
(Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil)
A hegemonia do futebol no imaginário esportivo do Brasil não é um fenômeno da natureza, mas resultado de um século de escolhas políticas, exclusões legais e instrumentalizações ideológicas que a imprensa ajudou, de forma ativa ou omissa, a consolidar e perpetuar. O ponto de partida para essa discussão é reconhecer que o futebol chegou ao Brasil como apenas mais um dentre vários esportes importados pela elite anglófila no início do século XX. O que o distinguiu de seus contemporâneos não foi nenhuma superioridade intrínseca ao jogo, mas uma conjuntura histórica específica: um esporte que, por exigir poucos recursos materiais, escapou dos clubes de elite para as várzeas e os terrenos baldios de uma nação em acelerada urbanização, criando uma base popular massiva que nenhuma outra modalidade conseguiu replicar. Essa popularização espontânea, contudo, não explica a institucionalização. Foi a decisão política de profissionalizar o futebol em 1933, durante o governo Vargas, que deu ao esporte uma arquitetura organizacional sem equivalente entre as demais modalidades. E foi a Rádio Nacional, inaugurada em 1936 e rapidamente convertida em veículo de transmissão das partidas, que transformou o futebol em ritual coletivo dominical de alcance nacional. Já nesse momento fundacional, a decisão editorial foi determinante para hierarquizar o campo esportivo brasileiro. Não houve nada de natural nessa escolha, houve política de comunicação a serviço de um projeto de coesão nacional.
O mesmo governo que profissionalizou o futebol adotou, oito anos depois, uma das decisões mais reveladoras e menos discutidas pela imprensa esportiva na história do esporte brasileiro: o Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, que, em seu artigo 54, vetava às mulheres a prática de esportes considerados “incompatíveis com a natureza feminina”, categoria na qual se enquadrava o futebol. A proibição permaneceu vigente até 1979 e só foi regulamentada, para permitir o futebol feminino, em 1983. Quatro décadas inteiras em que metade da população estava legalmente impedida de praticar o esporte mais popular do país. Quando a norma finalmente caiu, o futebol masculino já havia acumulado meio século de vantagem institucional, midiática e simbólica, tornando a assimetria praticamente autossustentável. A questão que o jornalismo esportivo raramente formula, e que deveria ser central em qualquer discussão sobre o futebol feminino no Brasil, é se as mulheres que hoje jogam profissionalmente chegaram atrasadas por desinteresse ou foram impedidas de chegar. A diferença não é semântica, é a diferença entre um atraso cultural e uma exclusão política deliberada, e o modo como a imprensa enquadra essa distinção determina se o debate avança ou fica estagnado.
Durante a ditadura civil-militar de 1964, a instrumentalização do futebol pelo Estado atingiu seu paroxismo. O regime investiu em estádios, facilitou transmissões televisivas e celebrou vitórias, notadamente a Copa de 1970, transformada em propaganda do “Brasil Grande” no momento mais brutal da repressão. A apropriação foi tão eficaz porque contou com a colaboração, nem sempre forçada, de uma imprensa esportiva que raramente se interrogou sobre o uso político do espetáculo que narrava. O caso do atacante Reinaldo, do Atlético Mineiro, é sintomático dessa ambiguidade constitutiva, pois seu gesto de punho cerrado após os gols, referência direta aos movimentos de luta negra nos Estados Unidos, foi percebido pelo regime como ameaça suficiente para justificar perseguição. A Comissão de Anistia reconheceu oficialmente essa perseguição décadas depois, concedendo indenização ao ex-jogador. O que o episódio demonstra não é apenas que a ditadura temia a politização do futebol, mas que o futebol-espetáculo, supostamente o grande anestésico nacional, era também arena de disputa em que gestos simbólicos podiam custar carreiras e liberdades. A imprensa esportiva da época, em larga medida, não narrou esse conflito e, ao não narrá-lo, contribuiu para sedimentar a imagem de um esporte domesticado, despolitizado, seguro para o consumo coletivo acrítico.
A televisão, ao chegar ao Brasil nos anos 1950, não precisou decidir qual esporte priorizar, já que a escolha já estava feita pela inércia histórica. A Copa de 1950 e a construção do Maracanã, as vitórias de 1958, 1962 e 1970, cada um desses eventos foi transformado em capítulo de uma épica nacional que o jornalismo esportivo narrou com instrumentos retóricos normalmente reservados à fundação de mitos. Esse trabalho narrativo não é neutro. Ao construir o futebol masculino como expressão máxima da identidade brasileira, a imprensa produziu simultaneamente a invisibilidade de outras formas de pertencimento esportivo. A chegada da televisão por assinatura nos anos 1990 e a globalização do futebol europeu aprofundaram a assimetria; clubes brasileiros passaram a movimentar cifras que nenhum outro esporte nacional poderia alcançar, não por mérito esportivo, mas por contingências de mercado global retroalimentadas por décadas de investimento midiático desigual. O ciclo virtuoso do futebol tornou-se, para as demais modalidades, um ciclo vicioso de exclusão, e a imprensa, ao seguir a audiência que ela mesma havia formado, completou o circuito.
Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, ofereceram a mais poderosa refutação disponível à tese da inevitabilidade. Por 15 dias, o Brasil se reconheceu em 19 medalhas distribuídas por 12 esportes diferentes. Isaquias Queiroz, canoísta negro de origem humilde, conquistou três medalhas, feito inédito na história olímpica brasileira. Rebeca Andrade iniciava ali a trajetória que a conduziria ao estrelato mundial na ginástica artística. Cento e setenta mil pessoas foram ao Parque Olímpico da Barra em um único sábado. O que esse episódio demonstra é ao mesmo tempo óbvio e sistematicamente ignorado: quando há investimento, infraestrutura de qualidade e, sobretudo, cobertura jornalística contínua com construção narrativa sofisticada, o público brasileiro responde com entusiasmo a múltiplos esportes. A monocultura do futebol não reflete uma preferência cultural imutável, é a consequência previsível de escolhas editoriais persistentes. A pergunta que o jornalismo esportivo brasileiro deveria ter feito, e não fez com a profundidade que o tema exigia, é por que aquele investimento, aquela atenção, aquela paixão não se sustentaram depois que o Comitê Olímpico Internacional deixou o país.
O caso de Isaquias Queiroz adquire contornos ainda mais reveladores quando se considera que o Clube de Regatas do Flamengo, maior faturamento do futebol brasileiro, optou por encerrar seus investimentos na canoagem, modalidade que o próprio clube ajudou a construir historicamente, precisamente no período em que o atleta acumulava títulos olímpicos. A decisão expõe o limite do discurso meritocrático que o jornalismo esportivo frequentemente mobiliza como moldura interpretativa, pois, no campo esportivo brasileiro, resultados de excelência não asseguram reconhecimento institucional. A meritocracia, como retórica, funciona para naturalizar a desigualdade, e o jornalismo que a reproduz acriticamente cumpre função ideológica precisa.
O futebol feminino fornece o exemplo mais imediato dessas hierarquias em operação. A Confederação Brasileira de Futebol e a Conmebol criaram, nos últimos anos, exigências normativas que condicionam a participação de clubes da Série A masculina à manutenção de equipes femininas. A medida é relevante do ponto de vista regulatório, mas revela seus próprios limites, pois quando o Fortaleza Esporte Clube foi rebaixado para a Série B, em 2025, deixou de estar sujeito à exigência e encerrou suas atividades no futebol feminino, a despeito da equipe ter conquistado, no mesmo ano, vaga inédita na Série A1 do Campeonato Brasileiro, além do título do Campeonato Cearense e da Copa Maria Bonita. O Flamengo, por sua vez, anunciou uma “readequação financeira” que, na prática, configurou corte orçamentário significativo e a demissão da técnica Rosana Augusto, que havia conduzido a equipe a 13 vitórias em 19 jogos. Em ambos os casos, o desempenho esportivo foi irrelevante para a decisão institucional. A cobertura jornalística desses episódios, quando existiu, tendeu a enquadrá-los como questões administrativas, raramente os situando no contexto histórico de exclusão legal e estrutural que os torna inteligíveis.
A dimensão racial da hegemonia futebolística merece análise igualmente rigorosa. O reconhecimento simbólico concedido a atletas negros como grandes ídolos de seus clubes convive, de forma aparentemente paradoxal, com a ausência quase total de treinadores negros nas posições de comando do futebol de elite, na Série A do Campeonato Brasileiro. Não há atualmente nenhum técnico negro em atividade, tendo sido Roger Machado, à frente do Internacional, o último a ocupar tal posição, até sua demissão em 2025. A aparente democracia racial do futebol brasileiro, tão frequentemente celebrada pela imprensa como evidência de mobilidade social, oculta a persistência de mecanismos estruturais que convertem corpos negros em capital simbólico e espetacular sem estendê-los às instâncias de poder e decisão. O caso de Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid que denuncia sistematicamente episódios de injúria racial em estádios europeus, é paradigmático, já que parte do discurso midiático passou a enquadrar suas denúncias como fator de desestabilização do espetáculo, deslocando o foco do racismo estrutural para a suposta conduta do atleta. Esse mecanismo de responsabilização da vítima não é desvio do jornalismo esportivo, mas expressão de uma cultura editorial que reproduz as hierarquias que deveria examinar.
Existe uma tensão genuína entre a hegemonia do futebol como produto histórico de exclusões e instrumentalizações e o futebol como cultura popular autêntica com enraizamento afetivo real e profundo. Não se trata de duas realidades mutuamente exclusivas, é precisamente porque o futebol se tornou cultura popular genuína que sua instrumentalização foi tão eficaz e sua hegemonia tão difícil de contestar. Não é que o futebol não mereça a centralidade afetiva que ocupa, mas que essa centralidade foi produzida em condições historicamente específicas, assim, reconhecer sua construção é o primeiro passo para imaginar um campo esportivo mais plural e mais justo. A imprensa tem papel determinante nesse processo, não porque seja onipotente, mas porque a construção narrativa é, precisamente, o que a distingue da simples transmissão de resultados.
O que se perdeu ao longo de um século de acumulação desigual de vantagens, que outras dramaturgias, formas de pertencimento coletivo, possibilidades de representação para mulheres, negros e periféricos ficaram pelo caminho, porque nunca receberam a infraestrutura institucional, econômica e midiática necessária para competir em igualdade de condições. Ginásios quase sempre vazios não são sintoma de desinteresse cultural, mas resultado visível de décadas de desinvestimento, invisibilidade editorial e ausência de narrativas que pudessem transformar outros esportes em eventos significativos. A monocultura esportiva, como toda monocultura, empobrece o solo, e o jornalismo que a celebra como paixão natural, sem interrogar sua genealogia, é parte constitutiva do problema que deveria diagnosticar.
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Maria Luiza Igino é Professora, Gerente da SEIR/PJF, Pós-doutora, Doutora e Mestre em Ciência da Religião (PPCIR-UFJF).
Raquel Turetti Scotton é Professora, Jornalista, Doutora e Mestre em Ciência da Religião (PPCIR-UFJF).
