Quinta-feira, 26 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1381

Jornalismo de belas letras

(Reprodução: Robert-Benchley.-Up-the-dark-stairs.-The-New-Yorker)

Não era mera questão de estilo. Longe disso. E, sim, uma discussão sobre o que realmente é fazer jornalismo. Algo que deveria passar longe da sedução do texto, da retórica, dos floreios, algo que deve prezar pela informação. Mas não apenas a informação.

O jornalismo não precisava ser duro, frio, calculista. Um apuro na forma, a não prejudicar o conteúdo, não era mal, pelo contrário, muito bem-vindo. A condenação estava na imitação barata, na repetição e no erro das escolas de jornalismo ao ensinar formatos sem a necessária reflexão.

A pura cópia de um estilo pela inexperiência do principiante ao olhar dos astutos despertava o riso do absurdo e a pergunta: onde está a notícia? Mudam-se os tempos, e o jornalismo não muda no que é essencial: a notícia precisa ser notícia.

Toda essa conversa passou pela imprensa quando Robert Benchley alertou para a perda de uma prática necessária do jornalismo mais antigo, aquele que vai e volta nos intervalos das ondas drásticas dos modismos passageiros. Benchley escreve:

“Os redatores (copydesk) antigamente costumavam insistir que todos os fatos da história estivessem reunidos no parágrafo de abertura. Isso nunca resultava em uma crônica muito emocionante, mas, pelo menos, você entendia o que estava acontecendo”.

O que estava acontecendo, ele conta, é que o jornalismo estava virando mais perfumaria, porque todo repórter arvorava-se em ser mestre na arte de contar e o jornalismo estava virando outra coisa. O lead caía para o final, a “atmosfera” tomava conta da notícia e o leitor ficava sem saber o que de fato aconteceu:

“Subindo as escadas escuras de uma casa surrada na Ocean Parkway, arrastava-se uma figura curvada e cansada. Um aroma de repolho cozido enchia o corredor. A mãe de alguém estava voltando para casa. A mãe de alguém trazia um braçado de lenha para o fogo minguante na Ocean Parkway, 1857. Logo a forma exausta estaria no topo das escadas sombrias. Mas o Destino, na pessoa do Policial Norbey, estava presente etc.”.

O que no estilo antigo, ou seja, na técnica do lead, seria: “Mary J. Markezan, da Ocean Parkway, 1278, foi encontrada na madrugada de hoje pelo policial Charles Norbey, do Terceiro Distrito, em estado de desmaio por falta de gim etc”.

Benchley apontava a raiz do problema: Columbia ensinava a “bela escrita” para notícias e reportagens; os jornais não só incentivavam a sua prática, como também premiavam os casos mais emblemáticos de exercício de literatice. Prática mal copiada do jornalismo de O. Henry misturado com o de Irvin Cobb.

Um modelo ao qual nem o próprio Benchley ficou imune e do qual seus leitores foram vítimas. Eis que ele precisou escrever sobre Ada Rehan. E não se fez de rogado: jogou dois parágrafos iniciais da mais perfeita atmosfera e um final que trazia o fato.

Acontece que, bem, melhor o próprio Benchley contar: “Infelizmente, as exigências da diagramação necessitaram o corte do último parágrafo; assim, os leitores do Tribune na manhã seguinte nunca chegaram a descobrir o que havia inspirado aquele tributo realmente belo a alguém”.

Ada Rehan havia falecido e foi sepultada e o leitor ficou sem saber graças às belas letras. Benchley contou toda essa história do que se passava com o jornalismo há 100 anos, exatamente em 1925, na seção Talk of the Town da revista The New Yorker em “Subindo as escadas escuras”.  E hoje, o que temos?

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.