Sexta-feira, 15 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1388

Mapeamento identifica 44 laboratórios de experimentação em cursos de jornalismo no Brasil

(Foto: SHAHBAZ ZAMAN/Pexels)

A primeira edição do projeto Laboratórios de Jornalismo identificou 44 espaços de experimentação voltados a estudantes de graduação no Brasil. Eles estão vinculados a 39 instituições de ensino superior (23 públicas e 16 privadas) espalhadas por 17 estados das 5 regiões do país. O diagnóstico focou em laboratórios extracurriculares, onde jornalistas em formação têm a oportunidade de produzir reportagens, podcasts, publicações impressas e conteúdo para redes sociais para além das atividades em sala de aula, exercitando, assim, práticas semelhantes às encontradas no mercado de trabalho. O mapeamento foi realizado por Projor e Farol Jornalismo, em parceria com a Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ), e busca dar visibilidade à produção jornalística realizada por estudantes de graduação no Brasil.

Uma vez realizado o mapeamento, a segunda etapa do projeto dará visibilidade às produções jornalísticas dos laboratórios. Nas próximas semanas, uma seleção de trabalhos de estudantes vai ganhar destaque em uma seção especial no site do Observatório da Imprensa (OI), além de circular na newsletter da entidade. 

Hoje, o Brasil possui 295 cursos de jornalismo ativos, segundo pesquisa realizada em abril pela ABEJ, com base em dados do e-MEC. Considerando as 39 instituições identificadas, é possível afirmar que cerca de 13% dos cursos de jornalismo do país possuem ao menos um espaço que atende aos critérios do levantamento. Se optarmos por utilizar apenas o número de cursos presenciais (232), o índice sobe para quase 17%.

 

A região Sudeste concentra o maior número de iniciativas (16). São Paulo (8) e Rio de Janeiro (6) lideram a contagem, seguidos por Minas Gerais (1) e Espírito Santo (1). O Sul conta com 12 laboratórios distribuídos entre Rio Grande do Sul (5), Santa Catarina (4) e Paraná (3). O Nordeste totaliza 10 projetos – na região, o destaque é a Bahia, com 4 laboratórios, seguida por Piauí (2), Ceará (2), Maranhão (1) e Paraíba (1). Norte e Centro-Oeste apresentam os menores números absolutos, com 4 laboratórios no Norte (divididos entre Amapá, Amazonas, Pará e Roraima) e 2 no Centro-Oeste, ambos vinculados à Universidade Federal de Goiás.

 

Iniciativa mais antiga entre as mapeadas, o Laboratório de Comunicação da Universidade de Sorocaba (Uniso) opera desde 1996. Sete laboratórios recém começaram sua trajetória: nasceram em 2025, ano em que mais surgiram novos projetos. Vinte e dois (50%) informaram operar sob supervisão de um ou dois professores. Dezessete (39%) contam com entre três e cinco docentes, e outras cinco iniciativas (11%) possuem o suporte de mais de cinco professores. Quanto aos estudantes, em 30 laboratórios (68%), mais de 10 discentes desenvolvem trabalhos. Em 12 (27%), participam das atividades entre cinco e dez alunos. Dois espaços de experimentação (5%) contam com, no máximo, cinco alunos.

Formatos e redes sociais

Os dados mostram que os laboratórios têm uma forte inclinação à produção multiplataforma e multimídia. A maioria diz trabalhar com os principais formatos que compõem narrativas multimidiáticas: texto, imagem, áudio e vídeo. Além disso, a produção de conteúdos para redes sociais é onipresente, especialmente no Instagram, rede social utilizada por 100% das iniciativas mapeadas.

A pesquisa também perguntou sobre o uso de outras plataformas sociais. Depois do Instagram, o YouTube é a rede social mais utilizada: 23 laboratórios (52,3%) possuem perfil. Em seguida, vêm o Facebook, com 15 laboratórios (34%), LinkedIn (7), X/Twitter (3), TikTok (3), Spotify, Medium (3), (2), Bluesky (1) e Substack (1). Além disso, 36 laboratórios possuem site próprio ativo e atualizado recentemente. 

Dentre os formatos jornalísticos, a reportagem é a mais presente: 36 dos 44 laboratórios trabalham com narrativas aprofundadas em texto. Redes sociais aparecem logo depois: são 34 os que afirmam que a produção de conteúdo direcionado às grandes plataformas é um dos focos de suas atividades. O áudio também é um forte pilar de trabalho. Vinte e sete laboratórios dedicam parte dos seus esforços à produção sonora. O Lunar (UERJ), por exemplo, é inteiramente focado em podcasts narrativos. O vídeo aparece em 23 laboratórios. Dentre eles, destaca-se o webtelejornal Pampa News, da Unipampa.

Apesar do foco em narrativas multimídia, o impresso resiste. Nove laboratórios ainda imprimem jornais ou revistas ou produzem publicações que simulam o formato. Um exemplo é o Vozes do Nicéia, jornal de um projeto de extensão da Unesp Bauru que conta com 53 edições impressas. Outro destaque é o Laboratório de Experimentação Gráfica (LEG), da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

Há ainda espaços que exploram nichos específicos fora das categorias tradicionais. O CódigoLide, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explora as transformações sociais promovidas pela economia digital, da regulamentação de plataformas ao lobby das Big Techs. E o laboratório da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) aplica ferramentas de inteligência artificial nas produções jornalísticas da instituição.  Outro tema que aparece no mapeamento é a educação midiática, contemplada no trabalho da Revista Anti-horário, produzida por estudantes da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Jornalismo de impacto

O trabalho dos laboratórios impacta as comunidades em que estão inseridos de diversas formas. Enquanto alguns atuam em “desertos de notícias” ou cobrem lacunas da imprensa comercial, outros dão visibilidade a grupos minoritários e a temas sensíveis. 

Um dos laboratórios da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) já denunciou alagamentos em Vitória da Conquista e casos de violência obstétrica em hospitais da cidade. Já o Lab Notícias, da UFG, dedica-se a escrever sobre eventos e personagens hiperlocais, com foco nos bairros da região metropolitana de Goiânia.

Na região Norte, o Observatório Cultural da Amazônia e do Caribe (Amazoom), da Universidade Federal Rural de Roraima (UFRR), atuou contra a desinformação durante a crise sanitária Yanomami e cultiva um olhar atento às dinâmicas socioambientais. No Sul, o laboratório Comunicare, da PUC-PR, cobre eventos que recebem pouca atenção da mídia local, como festivais de cinema e teatro. No Nordeste, o Observatório da Vida Agreste, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foca em temáticas regionais por meio do podcast Rádio Cordel e de reportagens sobre a economia local e o cotidiano do interior. 

O impacto também se reflete no envolvimento dos estudantes com as comunidades. É o caso do Vozes de Nicéia, que atua em conjunto com moradores do bairro Jardim Nicéia, em Bauru, e da já citada Revista Anti-Horário, usada como material didático em oficinas sobre jornalismo de soluções com estudantes de escolas públicas de Campina Grande. 

Premiações

Dos 44 laboratórios mapeados, 29 (66%) já disseram ter sido premiados, enquanto 15 (34%) informaram não ter recebido prêmios até o momento. Abaixo estão alguns exemplos das premiações citadas pelos laboratórios. Elas refletem o reconhecimento em diferentes esferas, da excelência acadêmica até o impacto social e técnico:

  • Reconhecimento acadêmico e institucional (Expocom/Intercom): É a categoria mais frequente, citada por laboratórios como Pampa News (Unipampa), Observatório da Vida Agreste (UFPE), Agência Brasileira de Jornalismo (Unasp), Centro Experimental de Jornalismo (ESPM), Ecos UNG, da Universidade de Guarulhos, e Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo na e sobre a Amazônia (Ufam).
  • Jornalismo especializado: O Prêmio Sebrae de Jornalismo (regional ou nacional) foi recebido por laboratórios como Lab Notícias (UFG), Cobaias (Uneb), Agência AGCOM (Unifap) e o Laboratório de Jornalismo (Uesb). O Lunar (UERJ) venceu o prêmio de inovação em podcasting no UnbCast 2025 – pela produção Cria da Ciência, e o LIAJ (Uespi) ganhou como melhor trabalho no Intercom Júnior 2025.
  • Direitos humanos e impacto social. O Lab J (PUCRS) possui um currículo extenso que inclui o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, o Prêmio ARI/Banrisul e prêmios da Justiça Eleitoral. O Focas (Uniso) foi premiado no Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão (Instituto Vladimir Herzog) e no Troféu Tim Lopes. O Magnifica Mundi (UFG) recebeu o Prêmio Cara Vídeos (Mídia Digital e Direitos Humanos) e foi semifinalista do Prêmio Itaú Unicef. E o LabJor (FAAP) obteve menção honrosa no 1º Prêmio de Jornalismo Inclusivo.
  • Reconhecimento de trabalhos de extensão: Laboratórios como o LEG (UFCA) e o Anti-horário (UEPB) foram reconhecidos por seus projetos de extensão, vencendo prêmios como o melhor projeto na Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura (SEPEC) em 2025 e o Paulo Freire de Extensão, respectivamente.

Metodologia

Para encontrar os 44 laboratórios mapeados na primeira edição do projeto Laboratórios de Jornalismo, fizemos dois movimentos simultâneos ao longo dos meses de março e abril. 

Primeiro, criamos um formulário com 30 campos. A partir da primeira quinzena de março, ele circulou na Newsletter Farol Jornalismo, no Observatório da Imprensa e entre os contatos da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ), parceira do Projor e do Farol Jornalismo nesta iniciativa. O formulário ficou aberto até o começo de maio. Em dois meses, recebemos 69 respostas válidas – 44 delas corresponderam aos critérios do levantamento. 

As 25 descartadas ficaram de fora porque, neste primeiro mapeamento, decidimos privilegiar laboratórios extracurriculares, ou seja, espaços que funcionam para além das atividades realizadas nas disciplinas. O corte se deu pela necessidade de adotarmos um critério claro e que se encaixasse no propósito do projeto. Um esforço para mapear práticas laboratoriais vinculadas aos currículos, embora importante, está fora do escopo (para consultar produções dessa natureza, consulte o projeto Cartografia da produção jornalística laboratorial, desenvolvido pela Universidade Federal de Sergipe). Alguns espaços híbridos, especialmente os relacionados a projetos de extensão, foram considerados.

O segundo movimento foi entrar em contato com todos os cursos de jornalismo ativos no Brasil que ainda não haviam respondido ao formulário e convidá-los a participar da pesquisa. Para isso, criamos uma planilha com base em quatro fontes principais: o Censo da Educação Superior de 2024, o Ranking Universitário da Folha (RUF) e os já citados Cartografia da produção jornalística laboratorial e mapeamento dos cursos de jornalismo da ABEJ. Este último levantamento foi utilizado como referência final para a análise dos dados, pois listava apenas os 295 cursos de jornalismo realmente ativos no país.

Este trabalho foi realizado manualmente, procurando, nos sites dos cursos, o contato (em geral, endereço de e-mail) do coordenador ou da área da instituição responsável pela graduação em jornalismo. Quando o site não informava o telefone ou o endereço de e-mail, tentava-se o contato pelo currículo Lattes do coordenador. Ao final do mapeamento, tentamos contato com 199 graduações – desviando das que, espontaneamente, respondiam ao formulário em algum momento da pesquisa.

Uma vez esgotadas as tentativas de contato, construímos a planilha que deu origem ao Mapa dos laboratórios de jornalismo do Brasil. Este banco de dados contém o nome do laboratório, a instituição à qual pertence (e se é pública ou privada), bem como dados geográficos, como cidade, estado, região do país e latitude e longitude do endereço físico. Além disso, traz a URL do site e o perfil do laboratório no Instagram. 

Todos os laboratórios mapeados

Base de dados dos laboratórios

(Imagem: Laboratórios de Jornalismo – https://airtable.com/appYAnGVLKaHbp6EZ/shrxQUgAgROrT6uqm)

Laboratórios de Jornalismo

O projeto Laboratórios de Jornalismo é uma realização do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e do Farol Jornalismo, em parceria com a Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ). O objetivo da iniciativa é mapear e dar visibilidade à produção jornalística realizada por estudantes de graduação no país.