Quinta-feira, 6 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1400

O que as BETS estão fazendo no Brasil não tem nome. E o jornalismo com isso?

(Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels)

Recentemente, a Agência Pública iniciou uma série de reportagens sobre os impactos sociais, emocionais, políticos e econômicos das BETS na sociedade brasileira. Acompanhada de um manifesto assinado por mais de 60 veículos jornalísticos, a série mostra uma verdade incômoda para quem acompanha os efeitos devastadores da liberação das apostas on-line no país: aquilo que as BETS estão fazendo no Brasil não tem nome. Sem um termo adequado para descrever aquilo que estamos vivenciando, a movimentação iniciada por diversos jornais brasileiros mostra a urgência e a importância de a imprensa contribuir efetivamente para nomear esse problema.

Se partimos do entendimento de que o jornalismo é uma forma social de conhecimento que é parte do todo e chega no singular, de pronto reconhecemos a importância de problematizar as BETS na produção noticiosa. Para isso, voltamos à Filosofia, especialmente à Filosofia Feminista, para localizar a contribuição da imprensa no processo de nomeação daquilo que vem corroendo o Brasil. Por meio abstrato que a contribuição jornalística pareça nesse processo, são as notícias e reportagens que poderão auxiliar no processo de conceituação do fenômeno. Não é que o jornalismo, sozinho, dará um nome ao que as BETS estão fazendo, mas ele fornecerá alguns fragmentos do real para o conceito que irá interpretar a situação.

Para pensar como o jornalismo pode atuar no processo de constituição de um suporte simbólico para dar expressão às vítimas e aos processos que envolvem as apostas on-line, buscamos na filósofa Miranda Fricker um conceito central para nossa discussão: o de injustiça hermenêutica, umas das formas de injustiça epistêmica que incide em alguns grupos sociais. A injustiça hermenêutica – cujo termo já denuncia a proximidade com o campo jornalístico – é um processo que afeta como o conhecimento e os sentidos são produzidos, disseminados e compreendidos coletiva e individualmente. Essa forma de injustiça epistêmica não permite que conceitos adequados para interpretar uma experiência coletiva sejam criados, nos tornando incapazes de explicar o que estamos vivendo. Como consequência, os grupos que sofrem com violências sem nome ficam sem voz.

Voltando nosso olhar para o fenômeno das BETS no país, a injustiça hermenêutica fica evidente. Faltam-nos recursos simbólicos – palavras ou expressões – para explicar o que está acontecendo e a amplitude da crise gerada pelas apostas on-line. Não se trata apenas de um vício, de uma prática criminosa, de uma atividade recreativa, de um jogo de azar, de uma violência psicológica, de um assédio publicitário, de um passatempo ou tantas outras perspectivas que podemos acionar. Na ausência de um termo significativo, recorremos a analogias para tentar dimensionar o problema – o que acaba criando problemas maiores. 

Sem ter como expressar a questão de forma clara e precisa, sufocamos situações individuais, inibindo que as vítimas possam se expressar e atuando na manutenção desse processo corrosivo. Em outros casos, focamos apenas em uma dimensão e esquecemos de relacionar com outras que também são suas constituintes. O mais agravante é quando alguns estereótipos são produzidos – ainda que de maneira não intencional –, deturpando ainda mais o problema e reduzindo as tentativas de compreensão da problemática. Tudo isso ressalta a importância de se debater cada vez mais os impactos das apostas on-line em sua especificidade – e aqui entra o jornalismo.

Enquanto conhecimento social, o jornalismo consegue traduzir várias dimensões de um mesmo problema de forma que a sociedade reconheça o que está acontecendo – e mais, para que o indivíduo possa se reconhecer no interior desse fenômeno. Não apenas em um sentido ideológico ou informacional, no qual o jornalismo seria um discurso silenciador de outros ou com a atribuição de iluminar as mentes com dados e informações sobre o real diário; o jornalismo como conhecimento é uma forma de promover a compreensão por meio da contextualização do todo vinculando-o às experiências singulares. Em outros termos, a produção jornalística é o que faz o indivíduo se tornar coletivo.

Desde a perspectiva filosófica que adotamos, a problemática das BETS toca o jornalismo por ver nele o suporte para a constituição de um nome para o problema que vivemos. Partindo de Miranda Fricker, quando falamos de injustiça hermenêutica devemos observar quatro dimensões fundamentais. Faremos isso com auxílio da produção jornalística para exemplificar nossa argumentação.

O local de partida é a falta de vocabulário social, pois ainda não construímos recursos conceituais – nomes ou expressões – e ferramentas suficientes na nossa cultura para dar o real significado e a dimensão ao que as vítimas de apostas on-line estão sofrendo. Ao ler as reportagens sobre a temática nos deparamos com expressões como: “eles [as BETS] são traficantes”, “as BETS são um problema de saúde pública”, “vício em jogos”, “oportunidade de renda extra”. Os diferentes discursos nos mostram que há distintas dimensões para conceituar esse problema e que, muitas vezes, quando falamos de uma, ocultamos outras.

Sem esses instrumentos de compreensão, as experiências individuais não conseguem se tornar coletivas. É como se cada indivíduo que foi prejudicado pelas BETS vivesse aquilo individualmente, e a pessoa que tem contato com o fenômeno não consegue localizar a sua experiência no coletivo. Sem o conhecimento significativo, não há como reconhecer o verdadeiro problema que as apostas on-line geram na sociedade – e, mais do que isso, compreender que é um problema social, não individual, como a falta de um nome comum pode sugerir.

O silenciamento pelas estruturas de poder é outro aspecto. As forças que moldam o debate público, a produção de conhecimento e a divulgação de informações não favorecem a expressão das vivências (violentas) dos apostadores. O status quo atual favorece apenas quem lucra com o sistema. A série de reportagens da Agência Pública demonstrou como, no Congresso Nacional, há um movimento para blindar as empresas de apostas; que há aportes milionários em veículos de mídia que fazem propagandas da prática de aposta; e que empresas de apostas são negociadas na bolsa de valores.

Diretamente vinculada ao ponto anterior, a marginalização social também se manifesta quando falamos da incapacidade de compreensão do fenômeno das BETS. Grande parte das vítimas das apostas on-line pertence a grupos socialmente vulneráveis, que historicamente já têm os seus conhecimentos, as suas dores e as suas experiências constantemente questionados e invalidados. Reportagens sobre a temática evidenciam que as pessoas da Classe D e E são as que mais gastam com as apostas, retirando o orçamento de outras áreas financeiras e que os jovens com menos de 30 anos estão buscando cada vez mais atendimento especializado em vício de jogos.

Como resultado, temos o processo de ininteligibilidade do problema, ou seja, a falta de compreensão coletiva desse fenômeno impede que as vítimas consigam entender a gravidade do que estão passando e, consequentemente, saibam como buscar ajuda ou reparação. Socialmente, isso gera um certo reducionismo e estereotipação do problema, minimizando a influência do todo em cada pessoa que tem contato com as apostas on-line. Sem compreender o problema, não há como buscar solução.

Com isso, queremos nos posicionar na defesa de que se a imprensa por si não resolverá o problema, tampouco ela deva se furtar de expor, problematizar e apontar os efeitos nocivos da prática. O jornalismo não dará o nome, mas é a forma mais eficaz para tornar compreensível a questão das BETS. Porque não basta dar o nome ao fenômeno para que ele passe a existir – é necessário que um conceito explicativo seja trabalhado ao longo do tempo. Recorrendo a um exemplo prático, as mulheres não passaram a ser assassinadas por serem mulheres apenas quando se nomeou feminicídio. O que o termo ampliou foi a compreensão social do tema, inserindo as multidimensionalidades que envolvem esse processo.

E já que o problema das BETS no Brasil ainda não tem nome, a principal forma de conhecimento social – que é capaz de articular o todo ao individual, o coletivo ao singular, de situar o indivíduo na totalidade vivida – se furtará a ajudar na compreensão do problema? O jornalismo talvez não dê o nome para o problema, mas com certeza dará os elementos necessários para compreender a epidemia de BETS que vem devastando a sociedade brasileira.

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Wellington Felipe Hack é Jornalista e Mestre em Comunicação. Estudante de Filosofia. Doutorando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM. Integrante do milpa – laboratório de jornalismo (CNPq/UFSM) e bolsista de doutorado CAPES.