
(Foto: Igor Starkov/Unsplash)
Um informe produzido pela empresa Juniper Research (1) escancarou de forma brutalmente clara por que devemos regulamentar o modelo de negócios das plataformas digitais e não apenas controlar o acesso a elas por menores de 16 anos. Segundo o whitepaper (2) Protecting Users Against Scam Ads (Protegendo usuários contra publicidade fraudulenta), somente no ano passado os europeus foram bombardeados por 993 bilhões de anúncios fraudulentos que renderam às plataformas digitais (Facebook, TikTok, Instagram, YouTube e outras) o equivalente a cerca de 27,3 bilhões de reais (4,4 bilhões de euros).
Os resultados da pesquisa levaram políticos e pesquisadores europeus, como o professor espanhol Henrique Dans, a propor a tese de que é fundamental regular o sistema econômico que serve de base para a estratégia de viciar crianças e adolescentes em conteúdos online de natureza sexual e misógina. A plataforma Facebook, por exemplo, admitiu que aproximadamente 10% do seu faturamento bruto em 2024, estimado em 16 bilhões de euros, cerca de 99 bilhões de reais, veio de anúncios de produtos proibidos, falsificados ou viciantes. São quase 15 milhões de anúncios considerados de alto risco que diariamente são acessíveis às crianças e adolescentes.
Quando uma megaempresa como Facebook obtém uma tal rentabilidade com a veiculação de anúncios fraudulentos, o problema deixa de ser moral e educacional para ser econômico e financeiro. Enquanto as plataformas conseguirem manter intacto o seu modelo de negócios, elas sempre terão estímulos financeiros suficientes para encontrar maneiras de burlar qualquer regulamentação de acesso a conteúdos considerados antissociais por pais, educadores e psicólogos.
Lucros obscenos com a fraude informativa
As plataformas digitais conseguiram lucros líquidos astronômicos da ordem de 150 bilhões de dólares (estimativa) em 2025. Só as três plataformas do conglomerado Meta (Facebook, Instagram e Threads) deram a seu dono, Marc Zuckerberg, nada menos que 60 bilhões de dólares no ano passado. Esta máquina de fazer dinheiro tem como motor a chamada ‘economia da atenção’, por meio da qual uma empresa gera produtos que conseguem atrair a atenção de seus visitantes e usuários. O que é pouco divulgado é o fato destas plataformas não pagarem nada pelos dados capturados e que depois servem para faturar bilhões de dólares e, pior do que isto, transformar grande parte dos seus usuários em zumbis viciados em violência física, moral, sexual e política.
É um processo bem mais complexo do que levar as pessoas a clicar numa página na internet, como era a estratégia adotada até o final da primeira década do século XXI. A contagem dos cliques era o parâmetro para fixar preços de anúncios. Hoje, o valor é determinado pelo tempo que uma pessoa fica visitando um site. Quanto mais tempo um usuário acessa uma página, mais informações pessoais são capturadas e registradas em bancos de dados pelo dono da página. Estes dados funcionam como uma espécie de radiografia mental e comportamental dos usuários, permitindo que a plataforma desenvolva perfis que servirão para produzir anúncios com um grau inédito de personalização.
Assim, quanto mais viciante for o conteúdo disponibilizado pelas plataformas, maior é o seu faturamento, o que torna a veiculação de anúncios pedófilos, sexualizados, misóginos ou de estímulo a atividades criminosas ou racistas algo indispensável ao aumento das receitas de empresas como Meta, Alphabet, TikTok e X, as grandes no segmento de plataformas digitais. A obsessão das plataformas por maiores receitas é impulsionada pela frenética disputa pela hegemonia no negócio dos aplicativos de inteligência artificial.
Estes dados e esta conjuntura precisam ser levados em conta nos esforços para reduzir a exposição de jovens à conteúdos viciantes. Não adianta impor proibições porque o ritmo frenético das inovações tecnológicas torna rapidamente obsoletas as regulamentações. Mais efetivo é criar controles sobre o faturamento das plataformas para anular o estímulo financeiro à produção e disseminação de conteúdos viciantes de caráter fraudulento, antissocial ou sexualizado.
O vicio digital
O alvo principal deve ser o modelo de negócios que gera as distorções que tanto assustam as famílias e governantes. Em vez de proibir o acesso a menores de 16 anos, por exemplo, pesquisadores europeus sugerem a imposição de taxas sobre conteúdos que possam vir a ser considerados inadequados para menores de idade. Um paywall (3) específico para cada conteúdo questionável já eliminaria boa parte dos jovens que se aproveitam da gratuitidade e do anonimato para se viciar e enriquecer o patrimônio das plataformas.
Os europeus já cunharam a expressão Internet Attention Disorder – IAD (Transtorno de atenção causado pela internet) para designar as consequências pessoais do uso viciante de plataformas digitais. Os legisladores e juízes europeus entendem que a IAD também ocorre no campo da política. O mesmo processo de ‘escravização informativa’ dos usuários está sendo aplicado durante campanhas eleitorais no Velho Mundo e noutros países. Cria-se um site chamativo (violência, sexo, excentricidades, fofocas etc.) que rapidamente se torna viciante e serve de canal para a inserção de pequenas mensagens, sem identificação partidária, que vão aos poucos moldando a percepção política do usuário.
O vício político e ideológico passa quase despercebido na grande imprensa porque há alguns pontos semelhantes no modelo de negócios dos conglomerados midiáticos e o das chamadas Big Techs, megaempresas de tecnologia digital e que controlam plataformas. A imprensa convencional também tem como principal fonte de receitas a monetização da atenção do público, um sistema usado por jornais desde 1833 (4) quando surgiram os Penny Papers (jornais de um centavo). Foi a solução descoberta pelos donos de pequenos jornais norte-americanos para reduzir o preço de cada exemplar por meio da receita obtida por anúncios que ganharam visibilidade graças à atenção de leitores atraídos por notícias sensacionalistas.
Apesar de, basicamente, se apoiarem no mesmo modelo de negócios, as plataformas digitais enfrentam hoje uma dura oposição da grande imprensa, que utiliza seus vínculos com o poder político e empresarial para defender os seus interesses. No fundo é uma batalha por dinheiro. As plataformas, para investir em inteligência artificial, o mais recente eldorado financeiro global, e a imprensa para ganhar tempo buscando o desembarque mais lucrativo possível da era analógica.
- O informe foi preparado pela fintech Revolut para a Juniper que foi absorvida pela HPE , ambas especializadas na criação de redes digitais. Todas as empresas têm sede no Reino Unido.
- White Paper é o termo em inglês para um documento de até 10 páginas, produzido a partir de pesquisas de campo, com conclusões detalhadas sobre uma questão específica, e que geralmente circula nos meios empresariais.
- Paywall, muro de pagamento, expressão inglesa para identificar um obstáculo financeiro para acesso a algum tipo de ambiente digital.
- O primeiro jornal a usar estruturalmente a monetização da atenção foi o The Sun, de Nova Iorque, cujo editor Benjamin Day é considerado o criador da fórmula penny paper.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
