
(Foto: Joshua Miranda/Pexels)
Um incômodo que serviu de pontapé inicial para a pesquisa do meu doutorado foi alimentado pela dissertação da pesquisadora Gabriela Bregolin Grillo sobre jornalismo e emoções e tinha a ver com porquê, quando o assunto é a ascensão das fake news; do negacionismo; e do fascismo através das plataformas digitais, nós insistimos em tentar intervir apenas na racionalidade, mesmo quando reconhecemos causas afetivas nesses fenômenos. A forma como a educação midiática é apresentada pela própria mídia é um bom exemplo, ainda que não o único.
Já deve fazer pelo menos uma década que a gravidade da crise da pós-verdade é relativamente consensual, afinal dois dos exemplos mais visíveis e importantes dela — o Brexit e a 1ª eleição de Donald Trump nos Estados Unidos — aconteceram em 2016. Tanto profissionais e pesquisadoras(es) do jornalismo quanto o público parecem estar de acordo que a desinformação em seus diversos modelos, fake news; negacionismo; teorias da conspiração etc., precisa ser combatida. A noção é tão consolidada que mesmo quem faz parte de grupos fervorosamente adeptos da desinformação — como os bolsonaristas convictos — costuma concordar que o problema existe, ainda que seja pra dizer que quem divulga desinformação é a “mídia comunista comprada pelo governo chinês” blá-blá-blá…
Faz sentido então a preocupação da imprensa em apresentar soluções para lidar com a situação, e uma que aparece com frequência é a educação midiática. Como um conjunto de ideias e práticas voltadas a capacitar as pessoas para lidar com as mídias, a educação midiática é bem anterior às nossas dores de cabeça com as plataformas digitais das big techs. O conceito já circulava por aí quando a preocupação era que “a televisão vai deixar todo mundo burro” mas parece estar ganhado uma atenção especial nesses tempos que a antropóloga Letícia Cesarino classifica como de crise permanente.
Surge, entretanto, um descompasso entre parte do diagnóstico e as soluções apresentadas quando o assunto é a educação midiática como ferramenta de combate à desinformação. A matéria Por que as pessoas acreditam em fake news?, publicada em 2023 pelo UOL Confere — agência de checagem do UOL — é um exemplo didático. O texto começa com “Por que alguém acredita que vacinas contra Covid-19 contêm um suposto vírus causador do câncer? Ou que um decreto presidencial mudou o nome de coxão duro para picanha? Ou até que a erva-doce é usada para produzir Tamiflu? As emoções são a chave para entender a questão” (grifo meu). Logo depois vem uma citação atribuída à fundadora de uma organização que trabalha com educação midiática junto a influenciadores digitais “A nossa relação com a informação é emocional, não é racional. E o ser humano não faz boas avaliações quando ele está tomado por emoções”. Há uma clara convicção da existência de uma dimensão emocional na adesão às fake news, mas o texto prossegue para colocar a seguinte pergunta: “Como lidar, então, de forma racional com uma questão [que] é, essencialmente, emocional? Uma das soluções passa pela educação midiática” e depois realmente apresenta uma série de capacidades pautadas na racionalidade, como “saber diferenciar fatos de opiniões” e “buscar as fontes da informação”.
Esse descolamento, entre, de um lado, uma análise de que emoções são chave para entender a adesão à desinformação e, do outro, propostas de intervenção que ignoram a dimensão emocional e se propõem a lidar apenas com a racionalidade, segue se repetindo em outras matérias sobre o assunto em maior ou menor grau. Qual a motivação disso? Uma resposta possível é que o jornalismo — essa instituição da modernidade racional — tenha treinado jornalistas para considerarem que as soluções sempre se dão através da racionalidade, mesmo quando o problema tem caráter emocional. Talvez principalmente quando é emocional, essa dimensão que a modernidade associa a sujeitos que um dia classificou como inferiores, as mulheres; as crianças; as pessoas loucas; os animais.
Obviamente, fontes especializadas como cientistas que pesquisam o tema também participam da construção desse discurso, mas afinal o próprio método científico é um dos principais pilares da modernidade. Se esse for o caso, seria importante que isso fosse articulado claramente. Afirmar que a aposta de especialistas e jornalistas é que intervenções na racionalidade do público podem sim, de alguma forma, resolver essa dimensão emocional.
Outra opção é que quem participa da construção desse discurso talvez enxergue as emoções como um limite que a educação midiática não alcança, afinal estamos falando de uma tradição pautada principalmente em formas de intervir no mundo a partir da racionalidade. Mas se for realmente o caso de jornalistas e especialistas acreditarem que as colaborações que esse saber pode oferecer se limitam à dimensão racional — e deixar a intervenção sobre aspectos emocionais a cargo de alguma outra instância da sociedade — essa também é uma posição que precisava estar clara.
O cenário de crise permanente em que nos metemos não parece dar sinal de que está indo embora em um futuro próximo, e elementos como a crise climática só prometem intensificá-lo, portanto precisamos encarar com seriedade as discussões sobre as ferramentas que temos para lidar com ele. A própria efetividade de estratégias como a educação midiática, focadas no público e não em quem lucra com a desinformação, pode ser discutida. Considero legítima a preocupação que dedicar energia tentando agir sobre a superestrutura possa servir como um desvio do foco nas mudanças necessárias na infraestrutura econômica, como a responsabilização das big techs. Particularmente acho importante uma atuação que trate tanto das ideias quanto da infraestrutura, e que a educação em relação às mídias pode sim intervir na dimensão emocional desde que esteja disposta a incorporar perspectivas que estão na origem do que conhecemos hoje como educomunicação. Porém essa é uma outra discussão, uma para a qual a imprensa dificilmente vai colaborar se antes não reconhecer a desconexão com que normalmente trata a dimensão emocional do problema e o caráter puramente racional das soluções propostas.
Publicado originalmente em objETHOS.
***
Vinícius Bressan Ferreira é jornalista, Doutorando em Ciências Humanas (UFSC) e pesquisador do objETHOS
