Sábado, 10 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1370

A cobertura ambiental de 2025: o que esperar depois da COP brasileira?

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Em 2025, o jornalismo de meio ambiente no Brasil lidou com uma agenda intensa: da política e legislação ambiental em chamas aos holofotes da COP-30 em Belém, que, para além da cobertura dos preparativos, contou com iniciativas de mobilização e discussão durante o ano todo. Foi possível observar notícias pautadas pela urgência na prevenção e mitigação de desastres climáticos, e mais visibilidade às demandas dos povos originários. Contudo, ainda é cedo para dizer que esses enfoques persistirão no médio e longo prazos.

Na publicação “O Jornalismo no Brasil em 2025”, da Associação Brasileira de Jornalismo e do Farol Jornalismo, veiculada no final de 2024, profissionais e pesquisadores de Jornalismo apontaram temáticas a se atentar nas coberturas. Entre elas, “Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025” da Rede Wayuri, e “Em 2025, coberturas de desastres climáticos vão exigir novos jornalismos”, fruto das observações do que foi vivenciado no Rio Grande do Sul a partir da eclosão do desastre em maio de 2024.

Uma análise retrospectiva do trabalho da imprensa ao longo deste ano indica que algumas previsões se concretizaram, mas muitos desafios persistem. Embora tenhamos tido um ano com muita cobertura ambiental, a fragmentação do assunto dificulta a compreensão da população, enfraquecendo o debate público. Mesmo com o mundo de olho na Amazônia em razão da COP, os políticos brasileiros aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (ou PL da Devastação), que prejudica a proteção do meio ambiente.

Com o Observatório, analisamos os enquadramentos, termos e lacunas das reportagens percebidas pelo viés do Jornalismo Ambiental. Em maio, nossa análise “A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?” demonstrou que os veículos hegemônicos trouxeram contrapontos importantes ao PL, mas focaram de forma majoritária em fatores econômicos, com espaço exacerbado aos interesses do agronegócio e das petroleiras. Em agosto, Ilza Girardi e Isabelle Rieger seguiram observando de perto os termos utilizados na mídia hegemônica e independente para tratar da nova lei, sendo “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” os mais citados pela primeira, enquanto a segunda focou na possível destruição do meio ambiente causada pela aprovação.

No texto de 2024 que buscava apontar o que estava por vir, a ampliação do debate ambiental no País estava prevista. Porém, notamos a predominância de uma perspectiva político-econômica, que favorece o desenvolvimentismo a qualquer custo. Com relação à cobertura do PL da Devastação, de forma específica, o Observatório identificou as contradições de se flexibilizar a proteção ambiental enquanto se fala cada vez mais no combate à emergência climática.

Outra contradição marcante em 2025 foi a concessão da licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas em data próxima à realização da Conferência das Partes. Embora anfitrião da COP, o governo federal defendeu o discurso de que a exploração do petróleo viabilizaria a transição energética. Na previsão de 2024, já se apontava que “explorar petróleo para garantir a transição energética ou vender o mercado de carbono como uma saída para a crise climática são falácias que deveriam ser mais bem checadas pelo jornalismo.”

Também foi notado o amplo apelo de setores econômicos, como a mineração e o agronegócio, que contribuem para as emissões de gases de efeito estufa fazendo lobby no ano da COP, para se venderem como protagonistas das soluções climáticas. Entretanto, em alguma medida, jornalistas apenas foram porta-vozes das disputas que atravessam a questão ambiental, como se o nosso futuro neste planeta não fosse a principal pauta de interesse público da contemporaneidade.

A perspectiva de maior volume de notícias em razão  da COP-30 se realizou, sendo que muitos aspectos climáticos foram bem explicados e aprofundados na mídia. O evento impulsionou o crescimento de projetos jornalísticos especializados, cursos de formação para comunicadores e uma cobertura mais intensificada por veículos tradicionais e independentes. Neste Observatório, avançamos na produção de críticas de mídia, com o especial “De olho na COP”. A imprensa, particularmente a não hegemônica, cobriu intensamente a contradição de o Brasil sediar a COP-30 enquanto licenciava a perfuração de poços. A omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da COP-30 foi o tema mais criticado pela imprensa brasileira, que relatou a frustração do resultado da conferência.

Segundo o texto da Rede Wayuri, a importância da comunicação e dos saberes indígenas é considerada decisiva para o enfrentamento da crise climática, representando não apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. O texto vislumbrando o Jornalismo em 2025, destacava mais espaço para a comunicação popular e as redes comunitárias,.

A partir da COP-30, esse protagonismo indígena ganhou relevo. Com a maior participação de povos originários em três décadas, cerca de 400 representantes indígenas estiveram credenciados nas salas de negociação oficial. A mobilização indígena foi um fator de destaque em alguns veículos, especialmente os independentes e dedicados à pauta ambiental, sendo considerada uma grande força política.

Apesar da presença inédita, a análise da cobertura midiática durante os eventos, como a Pré-COP, realizada em Brasília, indicou que a imprensa tradicional tratou as manifestações e reivindicações de povos indígenas e quilombolas de forma tímida, deixando suas vozes à margem do debate público midiático. Em decisões cruciais, como a aprovação da Lei Geral do Licenciamento e da exploração em território ambiental sensível como a Foz do Amazonas, suas vozes continuam sendo ignoradas, com poucas execeções. Logo, a reivindicação por mais visibilidade segue sendo uma demanda dos povos indígenas – e de muitos outros grupos que não são vistos como fontes qualificadas para a elaboração de notícias. Uma luta que deve avançar nos próximos anos.

Para 2026, o Farol Jornalismo e a Abraji lançaram novamente uma publicação de previsões para o Jornalismo – e aqui destacamos o texto: “Emergência climática e integridade da informação num cenário polarizado”. Nele, os autores indicam que o tema da emergência climática é tensionado por simpatias e antipatias políticas. Com as eleições presidenciais no próximo ano e o contexto de polarização interna, é esperado crescentes ondas de desinformação e produção de falsos conteúdos com o auxílio da Inteligência Artificial. Diante desses desafios, a confiança do público no Jornalismo é evidenciada, sendo que as informações devem ser íntegras, com checagem e fundamentação de qualidade, baseadas na ciência. Essa análise destaca também a importância do jornalismo local, cuja cobertura deve questionar as falhas e pressionar o dedo nas feridas dos governos regionais por todo o Brasil.

Além disso, alertam para outra tarefa do Jornalismo: a COP não acaba quando termina. As inúmeras pautas ambientais levantadas em 2025, impulsionadas pelo evento, não podem ser esquecidas. O trabalho pela preservação do meio ambiente é contínuo e deve estar presente durante todo o ano, em todas as editorias, de forma sistêmica.

Publicado originalmente em Observatório de Jornalismo Ambiental.

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Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.