Sexta-feira, 4 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

A cilada do “vestir a camisa” na imprensa de Jundiaí

Antiga sede do JJ. (Foto: Autor do texto – Marco Antônio Sapia)

Há quase dez anos dei entrada em uma ação trabalhista contra o Jornal de Jundiaí (JJ), veículo onde atuei por cerca de 30 anos como repórter, chefe de reportagem, coordenador de rádio e editor-chefe. Hoje, prestes a completar 60 anos e enfrentando graves limitações de saúde, percebo que fui vítima da mesma armadilha que engoliu gerações de jornalistas no interior paulista: a cooptação pela cultura do “vestir a camisa”. Ex-colegas do Jornal da Cidade (JC), também procuraram a Justiça do Trabalho e aguardam uma solução há 21 anos. Eles também caíram na mesma cilada.

Nas redações de cidades de médio porte, o mantra do engajamento irrestrito raramente vinha do topo da hierarquia. Ele nascia do companheirismo, do ambiente pulsante, do fascínio do papel impresso rodando na máquina, do cheiro da tinta. Contudo, patrões perceberam essa devoção à notícia e a manipularam em benefício próprio. O percurso que atravessei — culminando na pejotização imposta sob o pretexto de “ajudar a empresa” e ao ser obrigado a assumir a função de editor-chefe sem aumento financeiro — reflete o modelo de flexibilização precarizada que se alastrou pelo mercado de comunicação brasileiro nas últimas décadas.

Quando a crise financeira do modelo tradicional de imprensa se aprofundou, a conta foi sistematicamente transferida para os funcionários. O cotidiano converteu-se em um cenário de humilhação profissional: atrasos salariais recorrentes que atingiram de PJs a CLTs, não pagamento do 13º salário e a convivência diária com colegas em desespero nos corredores. Enquanto a gestão tentava coibir o contato dos profissionais com o Sindicato e exigia metas como se a normalidade vigorasse, os donos mantinham – e mantêm – o padrão de vida e o prestígio social inabalados, amparados pela influência que o controle de um veículo de imprensa confere no interior.

A ruína desse modelo de negócios não é apenas conceitual. Ela é física e visível. A antiga sede do jornal, no centro de Jundiaí, é hoje um prédio delapidado, reduzido a um esqueleto de concreto e tijolos. A ironia perversa vivida por dezenas de ex-funcionários do JJ e JC é que os imóveis indicados à Justiça do Trabalho para quitação das dívidas mofam em leilões sem interessados, vítimas de avaliações periciais que precisam ser refeitas.

Cerca de 100 ex-funcionários movem ações contra os dois veículos. Eles se reuniram com vereadores da cidade no dia 18 de agosto, pedindo apoio à Câmara Municipal para as ações trabalhistas que tramitam há 10 e 21 anos respectivamente. Todos relataram as dificuldades que vêm enfrentando diante da demora da Justiça do Trabalho. Nos dois casos existem imóveis que poderiam ser vendidos ou leiloados para o pagamento das dívidas.

No Legislativo foram informados que tramita pelas comissões internas projeto que proíbe o Poder Público de contratar empresas com dívidas trabalhistas, tributárias ou civis. O autor do projeto lembrou que o grupo sofre com a injustiça enquanto os empresários vivem de forma ‘nababesca’. Um representante do Sindicato dos Jornalistas de Campinas também participou do encontro. De acordo com ele, as ações serão analisadas pelo departamento jurídico da entidade. Além disso, o sindicato tentará marcar reunião com os desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-15). Jornalistas como Heródoto Barbeiro, Fabio Perez e Carlos Motta apoiam os colegas. Os dois últimos, aliás, são de Jundiaí.

Enquanto as instâncias trabalhistas pecam pela ineficácia em converter ativos em soluções céleres, a conta da transição do mercado é paga por quem ajudou a escrever a história de Jundiaí. Profissionais veteranos chegam à terceira idade enfrentando doenças crônicas, intervenções cirúrgicas, sequelas neurológicas e custos médicos altíssimos. A dor física e o adiamento das necessidades básicas da família tornam-se o cotidiano de quem dedicou a vida a informar a sociedade.

A decadência da imprensa de Jundiaí não pode ser analisada apenas pela métrica da transformação digital ou da retração publicitária. Trata-se também de um colapso ético e trabalhista. Por décadas, o prestígio e o faturamento do setor alimentaram os empresários da comunicação. Encerrado o ciclo, a ruína do patrimônio e o adoecimento dos profissionais foram o único saldo deixado para quem realmente construiu o jornalismo local.

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Marco Antônio Sapia foi editor-chefe do Jornal de Jundiaí (JJ).