra e na sociedade com a qual interage, a sua legitimidade só poderá ser afirmada pelo reconhecimento dos seus limites diante de um mundo cada vez mais atravessado por outras mediações.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Ricardo Z. Fiegenbaum é Jornalista e professor, doutor em Ciências da Comunicação e pesquisador do objETHOS
