
(Foto: Nino Souza/Pexels)
Quando alguém promete objetividade e garante trabalhar apenas com fatos, esta pessoa está enganada ou está enganando. Nossas opiniões e atitudes são baseadas em percepções individuais sobre a realidade que nos cerca. Por serem individuais, estas percepções são necessariamente diferenciadas porque as pessoas não são iguais entre si, não somos clones de ninguém.
O problema é que a imprensa atual e boa parte dos jornalistas não fazem esta diferenciação e acabam transmitindo ao público a percepção predominante na direção e nas redações de cada veículo. Este é talvez o maior dilema a ser enfrentado pelos profissionais e executivos dos meios de comunicação, ainda impregnados pelos velhos hábitos criados antes da avalancha informativa e da inteligência artificial.
As pessoas inevitavelmente desenvolverão percepções diferenciadas do meio em que vivem, dos problemas que enfrentam e das soluções que procuram. É normal e até necessário porque a diversidade de opiniões e atitudes é condição fundamental para ampliar o conhecimento individual e coletivo. Todo mundo sabe que duas cabeças pensam melhor do que uma só. A combinação de avalancha informativa, datificação e algoritmos inteligentes permite multiplicar esta máxima por zilhões de vezes.
Mas o jornalismo e a imprensa têm um papel distinto nesta realidade. Ambos estão também sujeitos às mesmas distorções de percepções parciais da realidade, conforme a metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Mas, como a função dos profissionais e dos executivos da comunicação é servir ao público, os veículos impressos, virtuais ou audiovisuais precisam mostrar a seus leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que o que sai publicado não é a expressão completa e absoluta de um dado, fato ou evento. Para fazer jus ao caráter de prestadores de serviços informativos à população, imprensa e jornalistas devem transmitir aos seus respectivos públicos a ideia de que todos lidam com percepções, logo, ninguém é dono da verdade.
Fatos e versões
Assim, quando se cobre um evento como a guerra no Irã ou as investigações sobre o caso Master, o trabalho de repórteres, editores, programadores, apresentadores e comentaristas não pode induzir o público a acreditar que o que está sendo publicado é a expressão da verdade absoluta. Isto se torna especialmente delicado em temas que envolvem questões eleitorais porque inevitavelmente o unilateralismo noticioso vai influir nas percepções que o público tem dos fatos e eventos em evidência e, portanto, também na tomada de posições.
Tudo isto nos leva à pergunta: O jornalismo cobre fatos ou versões? A pergunta é chave porque, dependendo da resposta, é possível contextualizar a real natureza das notícias que a imprensa publica e que terão importância fundamental na forma como as pessoas veem a realidade que as cerca. Quando um jornalista entrevista uma fonte, ele está colhendo uma versão e, quando testemunha um acontecimento, ele está mais próximo dos fatos, embora ainda assim sujeito à sua percepção individual.
O que se observa claramente é a transformação de versões nos chamados factoides (falsos fatos) cuja repetição frequente conta com a cumplicidade de alguns jornalistas e da grande mídia. A saturação informativa por factoides acaba induzindo as pessoas a lhes conferir credibilidade, por desconhecimento das causas e consequências do que leram, ouviram ou assistiram. Num ambiente de frenética circulação de mensagens por meio da internet, a manipulação de percepções vira sinônimo de trapaça informativa.
Tomando como referência tanto a questão da diversidade de percepções como a da diferenciação entre fato e versão, fica claro que, no atual período pré-eleitoral, os três grandes jornais brasileiros (Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo) orientam o seu noticiário numa determinada direção política, o que configura um nítido desvirtuamento dos princípios do jornalismo. O conteúdo dos jornais serve depois para alimentar o vale-tudo informativo nas plataformas digitais, diante do qual cresce o número de eleitores contagiados pelo ceticismo político e pelo negacionismo noticioso.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
