
(Foto: History in HD/Unsplash)
Não precisa ser um gênio em comércio internacional para saber que iam causar problemas para os consumidores americanos as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, às exportações de produtos de vários países, incluindo o Brasil. Especialmente sobre os produtos de consumo diário das famílias, como café, frutas, carnes, ovos e outros alimentos que fazem parte do famoso breakfast, o reforçado café da manhã do americano. Sobre o assunto, em 18 de julho de 2025 escrevi o post Tarifaço do Trump no Brasil encarecerá o famoso desjejum das famílias americanas. Na legenda da foto que acompanhava a publicação perguntei: Qual é o limite que a lei americana estabelece para o poder do presidente? A resposta foi dada na semana passada, sexta-feira (20), pela Suprema Corte dos Estados Unidos, que é formada por nove juízes. Por seis votos a três, decidiu que a legislação usada por Trump para decretar o tarifaço, a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (EEPA, na sigla em inglês), não autoriza o presidente a impor tarifas globais unilateralmente. Resumindo, as tarifas só poderiam ser aplicadas com autorização do Congresso.
Adecisão é apontada como uma derrota do presidente americano, que no seu primeiro mandato (2017 – 2021) indicou três dos juízes que ajudam a moldar o atual perfil conservador da Suprema Corte. A reação de Trump à decisão foi imediata. Agradeceu aos três juízes que votaram a seu favor e disse que o restante cometeu um erro ao rejeitar o tarifaço. Em seguida, usando uma lei de 1974, que permite ao presidente elevar as taxas de importação de produtos estrangeiros por 150 dias sem necessidade do aval do Congresso, anunciou que cobraria de todos os países uma alíquota de 10%, que horas mais tarde elevou para 15%, o máximo permitido. A medida deveria entrar em vigor nesta terça-feira (24), No Brasil, existe uma “máxima”: “sentença de juiz não se discute, se cumpre”. Trump está tentando driblar a decisão da Justiça. Qual será a reação dos juízes, saberemos nos próximos dias. Este é um assunto para ser acompanhado pela imprensa que faz a cobertura online diária do assunto. O que vou discutir com os leitores e colegas repórteres é a questão do limite imposto pela Corte a Trump, que até então surfava na onda do “eu posso tudo”. O presidente americano assumiu o seu segundo mandato em 20 de janeiro de 2025. Semanas depois, em 2 de abril, no que chamou de Dia da Libertação, decretou a cobrança de tarifas de 10% a 50% sobre os produtos de quase todos os países. O tarifaço surpreendeu a todos, principalmente os aliados dos Estados Unidos. Como o Brasil, um dos poucos países que têm déficit no comércio com os americanos, mas mesmo assim teve suas exportações taxadas em 50%. Posteriormente, Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, negociaram e vários produtos foram retirados da lista dos tarifados. Os dois presidentes têm um encontro marcado para discutir tarifas e outros assuntos em março – história na internet. O fato é o seguinte. O presidente americano vinha usando as tarifas como arma de negociação com os demais países. A Suprema Corte retirou a arma das mãos dele.
Da mesma forma, Trump tem usado as Forças Armadas como argumento de negociação. Lembro que, no início do ano, forças especiais americanas entraram clandestinamente no território da Venezuela e capturaram o presidente do país, Nicolás Maduro, 63 anos, e sua mulher, Célia Flores, 60 anos. Foram levados presos para Nova York, onde serão julgados por tráfico de drogas e outros crimes. O fato já era esperado. A Venezuela tem imensas jazidas de petróleo e as empresas americanas têm interesses na região – matérias na internet. Dois meses antes da prisão de Maduro e da mulher, Trump já havia enviado navios de guerra para a região, entre eles o maior porta-aviões dos Estados Unidos, o USS Gerald R. Ford, movido a energia nuclear, com 75 aviões de combate. Além de um efetivo de 15 mil soldados, marinheiros e pilotos de combate. Uma estratégia semelhante está sendo usada contra o Irã, a antiga Pérsia, que fica na Ásia Ocidental, na região da Oriente Médio. Trump exige que o governo dos aiatolás assine um tratado renunciando ao enriquecimento de urânio, material usado para fazer a bomba atômica. Estão na região dois porta-aviões, um deles o Gerald Ford, que estava a caminho de casa quando recebeu ordens de dar meia-volta. O que vai acontecer no Irã ainda é desconhecido. Por vários motivos, a chance da estratégia americana dar errado é bem maior que na Venezuela. O principal é que Irã é uma potência global na produção de petróleo. Trump também enfrenta problemas para expulsar do território americano os imigrantes ilegais, uma de suas bandeiras políticas. A violência dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla inglês) nas suas ações contra os ilegais gerou uma onda de protestos que resultaram na morte de dois cidadãos americanos. Renee Nicole Good, 37 anos, e o enfermeiro Alex Pretti, 37 anos, foram mortos a tiros pelo ICE em janeiro nas ruas de Mineápolis, Minnesota, por apoiarem a luta dos imigrantes. Analistas acreditam que a situação irá se refletir nas “midterms”, como são chamadas as eleições de meio do mandato presidencial, marcadas para 3 de novembro. Serão escolhidos todos os 435 representantes da Câmara (equivalente a deputado federal no Brasil), 35 dos 100 senadores, 39 dos 50 governadores e ocupantes de cargos estaduais e municipais. A previsão é que Trump perderá a maioria no Congresso.
Para arrematar a nossa conversa. Começa a ganhar corpo entre os grandes investidores a história de que o modo de governar do presidente dos Estados Unidos está espalhando um clima de insegurança nos negócios. Vejam bem. A decisão da Suprema Corte ocorreu em razão de uma demanda do comércio varejista americano, que se sentiu prejudicado pelo tarifaço. Os Estados Unidos têm lá os seus problemas, que não são poucos. Mas desde a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) têm sido um “porto seguro” para os negócios. Continuarão sendo?
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
