
(Foto: Amar Preciado/Pexels)
O mundo da comunicação foi tomado no início de 2026 por discussões sobre o “profissional multimídia”. O debate foi resultado da sanção presidencial em 5 de janeiro da lei n.º 15.325, que cria oficialmente uma “profissão multimídia” para ser exercida principalmente no ambiente digital. Apesar do tema ter saído dos holofotes, acredito que ainda há discussões relevantes a serem feitas no caso do jornalismo.
É importante destacar que a lei acabou virando debate por uma questão que, na verdade, nunca esteve explicitamente nela: a regulação da atividade dos influenciadores digitais. Cada vez mais influentes na sociedade, essas pessoas (trabalhadores do digital) não contam hoje com uma regulamentação específica que determine o que pode, ou não, ser feito por elas. Sem limites e regras claros, há um espaço perigoso aberto para excessos e problemas.
Se é verdade que regular essa atividade é cada vez mais importante, a lei em nenhum momento aborda diretamente a questão. Influenciadores digitais até podem ser enquadrados como “profissionais multimídia” pelas atividades que exercem, mas estão longe de ser o grupo mais afetado pelo texto. Na verdade, o impacto maior da lei atinge muito mais setores tradicionais do mundo da comunicação.
Tomemos como exemplo o cenário de trabalho atual do jornalismo. Pesquisas como o “Perfil do Jornalista Brasileiro” (edições de 2012 e 2021) e as realizadas pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da USP mostram um quadro preocupante: enxugamento de redações, ondas de demissões, extinções de cargos e, para quem fica, jornadas exaustivas de trabalho, acúmulo de funções, salários estagnados ou defasados e diversos problemas de saúde. E tudo isso somado à acelerada “pejotização” da profissão.
Todas as transformações estão diretamente ligadas ao digital. Afinal de contas, as empresas jornalísticas viram o seu modelo de negócios tradicional colapsar com as mudanças trazidas pela internet e, principalmente, pela ação das plataformas digitais, que souberam preencher um vácuo deixado pelos veículos jornalísticos que demoraram a se adequar a esse novo ambiente, explorando os próprios jornais.
Do ponto de vista empresarial, a evaporação dos lucros e receitas não deu muita opção além dos cortes de gastos. Algumas das primeiras vítimas desse movimento foram os antigos copydesks e, depois, diagramadores dos jornais impressos, demitidos e com funções redistribuídas para a figura do editor.
Mais recentemente, estamos observando a ascensão do “repórter multimídia”: ele precisa dominar a produção de conteúdo em texto, áudio e vídeo, da ideação à edição. Mais ainda, precisa estar adaptado ao digital: saber a “linguagem das redes”, suas estéticas e o seu jeito específico de se comunicar com o público, bem diferente do jornalismo tradicional.
Na prática, o esforço é para aproximar os jornalistas dos influenciadores digitais e, quem sabe, fidelizar e atrair o público perdido dos veículos para esses novos agentes comunicacionais. Vemos, com isso, diversos veículos com origem no texto apostando cada vez mais na produção de conteúdo em vídeo, algo inevitável diante da hegemonia crescente do Instagram e do TikTok no mundo digital.
Se a estratégia tem potencial para as empresas, não podemos deixar de discutir suas consequências preocupantes para o jornalista. Do ponto de vista acadêmico, o movimento já havia sido identificado pelo professor Ramón Salaverría em 2014, quando descreveu o chamado “jornalista multimídia” em seu capítulo no livro “Webjornalismo: 7 características que marcam a diferença”. Não é, portanto, uma surpresa total para quem estuda a área.
A surpresa, talvez, é o grau de precarização de trabalho decorrente dessa mudança. Estamos falando, afinal de contas, de profissionais cada vez mais polivalentes: precisam dominar diferentes linguagens, adquirir novos conhecimentos, mudar o jeito de falar (do conteúdo à linguagem, passando até por jeito de se vestir), devem construir uma imagem e persona online, conviver com essa nova exposição e suas consequências e ainda adicionar diversos novos itens na rotina de trabalho. E tudo isso ganhando o mesmo salário e mantendo as mesmas horas de trabalho.
É importante destacar que, no jornalismo, é muito comum que um repórter de texto tenha escolhido o formato pela aversão ao vídeo, e vice-versa. No “plano de carreira” do jornalista, não se esperava até então a necessidade de saber fazer um pouco de tudo, e bem, em diferentes formatos. E as empresas não dão indícios de que estão dispostas a esperar essa adaptação ocorrer. Assim, levas de demissões e contratações tendem a priorizar novos conhecimentos, habilidades e, principalmente, profissionais mais jovens (nativos digitais) e já “prontos” para aparecer nas redes, mesmo que o cargo seja para um site ou jornal.
Essa nova transformação acelerada da área vai gerar, e já está gerando, diversas reverberações no setor.
Os próprios cursos de jornalismo precisarão repensar suas lógicas e currículos para formar o tal “profissional multimídia”, e os jornalistas precisarão correr atrás de um conjunto de competências em constante atualização (afinal, os algoritmos das redes sempre se atualizam, e o jeito de fazer muda com eles). Na dinâmica das redações, profissionais que se adaptarem melhor e mais rápido a tudo isso tendem a ganhar mais relevância, reconhecimento e chances de ascensão profissional, redesenhando várias lógicas organizacionais.
Porém, é preciso tomar cuidado para não legitimar o que não deveria ser legitimado. Se é válido que os veículos busquem se adaptar mais ao digital e mudar linguagens e conteúdos para chegar ao público, isso não deveria ocorrer às custas da qualidade de trabalho e do bem-estar dos seus jornalistas. Afinal, como manter a qualidade jornalística em um cenário multitarefas e de sobrecarga que não para de aumentar?
É aí que mora o risco em torno da lei da “profissão multimídia”. Ao reconhecer e legitimar esse quadro, em vez de coibi-lo ou de garantir regras que protejam esse mesmo profissional, o texto acaba incentivando e acelerando essa transformação, sem se preocupar com as profundas consequências para o mercado de trabalho da comunicação.
Por isso, não podemos deixar o tema morrer. É preciso intensificar o debate sobre o assunto e trabalhar para corrigir essas ausências legais. Afinal, não basta existir a “profissão multimídia”, também é preciso que ela possa ser exercida com qualidade e preservando o bem-estar dos seus profissionais.
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João Pedro Malar é professor na PUC-MG. Doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM da ECA-USP, onde também obteve o título de Bacharel em Jornalismo. É membro do grupo de pesquisa COM+, dedicando-se a estudar a relação entre veículos jornalísticos e plataformas digitais e modelos de negócio no jornalismo.
