Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

Padroeira faz parte de nossa cultura

(Foto: Erica Viana/Unsplash)

O STF vive momentos difíceis desde as acusações do ministro André Mendonça contra seu colega Alexandre de Moraes, já aqui contadas. Um novo confronto surgiu diante dos rumores da intenção de Flávio Bolsonaro, caso seja eleito presidente, de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Decidi tratar essa nova crise no STF, desfechada novamente pelo ministro André Mendonça, com repercussões entre o clero e fiéis católicos, em três entretítulos.

 Embora tenha seu lado religioso, essa crise seria também uma tentativa de ataque à nossa soberania, pois se existe realmente um objetivo de supremacia religiosa, na frase do candidato Flávio Bolsonaro de decretar o Brasil para Cristo, dentro dos moldes de uma religião importada dos EUA, vai ser preciso proteger nossa história, nossa cultura e nosso sincretismo religioso, criado durante a colonização portuguesa e decorrente dos anos da afroescravidão.

A frase do humorista Antônio Tabet, punida pelo ministro André Mendonça, sintetiza bem a situação – “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”.

  1. A padroeira do Brasil é também questão de soberania?

Vocês se lembram que na campanha eleitoral de Jair Bolsonaro contra Lula, nas eleições de 2022, as redes sociais bolsonaristas falavam para não votar em Lula, porque ele iria fechar as igrejas? Lembram-se?

Lula ganhou e não fechou nenhuma igreja, mas correm agora nas redes sociais que é projeto de Flávio Bolsonaro, coisa já desmentida pelo candidato, se eleito, baixar um projeto dizendo que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

Para muitos católicos, isso significa que Nossa Senhora Aparecida, no caso de vitória de Flávio, que é evangélico, deixaria de ser a Padroeira do Brasil. Isso, mais pastores que chamam católicos de idólatras, está criando um inesperado e inédito choque religioso entre católicos, que se sentem ameaçados na sua fé, trazida pelos colonizadores portugueses, e os evangélicos com sua fé made in USA.

Vista de outro ângulo, essa briga, que pode degenerar, envolve também a defesa de nossa soberania. Os neopentecostais representam uma ruptura com as tradições e formação da nacionalidade brasileira. O neopentecostalismo é um produto recente de exportação fundamentalista norte-americana, trazido por missionários gringos, verdadeiros neocolonizadores, que estão pouco a pouco mudando nossas tradições.

E quando vemos o evangélico Flávio Bolsonaro se dispor a criar uma comissão de transição, caso eleito, com o ministro Marco Rúbio do governo Trump, isso poderia também ser interpretado como parte de um plano maior de atentado à nossa soberania. E daí podemos chegar à pergunta: a eleição de Flávio visa também fazer o Brasil aderir à importação do conceito evangélico de uma democracia capitalista norte-americana?

  1. Milagre da Santa: Dino apagou Mendonça

Não sou religioso, mas o que aconteceu no domingo, 20, poderia ser considerado como mais um milagre da chamada Nossa Senhora Aparecida, em foco depois de circularem notícias, embora desmentidas, sobre a intenção de Flávio Bolsonaro de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil, caso seja eleito no próximo domingo como presidente.

Qual o milagre? Na verdade, dois milagres.

O primeiro é o nocaute técnico sofrido pelo ministro terrivelmente evangélico André Mendonça, aplicado pelo ministro Flávio Dino. Mendonça tinha retirado uma piada do humorista Antônio Tabet do Instagram, na qualidade de juiz do Tribunal Superior Eleitoral. Algumas horas depois, o ministro Flávio Dino, agindo pelo STF, Superior Tribunal Federal, derrubou a decisão de Mendonça e o humorista Antônio Tabet recolocou a frase no Instagram.

Qual a frase?

Esta: A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida.

Vá se saber por que, o ministro André Mendonça considerou a as palavras “família miliciana” queria dizer família Bolsonaro, e tomou as dores para proteger o candidato Flávio Bolsonaro, mesmo se a frase não mencionava nem seu nome nem o da família. É o que se poderia dizer: mordeu a isca.

Imaginem as redes progressistas, que não morrem de amores por Mendonça, e os jornais.

Qual o segundo milagre da santa?

Com o tiro no pé do ministro Mendonça e o ministro Dino anulando sua decisão, os evangélicos vão ficar uma fera, mas os católicos enfezados com Mendonça vão fazer coisa mais violenta – vão se vingar nas urnas no próximo domingo e no dia 25. E meu palpite de jornalista veterano e experiente é o de que a diferença entre Lula e 01 vai aumentar, mesmo porque os católicos ainda são maioria. Milagre da Senhora Aparecida contra o terrivelmente evangélico. Já diziam os gregos: não se deve mexer com os deuses.

  1. STF se divide diante da Padroeira

Comentamos acima o que chamamos um milagre da Nossa Senhora: o ministro Flávio Dino do STF, Supremo Tribunal Federal tinha derrubado a decisão do seu colega André Mendonça, agindo no Tribunal Superior Eleitoral, qualificando-a como um tipo de censura.

O humorista Antonio Tabet já havia recolocado no Instagram sua frase proibida sobre família miliciana.

O milagre durou um dia, porque outro ministro, Luiz Fux, ao que parece não evangélico, contradisse Flávio Dino e revalidou a decisão do ministro terrivelmente evangélico André Mendonça obrigando o humorista Antonio Tabet a retirar novamente sua frase do Instagram, sob pena de multas diárias.

Mas a coisa não para aqui. Em princípio, o presidente do STF deverá levar ao plenário, para ser debatido e julgado por todos os ministros, duas coisas: se um ministro do STF pode derrubar uma decisão de ministro do STF e se a decisão do ministro André Mendonça foi censura e deve ser anulada.

Enquanto fica no ar aquela pergunta – foi mesmo fake news o que circulou sobre uma decisão de Flávio Bolsonaro de, se eleito presidente, derrubar um velho decreto, se não me engano, de 1930, de Vargas, declarando a Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil?

Ontem a excelente jornalista do UOL, Daniela Lima, dedicou todo o seu programa ao tema e rememorou outras ocasiões envolvendo evangélicos sobre a Padroeira e a declaração ambígua de Flávio 01, de que vai declarar o Brasil para Cristo. Já houve uma reunião da CNBB a respeito e o bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz pediu pela imprensa que Flávio Bolsonaro explique o alcance de sua declaração.

Algumas referências:

Fachin dia debate

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/fachin-adia-debate-no-stf-sobre-fake-news-de-nossa-senhora-aparecida/

Mendonça pune Antonio Tabet

https://www.youtube.com/watch?v=sSIe1Jue8sI

Luiz Fux

https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzQhWfTQSnzjmcXVdMNzqkkGCZMR

Daniela Lima, Pulso político

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/28/daniela-lima-igreja-catolica-ja-monitorava-ataques-a-nossa-senhora.ghtm

Dino x Mendonça

https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2026/09/28/disputa-flavio-dino-x-andre-mendonca-mostra-como-crise-no-stf-afeta-as-eleicoes.ghtml

 Flávio Bolsonaro vai ao STF

https://www.youtube.com/watch?v=xTgTrxds3j0

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.