
Eleições 2024 (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Aproximadamente 32 milhões de brasileiros podem ser considerados párias informativos na atual campanha eleitoral. Eles vivem em cidades com menos de 20 mil habitantes, onde há pouca ou nenhuma circulação de notícias locais, o que torna muito difícil a participação destes eleitores no debate dos problemas municipais e regionais.
Sem jornalismo local, os moradores de pequenas cidades acabam diante de uma difícil alternativa: suportar o “mais do mesmo” em matéria de candidatos locais ou submeter-se à agenda dos grandes jornais nacionais, o que, além de gerar desinteresse pelas eleições, os torna vulneráveis à instrumentalização do noticiário por influenciadores pagos por candidatos e às dúvidas sobre a confiabilidade na cobertura das eleições.
Em muitas cidades pequenas, o eleitor tem dificuldade em descobrir quem são os candidatos locais e o que pretendem por falta de informação produzida por jornalistas. Em compensação, estão bem informados sobre campanhas eleitorais noutros estados e quais são os favoritos no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Conhecem os problemas de outras cidades, mas ignoram os da sua.
Esta discrepância entre as temáticas locais e globais influencia a conduta dos jornalistas na cobertura de processos eleitorais. Os repórteres de jornais sediados em grandes cidades tendem a ver as questões locais como uma forma menor de política, enfatizando aspectos caricaturais ou sensacionalistas. Já os poucos profissionais e amadores que cobrem campanhas eleitorais municipais assumem uma posição subsidiária dos jornais metropolitanos e tendem a seguir a orientação das elites locais, como prefeitos, caciques políticos e empresários de sucesso.
A ‘corrida de cavalos’
Não se trata de definir, entre os profissionais, quem é melhor ou pior, quem faz jornalismo bem ou mal. A realidade política e social acaba influenciando as condutas e posicionamentos profissionais. O problema são as consequências para o eleitor local, que é levado a assistir a uma cobertura de campanhas eleitorais em que a grande preocupação é saber quem está na frente e quem vai perder, quase como nas corridas de cavalos, ou acompanhar atônito a oscilação das pesquisas de opinião.
O foco principal das campanhas regionais e nacionais é a luta pelo poder, que ganha uma visibilidade maior do que as questões municipais devido à estrutura das grandes redes nacionais de comunicação e ao volume de recursos destinado às campanhas dos candidatos a algum cargo em Brasília. Enquanto isto, as questões locais permanecem intocadas porque os eleitores não têm informações adequadas sobre elas. Resultado, muitos prefeitos e vereadores eleitos transformam, impunemente, as prefeituras em negócios privados.
O volume de dinheiro e a intensidade da luta pelo poder contaminam os núcleos de decisão editorial nos principais jornais do país. A grande imprensa se torna também uma participante da luta pelo poder à medida que a publicidade cria condições para uma instrumentalização do noticiário. Isto contribui para o aumento do ceticismo de muitos eleitores em relação à imprensa e à política, num comportamento que ameaça a própria credibilidade no sistema democrático entre as pessoas com pouco ou nenhum acesso a informações confiáveis.
A imprensa nas pequenas e médias cidades está mais próxima dos moradores, o que permite aos jornalistas conhecer melhor os problemas municipais e contribuir para a sua solução. O profissional local tem mais condições para identificar notícias falsas e, também, para investigar questões mais complexas, que estão acima do conhecimento das pessoas comuns. Pode funcionar como curador, sugerindo fontes de informação, e como tutor, ao orientar os eleitores a identificar dados e fatos que possam servir para reforçar campanhas pela solução de problemas comunitários.
A conversa na cozinha
Estas possibilidades já foram testadas com sucesso em projetos jornalísticos em países como Estados Unidos, Finlândia, Austrália, Inglaterra e Holanda. Algumas destas experiências deram origem a propostas inovadoras no desenvolvimento de um estilo próprio de cobertura eleitoral. Nos Estados Unidos, no final do século passado, surgiu o chamado jornalismo cívico, no qual repórteres e editores estabeleceram uma estreita relação com comunidades locais, permitindo, entre outras iniciativas, que a imprensa local organizasse encontros presenciais entre moradores e candidatos eleitorais para debate de questões específicas da cidade, bairro ou região.
O aumento da diferenciação entre cobertura local e global contribui também para que a imprensa e o jornalismo percebessem a necessidade de desenvolver uma agenda eleitoral baseada na perspectiva do eleitor, e não na de candidatos e partidos. Os debates organizados pelos adeptos do jornalismo cívico levaram alguns políticos a mudar a sua agenda de campanha eleitoral.
Mais recentemente surgiu uma outra tendência entre os profissionais desencantados com a cobertura eleitoral tipo ‘corrida de cavalos’ alimentada por pesquisas de opinião. É o modelo ‘conversa na cozinha’, um formato inspirado na abordagem ‘mesa da cozinha’ (Kitchen Table Conversations), popular entre grupos de pesquisadores acadêmicos que, em vez de questionários, preferem tomar o pulso político dos eleitores participando das conversas familiares na mesa da cozinha, durante o café da manhã.
A estratégia da cozinha está cada vez mais popular entre os candidatos democratas nas eleições de novembro nos Estados Unidos. Vários nomes, antes desconhecidos, acabaram conquistando indicações importantes nas primárias do partido, usando os temas domésticos como principais bandeiras eleitorais. Os australianos descobriram que o foco nas preocupações familiares funciona fora da política como instrumento para preparar pequenas comunidades do interior na prevenção de tragédias naturais como enchentes, ventanias e secas.
