Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

Globos de Ouro do ‘O Agente Secreto’, imprensa e as feridas abertas da ditadura

(Foto: Mirko Fabian/Pexels)

Na noite de domingo, o ator Wagner Moura, 49 anos, ganhou o prêmio Globo de Ouro de melhor ator de drama com o filme O Agente Secreto, do diretor Cléber Mendonça Filho, 57 anos. O longa ganhou ainda o Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa. Foi a 83ª edição do Globo de Ouro, cuja cerimônia aconteceu em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos. O prêmio foi criado em 1944 pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. No ano passado, a atriz Fernanda Torres, 60 anos, ganhou o Globo de Ouro pela sua atuação no filme Ainda Estou Aqui, do diretor Walter Salles, 69 anos. Os dois filmes são ambientados no período do golpe militar (1964 – 1985). O Agente Secreto conta a história de Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário especialista em tecnologia que volta para casa e acaba convivendo com os horrores da ditadura. Ainda Estou Aqui é a história da família do deputado Rubens Paiva (1929 – 1971), que teve o seu mandato cassado e nunca mais foi visto depois de ser preso pelos militares. A atriz Fernanda Torres interpreta a mulher do deputado, Eunice Paiva (1929 – 2018), que criou os cinco filhos do casal e dedicou toda a sua vida à procura do marido.

Toda a história das premiações dos dois filmes e dos seus atores pode ser encontrada na imprensa. Estou aproveitando o gancho deixado pela premiação de Wagner Moura para conversar com vocês sobre a reestruturação da extrema direita ao redor do mundo e sua volta à disputa pelo poder, principalmente nas eleições de outubro no Brasil. Em março do ano passado, por ocasião da premiação do filme de Walter Salles e da atriz Fernanda Torres, publiquei o post O Oscar de Ainda Estou Aqui, a imprensa e a volta da extrema direita ao poder. Aprendi, na lida de repórter, que a maior garantia que temos de que 1964 não se repetirá é tornar público e dar a maior publicidade possível às histórias que aconteceram no período da ditadura militar. É justamente aí que se encaixam esses dois filmes, ao lado de livros, documentários e estudos publicados a respeito daquele período. Quanto mais se falar no assunto, mais certeza teremos que não voltará a acontecer. Se tentarem o golpe, terão problemas com a lei, graças à Constituição de 1989. Vou ilustrar o que falei. Em novembro de 2022, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e 36 ex-ministros e funcionários do primeiro escalão do seu governo organizaram e colocaram em prática uma série de eventos que tinham como objetivo desestabilizar a ordem pública e criar um ambiente próprio para o golpe de estado. O evento mais conhecido aconteceu em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas radicalizados que estavam acampados na frente de quartéis quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso, em Brasília (DF).

Segundo informações publicadas no início de janeiro pela imprensa, a tentativa de golpe resultou em 1.734 processos abertos no STF, 810 condenações, 564 acordos penais, 346 ações penais em fase final, 98 denúncias na etapa de defesa prévia e mais de R$ 3 milhões em ressarcimento. O ex-presidente cumpre uma pena de 27 anos de cadeia em uma cela na sede da Polícia Federal (PF), em Brasília. A história da tentativa de golpe é contada nas 884 páginas do relatório final da investigação da PF. O que aconteceu no Brasil em 8 de janeiro de 2023 foi influenciado pelo que ocorreu em 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos. O então presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, tentou a reeleição e foi derrotado pelo democrata Joe Biden, 81 anos. Para evitar que Biden tivesse a sua vitória confirmada pelos congressistas, Trump incentivou os seus seguidores a invadirem o Capitólio (prédio do Congresso), em Washington, D.C. Na invasão, sete pessoas morreram e mais de mil foram processadas e condenadas. Em 2024, Trump foi eleito para o seu segundo mandato. Tomou posse em 20 de janeiro de 2025. Um dos seus primeiros atos foi anistiar os mais mil presos pela invasão do Capitólio. E, no início de janeiro de 2026, publicou um vídeo onde os invasores do Capitólio são descritos como “heróis americanos”. No Brasil, no ano passado, os parlamentares bolsonaristas tentaram passar na Câmara e no Senado o “projeto da anistia”. Não conseguiram. Mas conseguiram aprovar uma lei que diminuiu as penas dos condenados pela tentativa de golpe, que ficou conhecido como PL da Dosimetria. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, vetou o PL da Dosimetria. Os parlamentares bolsonaristas prometeram derrubar o veto presidencial. O que significa toda esta movimentação em favor dos golpistas? Significa que a rearticulação da extrema direita é uma realidade. Vem sendo facilitada pelas novas tecnologias da comunicação. Daí a importância de filmes como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui. Eles usam a magia do cinema para contar duas histórias de um período sombrio do Brasil. As reportagens publicadas sobre os filmes, as discussões dos críticos de cinema e as demais citações fornecem dados valiosos que se incorporam ao dia a dia da população e funcionam como uma arma contra as versões publicadas pela extrema direita. Vou lembrar ao leitor que, uns poucos anos atrás, demorava alguns dias para uma informação dar a volta ao mundo. Hoje, acontece de maneira instantânea. O que isso significa? As versões sobre os acontecimentos estão em permanente mudança.

Para fechar a nossa conversa. Sou um velho repórter estradeiro, 75 anos, que anda pelos rincões do Brasil em busca de histórias para contar. Durante uma significativa parte da minha vida, 21 anos, o país foi governado pela ditadura militar. Um período onde não se podia fazer nada. Comecei a trabalhar em redação em 1979, quando ainda existia a censura. A extrema direita pode dar a versão que bem entender sobre o que acontecia naquela época. Porque os verdadeiros acontecimentos estão registrados nos filmes O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui. É simples assim, como dizem os jornalistas.

Publicado originalmente em História Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.