
(Foto: Geri Tech/Pexels)
Mais de 100 veículos, organizações e profissionais brasileiros já aderiram ao Dia Mundial do Jornalismo, celebrado em 28 de setembro, numa mobilização criada para aproximar a sociedade do trabalho realizado nas redações. Neste ano, o Instituto Palavra Aberta e o EducaMídia participam da campanha, num momento marcado pelo avanço de regimes autoritários, pela perda de espaço da liberdade de expressão e por ataques contra jornalistas, em especial com violência repulsiva dirigida às mulheres.
Talvez nunca tenha sido tão importante conversar sobre jornalismo. Os dados nos ajudam a explicar essa urgência. O Democracy Report 2026, produzido pelo V-Dem Institute, mostra um mundo menos democrático. Hoje, 74% da população mundial (cerca de 6 bilhões de pessoas) vivem em autocracias. Apenas 26% estão em democracias e somente 7%, cerca de 600 milhões de pessoas, vivem em países classificados pelo instituto como democracias liberais.
O movimento de declínio ainda está em curso. O V-Dem identifica 44 países em processo de autocratização. Eles reúnem 41% da população mundial e 39% da economia global. Desde 2000, 85 países, quase metade dos países do mundo, enfrentaram em algum momento esse declínio. Três em cada quatro terminaram 2025 em situação democrática pior do que estavam antes.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt chamavam atenção para esse processo em Como as Democracias Morrem, de 2018. Os professores de Harvard estudaram experiências em diferentes países para mostrar como as democracias contemporâneas nem sempre são enterradas por ações com tanques nas ruas, golpes militares ou o fechamento repentino das instituições.
O processo pode ocorrer por dentro do próprio sistema democrático, em que instituições são enfraquecidas aos poucos. Lentamente, normas de convivência política começam a ser abandonadas, adversários são tachados como inimigos e deixam de ser reconhecidos como participantes legítimos do jogo democrático.
A manipulação informativa e a desinformação, com uso de tecnologia cada vez mais acessível, sustentam atitudes que se prestam apenas a destruir qualquer iniciativa antagônica. Instituições criadas para limitar o poder passam a ser usadas como armas contra os adversários.
O ciclo hostil se fecha com a imprensa sob constante intimidação e pressão. Levitsky e Ziblatt chamam atenção para duas normas informais fundamentais em um sistema democrático, que tem o diálogo como força motriz: a tolerância mútua entre adversários políticos e a contenção no uso do poder institucional. Uma democracia depende das leis, mas também precisa de pessoas dispostas a respeitar seus limites e o espírito dessas regras.
Em Autocracia S.A., publicado em 2024, a historiadora e jornalista Anne Applebaum mostra como o autoritarismo contemporâneo deixou de funcionar apenas em torno da figura de um ditador. Regimes autoritários passaram a formar redes políticas, econômicas e tecnológicas capazes de atravessar fronteiras.
Applebaum descreve estruturas financeiras, tecnologias de vigilância e máquinas profissionais de propaganda trabalhando em diferentes países. Esses governos não precisam ter a mesma ideologia, apenas compartilhar interesses, métodos e uma busca comum por poder, riqueza e impunidade.
Propaganda política sem compromisso com a verdade e a desinformação são utilizadas para desacreditar instituições democráticas, adversários e fontes independentes de informação. A repetição de determinadas narrativas pode alimentar a percepção de que nenhuma informação merece confiança. Um caminho evidenciado por outras pesquisas.
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que a confiança nas notícias caiu para 37% nos 48 mercados pesquisados, o menor índice desde o início da série, em 2015. Ao mesmo tempo, 62% dos entrevistados dizem estar preocupados com a circulação de informações falsas ou enganosas na internet. Cria-se, então, um ambiente em que ninguém acredita em ninguém e fatos comprovados e mentiras deliberadas passam a disputar o mesmo espaço. Fica cada vez mais difícil saber onde procurar informação confiável.
Um filme recente, Anniversary: Mudança Radical, dirigido pelo polonês Jan Komasa, expõe tudo isso de forma peculiar. A história acompanha uma família enquanto um movimento político chamado “A Mudança” cresce nos Estados Unidos e começa a interferir nas relações entre as pessoas. O autoritarismo entra na sala de jantar. Fundamentalismo, interesses pessoais, ambições, ressentimentos familiares e política começam a se misturar. Ideias antes vistas como extremas encontram espaço no cotidiano e passam a parecer aceitáveis.
Guardadas as diferenças artísticas e históricas, Anniversary lembra O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman. Ambientado na Alemanha de 1923, anos antes de Hitler chegar ao poder, o filme mostra que o nazismo ainda não controlava o Estado, mas seus sinais já estavam enraizados na sociedade.
Os dados do V-Dem, as análises de Levitsky e Ziblatt e o alerta de Anne Applebaum apontam para um problema real. A democracia pode perder espaço aos poucos, inclusive por mecanismos legais e institucionais, enquanto a sociedade se acostuma com comportamentos antes considerados incompatíveis com seus valores.
Nesse ambiente, ataques contra a imprensa merecem atenção. Atingem empresas e iniciativas profissionais, reduzindo o espaço disponível para investigar o poder, confrontar versões, revelar interesses e oferecer ao cidadão informações necessárias para formar suas próprias opiniões.
Para as mulheres jornalistas, existe uma camada adicional de violência. Elas enfrentam ataques ao trabalho, mas também agressões destinadas a atingi-las por serem mulheres, numa tentativa de apagar a participação de pelo menos metade da população, em brutal retrocesso.
Segundo a UNESCO, três em cada quatro mulheres jornalistas dizem ter sofrido violência online no exercício da profissão. Aqui, a violência alcança um objetivo maior do que atingir uma profissional. Ela reduz a quantidade e a diversidade de informação disponível para a sociedade.
A verdade é que a liberdade de imprensa nunca foi apenas uma questão dos jornalistas e veículos. É um direito do cidadão, componente fundamental da cidadania.
No entanto, há ainda outro desafio. Nunca tivemos acesso a tamanha quantidade de informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para saber sua origem e veracidade. Uma reportagem produzida durante semanas aparece na mesma tela de um vídeo sem fonte. Uma investigação jornalística disputa alguns segundos de atenção com uma opinião apresentada como fato, com uma imagem criada por inteligência artificial ou com uma mentira construída para parecer notícia.
Para quem recebe tudo pelo celular, essas fronteiras ficaram menos visíveis. É nesse ponto que o jornalismo e a educação midiática se encontram. E a entrada do Instituto Palavra Aberta e do EducaMídia no Dia Mundial do Jornalismo, organizado pelo Fórum Mundial de Editores (World Editors Forum), reforça essa conexão.
Uma sociedade democrática precisa mais do que apenas de informação disponível. Os cidadãos precisam ter condições para compreender como essa informação foi produzida, reconhecer suas fontes, analisar interesses, distinguir fatos de opiniões e tomar suas próprias decisões.
A educação midiática não ensina em quem acreditar. Ajuda cada pessoa a fazer perguntas melhores para formar a sua própria opinião. Quem publicou? Qual é a fonte? Existem evidências? Outros veículos confirmaram? A imagem é verdadeira? Existe contexto? O conteúdo procura informar, vender, convencer ou provocar?
Essas perguntas fazem parte do exercício cotidiano da cidadania. E isso também exige que o próprio jornalismo abra mais suas portas. É necessário contar, de forma simples, que profissionais procuram fontes, consultam documentos, confrontam versões, verificam informações, analisam dados, contextualizam acontecimentos e submetem o material a processos de edição e revisão.
Não significa oferecer um cheque em branco ao jornalismo. E aqui, novamente, eis o valor da educação midiática. Uma sociedade com maior letramento possui melhores condições para cobrar qualidade, independência, diversidade, transparência e responsabilidade da imprensa.
Os relatórios do mais recente PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), porém, revelam que caminhamos no sentido contrário. Em quase todo o mundo caiu a compreensão de textos pelos estudantes, o que nos afasta do necessário discernimento em relação às notícias verdadeiras e falsas.
Existe ainda uma questão difícil, muitas vezes esquecida quando falamos sobre liberdade: o jornalismo precisa sobreviver economicamente. Produzir informação custa dinheiro. Manter repórteres, fotógrafos, editores, correspondentes, profissionais de dados e equipes de tecnologia exige recursos. Investigações longas precisam de tempo.
Quando uma comunidade perde seu jornal, seu site ou sua emissora local, perde mais do que uma empresa. Perde profissionais acompanhando a prefeitura, a Câmara Municipal, as escolas, os hospitais, a segurança, a cultura, a economia e os problemas daquela população.
No dia 28 de setembro, temos bons motivos para celebrar o jornalismo, mas outros bem maiores para compreender por que precisamos dele. Os sinais estão diante de nós, e talvez uma das perguntas mais importantes do nosso tempo esteja justamente aí: conseguimos reconhecê-los, enfrentá-los e superá-los enquanto ainda estão surgindo?
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Patricia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta e presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.
