Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1377

A orfandade informativa em campanhas eleitorais na era digital

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Campanha eleitoral virou sinônimo de insegurança e desorientação informativa para a esmagadora maioria dos brasileiros. É que nos meses que antecedem a votação, o discurso de imparcialidade, objetividade, credibilidade e isenção é mandado às favas por candidatos, partidos e militantes políticos. O caos informativo aumenta exponencialmente graças à proliferação descontrolada de versões contraditórias, desinformação, fake news e meias verdades, tudo isto pela imprensa e pelas plataformas digitais.

No meio de tudo isto está o desprotegido eleitor que tem duas opções: tapar os ouvidos e fechar os olhos aderindo a uma das correntes políticas envolvidas na campanha eleitoral, ou desligar-se de tudo e passar a ser um ermitão eleitoral, descrente de tudo e de todos. A primeira opção leva à formação de bolhas, à xenofobia e à polarização ideológica. A segunda hipótese ao absenteísmo eleitoral, indiferença e ceticismo.

O problema é que nenhuma das duas escolhas contribui para o fortalecimento da democracia, o principal objetivo de uma campanha eleitoral. Estamos assim diante de um dilema cruel. Como conviver com a desorientação informativa numa conjuntura onde a complexidade da transição para a era digital nos impõe tantas e inevitáveis incertezas e dúvidas?

Na era das plataformas digitais e quando os grandes conglomerados midiáticos vestem camisetas partidárias no período pré-eleitoral, o cidadão fica literalmente perdido numa incômoda orfandade noticiosa. Este é o dilema de um número crescente de cidadãos e cidadãs cujo distanciamento informativo em relação à mídia não cessa de crescer. É o fenômeno que os norte-americanos batizaram de ‘news avoiders’ (negacionismo do noticiário) e que vem crescendo no mundo inteiro em função da brecha existente entre a agenda da grande imprensa e a das pessoas comuns.

As consequências do negacionismo

A dificuldade em conseguir entender o que está acontecendo diante da batalha entre diferentes estratégias de marketing político-eleitoral, leva leitores, ouvintes, telespectadores e usuários da internet a se refugiar no negacionismo informativo. Votar deixou de ser um exercício de participação política e está se transformando numa incômoda obrigação, como mostraram as recentes eleições na Costa Rica, um país centro-americano mundialmente famoso por ter transformado a ida às urnas numa festa democrática. Nas eleições presidenciais de 2026, a abstenção bateu recordes históricos, algo inédito na história deste país conhecido por não ter exército.

O mais preocupante de tudo isto é que a imprensa, que deveria ser uma espécie de âncora ou tábua de salvação do eleitor desorientado, não está cumprindo este papel. Inseguros sobre o que o futuro lhes reserva, os grandes conglomerados midiáticos se aproximam cada vez mais dos atuais núcleos de poder econômico e político em busca de sustentabilidade financeira. O resultado é o aumento de uma militância informativa, pouco disfarçada, especialmente no que se refere ao governo Lula e ao STF.

É claro que jornais, rádios, telejornais e plataformas digitais também sofrem os efeitos desta conjuntura criada pela complexidade da transição para a era digital na informação pública. A crise no modelo de negócios da mídia convencional é um processo irreversível com óbvios desdobramentos corporativos. Mas a imprensa cumpre também uma função pública de prestar serviços informativos à população, logo, deveria ser transparente ao admitir sua própria dificuldade em publicar dados, fatos e eventos capazes de gerar dúvidas nas pessoas.

A transparência informativa é uma condição básica para que as campanhas políticas contribuam para que as eleições cumpram o seu papel na democracia. Boa parte da responsabilidade por esta transparência cabe à imprensa e ao jornalismo, as instituições que a sociedade escolheu para ajudar os cidadãos a tomar decisões.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.