
(Foto: cottonbro studio/Pexels)
Quando a gente fala sobre o futuro da profissão do jornalista, quase sempre a conversa vai para IA, redes sociais, assinatura, Google, audiência, confiança e novos formatos. Tudo isso importa, mas tem uma pergunta anterior que, na minha visão, deveria ser a base para qualquer discussão: quem faz jornalismo no Brasil consegue viver do próprio trabalho?
A Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de Trabalho dos Jornalistas no Brasil ajuda a colocar números e cores em aflições que precisam de argumentos. O levantamento ouviu 896 profissionais ligados a reportagem, edição, assessoria, comunicação corporativa, produção editorial e criação de conteúdo com base em competências jornalísticas.
É importante reforçar que esta pesquisa não tem caráter científico, probabilístico ou censitário. A participação foi voluntária, aberta e baseada em autodeclaração. Isso significa que os dados refletem o perfil das pessoas que tiveram acesso ao formulário e decidiram respondê-lo. Portanto, os resultados não devem ser interpretados como uma medição definitiva da profissão no Brasil, mas como um termômetro relevante sobre percepções, condições e padrões observados entre os respondentes.
Os números mostram um mercado diverso, qualificado e em transformação, mas também marcado por sinais consistentes de pressão econômica, multiplicidade de vínculos, sobrecarga de trabalho e incerteza sobre o futuro. A pesquisa reforça que o jornalismo brasileiro já não pode ser compreendido apenas a partir das redações tradicionais.
Embora elas ainda tenham peso relevante, há presença expressiva de profissionais em assessorias de imprensa, agências de comunicação, comunicação corporativa, marketing de conteúdo, branded content, setor público, consultoria, produção audiovisual, podcasts, newsletters, redes sociais e outras atividades que utilizam competências jornalísticas.
Na base principal da pesquisa, formada por 896 respondentes, a redação de veículo jornalístico aparece como a principal fonte de renda de 323 profissionais, ou 36% do total. Mas outro dado é ainda mais revelador: quase dois terços dos respondentes têm sua principal renda fora das redações tradicionais.
Esse deslocamento aparece com força em áreas como agência de comunicação ou assessoria de imprensa, citada por 252 respondentes, 28,1% da base, e comunicação corporativa ou empresarial, com 103 respostas, 11,5%. Somadas, essas duas frentes reúnem 355 profissionais, o equivalente a 39,6% da pesquisa, mais do que o grupo que atua em redações.
A distribuição dos vínculos de trabalho é um dado central: 45% dos respondentes (403 pessoas) possuem contrato CLT e 41,1% (368 pessoas) atuam como PJ ou empresa própria. O restante da base é composto por servidores públicos, autônomos sem CNPJ, freelancers, bolsistas e profissionais temporários ou sem renda no momento.
Isso mostra que a discussão sobre condições de trabalho no jornalismo passa, necessariamente, pela comparação entre emprego formal e prestação de serviço.
A remuneração está concentrada nas faixas intermediárias e baixas. 30,1% dos respondentes ganham até R$ 4.000. Quando o corte sobe para até R$ 5.000, o percentual chega a 41,1%. Mais da metade dos respondentes com renda informada, 56,1%, está em faixas de até R$ 6.500. Na outra ponta, 20,6% declararam remuneração ou faturamento acima de R$ 10.000, e 8,6% acima de R$ 15.000.
A percepção de remuneração inadequada é majoritária. Entre os respondentes da base principal, 434 disseram considerar sua remuneração abaixo do adequado, e 263 afirmaram que ela está muito abaixo do adequado. Somadas, essas duas respostas representam 77,8% da base. Apenas 17,9% consideram sua remuneração adequada.
Esse dado é importante porque não mede apenas renda absoluta, mas a avaliação dos profissionais em relação à própria experiência, responsabilidades e realidade de mercado.
A renda complementar aparece como parte importante da sustentabilidade financeira da categoria. Ao todo, 362 respondentes declararam ter alguma renda além da principal, o equivalente a 40,4% da base. Entre eles, 250 afirmaram que, sem essa renda complementar, a renda principal seria apenas parcialmente suficiente para manter o padrão de vida atual.
Entre os PJs, há uma tensão entre autonomia e dependência: 57,1% (210 de 368) dependem de um único cliente e 320 recebem valor fixo mensal, aproximando o modelo de um vínculo formal, mas sem suas garantias.
Quanto aos CLTs, a jornada é o foco: 41,2% (166 de 403) excedem as horas contratuais e 37,7% (152) trabalham 9 horas ou mais diariamente, indicando que a formalização não impede o excesso de trabalho.
A base é qualificada e experiente, com predominância de 6 a 10 anos de carreira e 94,1% (843) graduados em Jornalismo. Sobre a formação, 405 possuem pós-graduação ou MBA, 387 ensino superior completo, 61 mestrado, 11 doutorado e 1 pós-doutorado.
A pesquisa, portanto, mostra uma categoria qualificada, mas majoritariamente insatisfeita com sua remuneração.
Os dados também apontam desigualdades importantes. Nos cruzamentos de remuneração, 23% dos respondentes brancos com renda informada aparecem em faixas acima de R$ 10.000. Entre pardos, esse percentual é de 15,7%. Entre pretos, é de 7,7%. Embora esses resultados devam ser lidos com cautela, eles indicam diferenças relevantes no acesso às faixas mais altas de remuneração.
A permanência na área também está longe de ser garantida. Quando perguntados se pretendem continuar trabalhando no campo jornalístico nos próximos dois anos, 512 respondentes disseram que sim, o equivalente a 57,1% da base principal. Outros 265 responderam que não sabem, e 94 afirmaram que não pretendem continuar.
A intenção de ficar está fortemente associada à percepção de remuneração: entre quem considera a remuneração adequada, 87,5% pretendem continuar; entre quem avalia a remuneração como muito abaixo do adequado, esse percentual cai para 39,9%.
Em síntese, a pesquisa mostra um mercado em transformação, mas também em tensão. O jornalismo brasileiro reúne profissionais qualificados, experientes e distribuídos por diferentes áreas de atuação. Ao mesmo tempo, os dados indicam insatisfação ampla com a remuneração, dependência relevante de renda complementar, presença expressiva de vínculos PJ, sobrecarga entre CLTs e incerteza sobre a permanência na profissão.
Os resultados reforçam que a discussão sobre o futuro do jornalismo não pode se limitar à tecnologia, aos modelos de negócio, à audiência ou à relação com plataformas.
O retrato completo está nos detalhes. Para entender os recortes por vínculo, região, cargo, área de atuação e condições de trabalho, baixe o e-book completo da Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de Trabalho dos Jornalistas no Brasil.
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Flávio Moreira é jornalista e consultor de negócios para publishers, com 18 anos de experiência em mídia, conteúdo e transformação digital. Top Voice no LinkedIn, escreve sobre modelos de negócio, inovação e futuro do jornalismo.
