Sexta-feira, 4 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

A Globo deveria ter mandado jornalistas para o Nepal?

(Foto: https://kaboompics.com/Pexels)

Durante os anos em que trabalhei para a Organização Mundial da Saúde (OMS), participei da resposta a emergências. Uma coisa que aprendi nessas ocasiões é que boas intenções não bastam.

Muita gente se desloca para ajudar em desastres naturais, epidemias e até conflitos armados. Nem todos levam consigo as habilidades necessárias ou a infraestrutura para trabalhar sem se transformar em mais uma demanda sobre uma região que já entrou em colapso.

Presenciei, por exemplo, a chegada de dentistas depois de um terremoto no qual a saúde bucal estava no pé da lista de prioridades. Ao desembarcarem, a primeira coisa que pediram foi alojamento, alimentação, transporte e água potável. Também vi uma equipe médica chegar sem anestesista. Pediram um especialista local que falasse seu idioma. Foram mandados para casa no voo seguinte.

O esforço internacional de ajuda humanitária é imensamente diverso. Médicos Sem Fronteiras leva estruturas hospitalares desmontáveis, medicamentos, energia e outros recursos necessários à própria operação. Essa autossuficiência impressiona, embora torne a mobilização muito complexa. A Cruz Vermelha procura utilizar a infraestrutura hospitalar local que permanece operacional e complementá-la com pessoal e medicamentos. Governos mandam equipamentos e equipes de resgate. Cada modelo tem vantagens e limitações.

É claro que a imprensa deve cobrir uma catástrofe. Informação pode salvar vidas. A imprensa local e as rádios comunitárias, por exemplo, podem informar onde há água potável, quais estradas estão transitáveis, onde funcionam hospitais de campanha ou que áreas precisam ser evacuadas.

Para a imprensa internacional existe outro desafio: o valor jornalístico produzido pela presença física justifica o custo, as dificuldades e o impacto de estar ali?

Durante muito tempo, a justificativa para essa presença parecia mais evidente. A imprensa internacional ajuda a mobilizar atenção e ajuda externa, verifica informações, confronta versões oficiais e documenta o que está acontecendo. Na televisão há ainda outra função: um correspondente conhecido funciona como mediador entre o espectador e uma tragédia distante. Ele entrevista sobreviventes, faz passagens no meio da destruição e dá ao público um rosto familiar naquele cenário.

Sabemos também que mandar uma equipe ao outro lado do mundo custa caro e a pressão diária para justificar esse alto investimento muitas vezes empurra as emissoras para roteiros narrativos previsíveis. Quando trabalhávamos em emergências na OMS, tínhamos uma piada interna sobre a CNN. No primeiro dia, a equipe chegava e fazia uma reportagem no aeroporto. No segundo e no terceiro, mostrava a destruição e entrevistava as vítimas. Caminhava entre escombros procurando alguém em condições físicas e psicológicas de dar uma sonora. Quando não encontrava, apareciam os cães farejadores, que nunca se opunham à filmagem.

No quarto dia começava o perigo da fadiga de compaixão: era preciso renovar o interesse do público. Então aparecia um culpado, normalmente alguma autoridade local acusada de não estar fazendo o suficiente. No quinto dia chegava a vez do governo nacional. No sexto, a culpa era das organizações internacionais, inclusive a OMS, acusadas de estarem “apenas coordenando” enquanto as pessoas continuavam sofrendo.

Missão cumprida: a CNN voltava para o aeroporto.

Era uma caricatura, bastante injusta com uma das poucas emissoras que tinham capacidade logística e orçamento para operar em situações às quais redes menores nem sequer chegavam. A piada exagerava um problema real: o enviado precisa produzir reportagem rapidamente em um lugar que não conhece, frequentemente sem dominar o idioma, a cultura ou a geografia.

É nesse contexto que sempre me lembro de uma das frases mais brutais da história do jornalismo: Anyone Here Been Raped and Speaks English? — “Tem alguém aqui que foi estuprada e fala inglês?”. A frase foi atribuída a um correspondente da BBC no livro de memórias de Edward Behr. Resume de maneira cruel o risco de chegar a uma tragédia procurando, antes de tudo, alguém que se encaixe rapidamente na reportagem de que precisamos.

Nos últimos anos, esse dilema ficou mais agudo. Durante boa parte da história da televisão, chegar fisicamente ao epicentro era necessário também para obter as imagens da tragédia. Hoje, telefones celulares, câmeras de segurança, drones e satélites registram os acontecimentos antes que uma equipe estrangeira consiga desembarcar. As imagens circulam imediatamente por agências, redes sociais, autoridades e organizações de socorro.

Muitas vezes, quando chega, o enviado já não registra o acontecimento. Registra seus vestígios: aqui havia uma escola, aqui havia uma ponte, aqui havia uma casa. A presença no terreno precisa então acrescentar outras coisas: verificar informações, observar o que as imagens não mostram, encontrar personagens próprios, entender o contexto e servir como testemunha independente.

Foi por isso que acompanhei com particular interesse a chegada de Felipe Santana e Lucas Louis ao Nepal.

Ainda é cedo para tirar conclusões. Desconheço a logística e as decisões internas que levaram a Globo a mandar os dois jornalistas. A primeira fala de Felipe ao chegar a Katmandu me lembrou o primeiro estágio da velha piada da CNN.

Já era noite no Nepal. O lugar da tragédia ficava a cerca de cem quilômetros da capital, em direção ao Himalaia, e as estradas estavam fechadas.

“A gente vai tentar acompanhar o trabalho dos resgatistas”, disse Felipe, acrescentando que ainda não sabia quão perto conseguiriam chegar.

Chegar ao país não é o mesmo que chegar ao epicentro. Uma equipe pode atravessar metade do planeta e ainda ter pela frente cem quilômetros de estradas bloqueadas, pontes destruídas e áreas inacessíveis. Há limites que não dependem apenas da disposição do repórter. Uma estrada fechada pode estar fechada porque há risco de novos deslizamentos. Uma área interditada pode ser perigosa para os próprios jornalistas ou porque a presença de pessoas estranhas pode atrapalhar o resgate.

Nos dias seguintes, Felipe e Lucas conseguiram se aproximar de algumas das áreas atingidas. Em uma das primeiras reportagens no terreno, chegaram ao distrito de Nuwakot. Mostraram casas praticamente soterradas, lama em alturas impressionantes, postes e redes elétricas destruídos. Conversaram com moradores que haviam perdido casas, lojas e parentes.

Um homem tentava encontrar o corpo do irmão. Uma mulher dizia não ter mais esperança de localizar familiares de uma vila arrasada. A equipe também acompanhou a movimentação do Exército nepalês nas buscas. Em determinado momento, os militares pediram aos jornalistas que não avançassem, para não interferir na operação.

Esse episódio diz bastante sobre o dilema. Felipe e Lucas estavam ali justamente para acompanhar as buscas. Existia um limite a partir do qual chegar mais perto poderia começar a interferir no trabalho que queriam documentar.

Os dois conseguiram mostrar coisas que dificilmente seriam obtidas de uma redação no Brasil. Suas entrevistas aproximaram as vítimas do público brasileiro. Mostraram a dimensão da lama ao nível do chão, registraram a precariedade das condições de busca e descreveram até o cheiro numa área onde havia corpos enterrados.

Na cobertura que acompanhei, as imagens mais impressionantes da avalanche e de algumas operações de resgate continuaram vindo de outras fontes. Então, a Globo deveria ter mandado Felipe e Lucas ao Nepal?

Continuo sem uma resposta simples. A cobertura produziu coisas que provavelmente não teríamos sem a presença deles. Também mostrou como é difícil chegar perto de uma catástrofe que já foi filmada por dezenas de câmeras antes mesmo de o correspondente embarcar.

A tecnologia tornou abundantes as imagens. O que continua raro é reportagem.

Se já vimos o que aconteceu antes de o jornalista chegar, a pergunta passa a ser outra: o que sua presença pode nos fazer compreender que ainda não sabemos?

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Paulo Lyra é Jornalista, trabalhou no Brasil e nos Estados Unidos cobrindo temas de saúde, ciência e meio ambiente, com passagem por veículos de imprensa, ONGs e pela Organização Mundial da Saúde.