Sexta-feira, 9 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1409

A agonia terminal da cobertura tradicional de eleições

(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

A votação do dia 4 de outubro mostrou a agonia terminal dos modelos convencionais de cobertura jornalística de eleições. As plataformas digitais deixaram de ser ferramentas acessórias para se transformarem no novo paradigma, provocando grande perplexidade entre os grandes conglomerados midiáticos do país, em especial as redes de televisão, que detinham o virtual monopólio da audiência nos dois últimos dias de campanha eleitoral.

Também a propaganda eleitoral gratuita, organizada pelo Tribunal Superior Eleitoral, mostrou-se pateticamente obsoleta, quase caricatural. É toda uma herança pré-internet que perdeu significado político com o surgimento de novos hábitos formatados pela multiplicação de espaços digitais onde as pessoas podem dizer o que bem entendem.

A imprensa convencional está diante do desafio de reinventar políticas editoriais para a cobertura de eleições porque, depois de perder o monopólio da imediatidade para a rádio e a TV, deixa agora de ser também o espaço privilegiado para a interpretação dos resultados. A multiplicação de análises políticas e econômicas em blogs pessoais oferece um menu extremamente diversificado de opções a quem tenta entender o que está acontecendo, como é o caso dos projetos ICL (Instituto Conhecer Liberta) e do Poder360.

Nada mais icônico da agonia dos métodos tradicionais do que a suspensão do debate entre candidatos presidenciais na TV Globo. O modelo já estava velho e foi Lula quem deu o tiro de misericórdia num modelo criado em 1989 pela TV Bandeirantes ao trocar o badalado debate organizado pela Globo por uma entrevista ao podcast alternativo Flow.  Ao longo de 37 anos, o debate entre candidatos presidenciais saiu de um formato minimamente estruturado para chegar a uma organização altamente complexa.

A espontaneidade, desorganização e informalidade das primeiras edições acabaram evoluindo para uma regulamentação minuciosa que disciplinou os candidatos, mas tornou o programa altamente enfadonho. A quantidade de regras, criadas principalmente pela Globo, para evitar agressões e palavrões, somou-se aos requintes cenográficos que acabaram exaurindo todo o significado político e a pretensão de que o debate ajudaria o eleitor indeciso a escolher seu candidato.

Os novos feudos políticos

O que vemos hoje é uma imprensa desorientada em relação ao que fazer diante de uma realidade político-eleitoral radicalmente diferente da que moldou as estratégias editoriais das mídias convencionais. Antes da internet, a imprensa e a TV lidavam com grandes audiências, às quais se dirigiam com mensagens unificadas. Hoje, os candidatos precisam focar em micro públicos, formados em plataformas digitais por seguidores de políticos e partidos (1). A segmentação das audiências na internet é a grande marca de uma nova realidade eleitoral, já esboçada em 2022, e que hoje se tornou um fato inquestionável. Um eleitorado cada vez mais segmentado e diverso torna compulsória a inversão das estratégias editoriais, para priorizar os micro públicos.

Antes o convencimento era o principal objetivo da propaganda política. Hoje, a fidelização ocupa o lugar de honra nas estratégias dos candidatos. O que antes era aberto agora se fecha cada vez mais, alimentando a radicalização política (2), um processo que é acelerado e ampliado pela ação de algoritmos especializados. O fechamento e a segmentação resultam da avalanche informativa na internet. As pessoas ficaram confusas e desorientadas diante da diversidade de informações e tendem a buscar refúgio e tranquilidade em grupos com posições semelhantes.

Sem a rapidez, agilidade e diversificação das plataformas digitais, as mídias convencionais podem encontrar no detalhamento das agendas eleitorais o nicho para se inserir na nova realidade da política cibernética. Nos Estados Unidos, alguns grandes jornais regionais começam a adotar a técnica da ‘conversa na mesa da cozinha’ (Kitchen Table Conversation) para tentar vencer o ceticismo das pessoas em relação à comunicação formal do governo e dos partidos. A conversa na cozinha foca em problemas socioeconômicos pela ótica das famílias em vez da dos economistas ou funcionários públicos.

Além da necessidade de reinventar estratégias editoriais para cobrir eleições, os grandes conglomerados midiáticos brasileiros estão diante do desafio criado pela possibilidade de um novo governo federal de extrema direita no país. As relações da família Bolsonaro com os grupos Globo, Bandeirantes, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo mostram um histórico de divergências e até confrontações. O relacionamento pode facilmente se complicar face à consolidação de novos comportamentos partidários, em que a previsibilidade da centro-direita e da esquerda está sendo rapidamente substituída por um tipo de niilismo político da extrema direita marcado pela imprevisibilidade, negacionismo e arrogância.

  1. 54% dos brasileiros se informam através das plataformas digitais, blogs, grupos de mensagens e sites de vídeos curtos, segundo o instituto DataSenado.  O projeto CETIC, ligado ao Comitê Gestor da Internet, faz uma estimativa de 72% de acessos digitais em busca de notícias.
  2. Cass Sunstein, professor de direito na Universidade Harvard e ex-assessor do ex-presidente Barack Obama, mostra em seu livro Going to Extremes (Polarizando) como grupos fechados tendem à radicalização de seus comportamentos e opiniões.