Segunda-feira, 3 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Jornalismo de danos

(Foto: Nishant Das/Pexels)

Quem não lembra da imagem que viralizou do Papa Francisco vestido com um casaco de luxo? Entre o verdadeiro e o falso, na espiral infinita da rede, a imagem é mais um sintoma da nova era da informação, que exige do jornalismo vigilância e atitude.

Emblemático por se tratar de uma figura pública de alcance mundial, o caso revelou um dos sintomas do que vem sendo nomeado como deepfake, mídia sintética, fake news, desinformação e manipulação digital.

Um problema que ganha outra dimensão quando aparece dentro do próprio jornalismo, sobretudo pela sua credibilidade para atuar como árbitro da checagem e da verificação.

Recentemente, uma nota em uma coluna de jornal, coisa simples sobre o lançamento de um livro, trouxe um detalhe que poderia parecer irrelevante: a fotografia que acompanha o texto é uma imagem gerada por inteligência artificial que simula ser o autor.

Quando o jornalismo altera ou cria a imagem do que deveria reportar, há uma mudança na natureza da informação. A imagem perde sua função informativa e passa a operar no campo da ficção, induzindo ao erro e causando confusão.

A pergunta que se impõe é simples: para que inventar um real quando o real já existe? E mais: quais as implicações disso, considerando que o jornalismo se funda no compromisso com a veracidade?

Ao impor a alguém uma identidade visual artificial que não lhe pertence, o jornalismo toca diretamente os direitos da personalidade, especialmente no direito à imagem. O retratado passa a existir publicamente através de um rosto que não é o seu.

A imagem passa a ser indexada, replicada e a circular indefinidamente, consolidando uma aparência que nunca existiu. O jornalismo muda então de lado, deixa de informar, vira desinformação. Causa danos. Dano ao leitor, que tem direito à informação correta; dano a quem é vítima da imagem falsa; dano à própria credibilidade do jornalismo.

Além disso, há as possíveis consequências jurídicas. Pode ensejar direito de resposta, reparação por dano moral e questionamentos sobre responsabilidade editorial. Não é pouco.

Urge ao jornalismo responsabilidade e o devido crivo crítico.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.