Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

O olhar sentinela diante da imagem

(Foto: ShareGrid/Unsplash)

A fotografia que circulou como registro do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos nos coloca diante de uma encruzilhada ética fundamental: o que significa olhar para uma imagem de captura? Que tipo de cidadãos nos tornamos ao contemplar um corpo político assim exposto? E, mais importante ainda, que responsabilidades éticas emergem desse ato aparentemente passivo de ver?

A imagem nos mostra um homem com os olhos vendados por um artefato preto, fones de ouvido que anulam sua capacidade auditiva e as mãos algemadas segurando uma mera garrafa d’água. O ambiente fechado, de paredes escuras e iluminação artificial, sugere contenção institucional. Não há janelas, não há horizonte. A pessoa fotografada foi removida do mundo visível e colocada em um não-lugar, onde sua única função é ser vista por outros enquanto ela mesma não pode ver nada.

Esta fotografia não é simplesmente um documento, mas, nas palavras de Ariella Azoulay, um “contrato civil” que nos vincula eticamente ao que está sendo mostrado. Em seu livro The civil contract of photography, Azoulay argumenta que toda fotografia estabelece uma relação política tripartite entre quem fotografa, quem é fotografado e quem observa. Essa relação não é neutra nem passiva, pois implica responsabilidades compartilhadas e exige que reconheçamos nossa cumplicidade no ato de olhar.

O que vemos aqui é a materialização visual daquilo que a autora chama de “expropriação da cidadania visual”, haja vista que o corpo do presidente venezuelano foi despojado de sua capacidade de participar do mundo como sujeito que vê e é visto. Ele foi transformado em puro objeto do olhar institucional, em prova de captura, em troféu visual de um poder que se afirma precisamente pela capacidade de mostrar o outro subjugado. A venda nos olhos não apenas impede que ele veja. Marca simbolicamente sua exclusão do espaço político comum, sua redução a corpo capturado, sequestrado.

A estética da fotografia reforça essa lógica do poder. O enquadramento frontal, quase burocrático, remete às fotografias policiais e aos registros institucionais de prisioneiros. A iluminação artificial e o fundo genérico eliminam qualquer contexto particular, transformando o espaço em uma câmara abstrata de contenção. Tudo na imagem parece projetado para comunicar controle, o corpo está imobilizado, os sentidos foram anulados, o ambiente é hostil e impessoal. Esta é a gramática visual da captura, uma linguagem que se desenvolveu ao longo de séculos de práticas coloniais, militares e policiais.

No entanto, precisamente porque esta fotografia opera dentro dessa gramática do poder, ela nos convoca a uma postura ética específica. Azoulay nos propõe assumir o papel de sentinelas diante das imagens, já que o sentinela não é um mero espectador passivo que consome o sofrimento alheio como entretenimento ou informação, mas aquele que vigia as imagens, que as interroga, que se recusa a naturalizar o que elas mostram. Olhar como sentinela significa transformar a contemplação em uma forma de cuidado político, em resistência à instrumentalização dos corpos.

Essa postura de vigilância ética nos obriga a fazer perguntas incômodas sobre esta fotografia. Quem a produziu e com que propósito? Que narrativa ela busca legitimar ao mostrar um presidente estrangeiro nessas condições? Como essa imagem se insere em uma longa história de representações coloniais do outro como ameaça, inimigo ou criminoso? E, sobretudo, que tipo de precedente político se estabelece quando o corpo de um chefe de Estado eleito pode circular dessa maneira, despojado de qualquer dignidade ou proteção jurídica? 

O sequestro de Maduro pelos Estados Unidos levanta questões complexas de direito internacional, soberania e legitimidade democrática que excedem o escopo desta reflexão. Mas a fotografia em si, independentemente da posição que se tenha sobre o governo venezuelano, nos confronta com algo mais fundamental, isto é, a lógica visual do imperialismo contemporâneo. Como Azoulay argumenta, o olhar moderno foi historicamente estruturado por práticas coloniais e militares que transformaram certos corpos em objetos legítimos de captura, vigilância e exposição.

Esta fotografia repete esse gesto imperial. Ela nos convida a olhar para um corpo político latino-americano despojado de agência, reduzido a puro objeto passivo do poder estadunidense. E, ao fazê-lo, ela normaliza a ideia de que certos líderes, certos países, certos povos podem ser tratados dessa maneira. A imagem não apenas documenta um sequestro, mas performa e legitima uma hierarquia geopolítica em que alguns Estados têm o direito de capturar, julgar e exibir os representantes de outros Estados.

O papel da imprensa e dos meios de comunicação diante dessa fotografia torna-se, portanto, capital, pois, quando veículos jornalísticos reproduzem e circulam essa imagem, que tipo de contrato visual estão estabelecendo com seus leitores? Estão simplesmente informando sobre um fato ou estão participando da lógica do espetáculo punitivo? A fotografia de um corpo capturado sempre corre o risco de se converter em pornografia do poder, em celebração visual da dominação.

Aqui reside a importância da postura do sentinela, pois o jornalismo ético não pode simplesmente reproduzir imagens de captura como se fossem transparentes ou neutras, é necessário contextualizá-las, interrogá-las, revelar suas condições de produção e circulação. É preciso lembrar aos leitores que olhar não é um ato inocente, que cada imagem carrega uma história de relações de poder e que nossa responsabilidade como espectadores é resistir à naturalização do sofrimento e da violência.

No contexto específico desta fotografia, isso significa reconhecer que estamos diante de um ato de poder sem precedentes na história recente, o sequestro e a exibição de um presidente em exercício por uma potência estrangeira. Independentemente das acusações que motivaram essa detenção, a imagem em si estabelece um perigoso precedente visual. Ela nos mostra que corpos políticos considerados inimigos podem ser reduzidos a esta condição de pura passividade e exposição.

A venda preta sobre os olhos de Maduro funciona como metáfora potente da própria operação que a fotografia realiza. Assim como ele não pode ver, nós somos impedidos de ver o contexto completo, as condições jurídicas, os processos políticos que levaram a esse momento. A imagem fragmenta e isola, oferecendo apenas o espetáculo da captura sem os elementos necessários para uma compreensão mais ampla. Ela nos oferece, em suma, a pornografia do poder sem os instrumentos críticos para contestá-la. 

Mas é precisamente porque essa fotografia opera dentro dessa lógica do espetáculo que nossa responsabilidade ética se torna mais urgente. Azoulay nos ensina que o contrato civil da fotografia não se rompe quando as imagens são violentas ou problemáticas. Pelo contrário, é nesses momentos que ele se torna mais necessário, porquanto o contrato nos obriga a não desviar o olhar, mas também a não nos satisfazer com o mero ato de ver. Ele nos convoca a transformar a visão em vigilância, a contemplação em cuidado, o espectador em sentinela.

Esta transformação exige que desaprendamos certos reflexos visuais profundamente arraigados, pois fomos educados, ao longo de séculos de cultura visual ocidental, a ver certos corpos como naturalmente suscetíveis à captura e à exposição. O corpo colonizado, o corpo racializado, o corpo do inimigo foram historicamente apresentados como objetos legítimos do olhar imperial. A fotografia de Maduro se insere nessa genealogia, atualizando para o século XXI uma prática visual que remonta às primeiras fotografias coloniais.

Desaprender esse olhar imperial significa recusar a posição de espectador satisfeito que a imagem nos oferece. Significa perguntar constantemente quem tem o direito de capturar e exibir corpos dessa maneira, que estruturas de poder tornam essa exibição possível e aceitável, e que tipo de mundo estamos construindo quando normalizamos esse tipo de violência visual?

A resposta ética diante dessa fotografia não pode ser o silêncio nem a indiferença, mas tampouco pode ser a celebração acrítica ou a simples reprodução da imagem sem contexto. O verdadeiro gesto político consiste em transformar essa imagem em uma oportunidade para interrogar as estruturas visuais do poder contemporâneo, em usar essa fotografia não como prova da legitimidade da captura, mas como evidência da necessidade urgente de repensar as relações entre visão, poder e justiça.

Concluímos, então, que o olhar sentinela é aquele que permanece acordado diante das imagens, que se recusa a naturalizar o que elas mostram, que insiste em perguntar pelo contexto, pela história, pelas relações de poder que tornam certas visões possíveis e outras impossíveis. É o olhar que transforma a fotografia de um instrumento de dominação em uma ferramenta de reflexão crítica. É o olhar que, em última instância, reconhece que ver é sempre um ato político e que nossa responsabilidade como espectadores é inseparável de nossa responsabilidade como cidadãos.

***

Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.