
(Foto: Matheus Bertelli/Pexels)
A ausência do debate da Globo no primeiro turno das eleições foi um acontecimento que aponta para uma — nem tão nova — perda de poder da televisão aliada aos velhos vícios do jornalismo da mídia tradicional. Não deve ser visto como um fato isolado, mas como algo que irrompe em meio a outros acontecimentos recentes envolvendo jornalismo e eleições.
É difícil fazer uma história do presente, mas não devemos deixar passar a oportunidade de refletir sobre algumas mudanças nos formatos e espaços discursivos do jornalismo que deram as caras nesses tempos. O ponto de vista que nos guia é o do reconhecimento da retomada autoritária que mostrou sua face em 8 de janeiro de 2023 e é representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro, com todos os riscos que contém: das perdas sociais à civilidade. Não estamos em uma eleição normal.
A ascensão dessas forças políticas obscuras coloca em xeque os discursos de isenção, imparcialidade e equilíbrio que sustentaram as práticas jornalísticas nas últimas décadas. O tema da imparcialidade emergiu nas manifestações de 2013 e pode ser recuperado em uma entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé ao Roda Viva, no calor do acontecimento. Uma seleção de respeitáveis jornalistas tentava entender a mudança, em um momento em que a chamada imprensa tradicional tinha perdido a pauta, assombrada diante da tomada das ruas e da dificuldade em entender ou explicar o fenômeno. A proposta da multiparcialidade apareceu como sugestão dos entrevistados, baseada na relação mais transparente do jornalismo com seu público: reconhecer as causas que defende e fazer uma cobertura plural, com espaço para o contraditório, balizada, de alguma maneira, pelos valores éticos e discursivos de cada publicação.
De lá para cá, assistimos assombrados à ascensão da extrema-direita. Em 2022, a memória próxima da tragédia humanitária da covid-19 no Brasil gerou uma cobertura mais crítica que resultou na eleição de Lula. O que vimos no primeiro turno de 2026, entretanto, foi o jornalismo da grande mídia dançando no abismo da extrema direita, com naturalizações de fatos criminosos, falsas equivalências e especulações desinformativas.
O jornalismo independente é uma invenção das democracias capitalistas. O seu desenvolvimento histórico está ligado a um espaço de mediação do debate público. Os modelos de negócio, baseados na venda de publicidade, criaram a clássica divisão entre “Igreja e Estado” — metáfora que os antigos editorialistas utilizavam para deixar claro que os interesses entre a área comercial e as redações eram distintos e deveriam ser considerados independentes. Nos anos 1980, a Folha de S.Paulo criou o slogan “de rabo preso com o leitor” para reforçar sua independência editorial, um capital de credibilidade.
Os jornalistas são profissionais que operam na tensão entre seus valores pessoais, a vocação ética para o exercício da profissão e a instituição a que servem. Cláudio Abramo, um dos jornalistas mais importantes da tradição impressa brasileira no século passado, tinha formação de esquerda e já alertava que a liberdade de imprensa é a liberdade do dono. Mas cabe aos jornalistas um grau de ousadia, evitando ser “mais realistas que o rei”.
Numa época em que os jornais tinham mais poder e podiam construir ou destruir reputações, as redações eram espaços dialógicos, de relações de força entre os jornalistas — equilibristas entre a missão de trazer à luz aquilo que muitos não queriam e a manutenção do emprego. “Não mexam com meus comunistas” é uma frase atribuída a Roberto Marinho para defender os profissionais da casa durante a ditadura (ao mesmo tempo em que usava a força dos seus veículos para apoiar o regime). O documentário recente de Ugo Giorgetti, Vínculos de Liberdade, sobre Alberto Dines, criador deste Observatório da Imprensa, é ilustrativo dessas questões. Para além da relação “Igreja e Estado”, o jornalismo sempre foi espaço para a política e seus arranjos: sobre o que jogar luz, o que esconder? São questões diárias que movem os debates das redações.
Esse mundo sofreu mudanças estruturais (as redações atualmente, quando existem, são territórios de pouca sociabilidade). A profissão perdeu status e viu seu prestígio ser dividido com os influenciadores digitais. Salários e condições de trabalho pioraram, resultado da mudança nas formas de publicidade tradicional. Vieram as bets e os patrocinadores do mercado financeiro, estreitando as relações entre “Igreja e Estado”. Com menos dinheiro e mais tecnologia, as equipes se reduziram, em igual medida ao prestígio e aos salários. Ao mesmo tempo, a epidemia de desinformação criou demandas de valorização das práticas de checagem e verificação.
A televisão, essa velha senhora na sala de jantar, não é mais a mesma. As telas andam pelas ruas; os fragmentos dos cortes valem mais que o contexto. Ainda assim, uma emissora como a GloboNews reproduz algum efeito de diversidade e pluralidade. Os jornalistas mais à esquerda vão até certo limite; aqueles que defendem os valores conservadores também. A régua é dada pela instituição, a tal liberdade do dono. É no espaço vazio entre o que se diz e o que se cala que os valores institucionais se revelam no curso dos acontecimentos. É possível interpretar os interesses em jogo: a escolha das palavras, os silêncios, os gestos, os olhares, a tensão entre o que se diz e o que se mostra. Muito se fala para pouco dizer; cada dia tem seu mantra simplificador. Como a linguagem é sujeita ao equívoco, ao deslizamento dos sentidos, a aderência e a normalização da candidatura da extrema-direita vão se revelando — de maneira mais sutil em algum momento, com tentativas de equilíbrio em outros.
O centro simbólico desse ponto cego foram as discussões que sucederam à ideia do púlpito vazio por ocasião do debate presidencial. Como se sabe, Lula decidiu não participar e obteve na Justiça o direito de retirada de um púlpito vazio com seu nome, diante do qual os outros candidatos poderiam fazer suas perguntas.
O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, lembrou que, quando o candidato Romeu Zema conquistou seu direito de participar do debate via decisão do ministro Kássio Nunes, a situação foi tida como normal. Bastou outro ministro, Gilmar Mendes, considerar que Renan Santos também devia participar — acontecimento sucedido pela desistência de Flávio Bolsonaro —, para o tema do noticiário da GloboNews às vésperas da eleição se concentrar na classificação dos atos do Supremo como censura e na lamentação da falta de espaço para os candidatos apresentarem seus programas de governo. Como se o debate servisse a esse fim.
Houve, então, um alinhamento direto entre o discurso da GloboNews — seguido por outros veículos de mídia e entidades representativas do jornalismo — e o da extrema direita. Celso Rocha de Barros, comentarista do Foro de Teresina, foi cirúrgico em seu comentário, sem citar o canal. Acusar o STF de censura é, no mínimo, demonstrar incompetência na leitura política, seja porque os movimentos judiciais seguiram as regras constitucionais, seja porque a eleição não se dá em um cenário de normalidade, diante da interferência externa e dos riscos à democracia. Entre a burrice e a falta de ética, melhor acreditar na primeira.
Retomando a ideia de Cláudio Abramo sobre a liberdade do meio ser a liberdade do dono, nos dias que antecederam o segundo turno, o fundador da revista piauí, João Moreira Salles, escreveu um artigo que tem sua importância histórica, “O que esses brasileiros sabem”, sobre a adesão da elite econômica (da qual faz parte) ao projeto de Flávio Bolsonaro. Entre o ajuste fiscal e a democracia, a opção é pelo primeiro. Os brasileiros bem-nascidos não podem justificar ignorância sobre quem é Flávio e de onde ele vem, sendo ele recebido em jantares restritos pela elite econômica do país.
“Pouco provável que os frequentadores dos jantares saibam do projeto de transformar as milícias em negócio legítimo. Imagino também que não conheçam Márcio Canella, Douglas Ruas, Capitão Nelson e Peixe, embora, por dever de cidadania, talvez tivessem que se informar sobre o círculo próximo da pessoa com quem se sentam à mesa. Sobre Cláudio Castro, é provável que saibam um pouco mais. E sobre Fabrício Queiroz não podem ter dúvidas. Sabem de quem se trata”, escreve João Moreira Salles.
É possível ler o artigo de João Moreira Salles também por sua posição de criador da revista piauí, uma manifestação da voz do dono de um veículo que não tem editoriais. Jantares do tipo podem também ter reunido os donos da grande imprensa brasileira e estes não podem alegar desconhecimento de causa quando a matéria-prima de seu negócio é a informação. A crise política revela também a necessidade do jornalismo como espaço de mediação, informação e qualificação do debate. A existência da piauí é algo que faz bem ao jornalismo brasileiro.
Um outro importante espaço informativo foi ocupado pelos atores do Porta dos Fundos, um espaço criativo e crítico não possível na engrenagem da grande mídia. Em meio ao humor, os modelos jornalísticos inovadores se fazem presentes, como no extinto GregNews, no Calma Urgente ou em Aquele Campeonato, apresentado durante a Copa do Mundo. A novidade das eleições foi o canal Revelando. Os vídeos apresentados por Fábio Porchat e Camila Pitanga tiveram respaldo jornalístico e contribuíram para organizar o que estava disperso. O primeiro demonstrando a ligação de Flávio Bolsonaro com o esquema de Daniel Vorcaro, a partir da Igreja da Lagoinha em Belo Horizonte. O segundo explorou as relações de Flávio Bolsonaro com as milícias no Rio de Janeiro e o fato de ter defendido como advogado, já na condição de senador da República, um policial que matou uma criança de cinco anos. Atores conduzindo a apresentação, mas um trabalho jornalístico de peso no levantamento de informações e na estrutura narrativa, sob a coordenação de Bruno Torturra e Alessandra Ourofino.
Bruno Torturra, o mesmo jornalista que estava no centro do Roda Viva em 2013, veio às redes falar sobre comentários enviados por jornalistas com elogios aos vídeos do Revelando e seu esforço em contextualizar informações fragmentadas. Recebeu também comentários críticos por não tratar, em equilíbrio, das denúncias envolvendo o PT da Bahia e Daniel Vorcaro, ou mesmo de não fazer menção a Lulinha (que, como bem lembrou, não é candidato a nada). “Tem um dogmatismo formalista no jornalismo industrial que acha que é necessário para você ser um jornalista profissional que você busque um equilíbrio, mesmo quando o equilíbrio não existe. Isso não é viés, é correção de pesos e medidas”.
Outro episódio envolvendo a Globo também é revelador da situação de controle, pesos e medidas que estão em jogo. A jornalista Maria Cristina Fernandes relatou um movimento interno da Igreja Católica dando conta da mobilização de setores evangélicos para questionar ou retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora — mais uma especulação entre tantas lançadas diariamente pelos comentaristas. Ela não citou Flávio Bolsonaro. A Globo se desculpou por um erro que não cometeu na edição da meia-noite; aparentemente, Maria Cristina (profissional respeitada e séria) sumiu do noticiário e sofreu toda sorte de agressões das hordas digitais bolsonaristas.
O humorista e entrevistador Antônio Tabet escreveu em suas redes: “a família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora”. O ministro André Mendonça determinou que Tabet removesse a publicação e muitas outras sobre o tema (aí, sim, num arroubo de censura) e depois capitulou diante da iminência de sua decisão ser revogada. Fina ironia: Tabet não citou o nome de Flávio Bolsonaro, mas a carapuça serviu a quem de direito.
A não realização do debate da Globo alternou, entre os comentaristas da casa, dois argumentos centrais: a censura ao STF e o lamento pela falta de espaço para o debate das propostas. Mas, desde que a cobertura da eleição começou, qual foi o espaço dado nos programas da emissora para o debate de propostas de governo? Na maior parte do tempo, discutiam estratégias de marketing das campanhas e especulações de Brasília (não que esses aspectos não façam parte da cobertura, mas eles se tornaram centrais).
Enquanto acompanhava a cobertura do primeiro turno, lia o comovente livro Filho, de Thallys Braga, jovem repórter da revista piauí. Thallys é um representante da mobilidade social dos últimos anos. O acesso à universidade pública lhe permitiu fazer o curso de jornalismo e fugir de um modelo de vida a que estava determinado. Um relato que passa pelas religiões evangélicas, pela homofobia, pela vida dos pobres brasileiros. O jovem jornalista perdeu o pai para o crime e as drogas; a mãe, empregada doméstica, morreu de ataque cardíaco aos 40 anos. Fico com um dos trechos do livro:
“Quando soube que a avó de um amigo tinha todos os dentes aos oitenta anos, pensei que é possível saber a posição que uma pessoa ocupa na sociedade pela boca. A família de meu amigo diz com orgulho: “A vovó nunca perdeu um dente”, como se a dentição dela fosse resultado de apenas um cuidado, um esforço pessoal. Jamais em toda infância e adolescência conheci uma pessoa mais velha com dentes na boca. Meus avós usam dentaduras que os candidatos políticos, sobretudo os de direita, oferecem como caridade aos pobres para atrair votos.”
O quão distante o jornalismo andou desse mundo na cobertura do primeiro turno? O quanto é essa classe social que mais sentirá o impacto de um governo de extrema-direita, com seus assassinatos de civis, seu boicote à educação pública? Talvez isso ajude a entender a opção de Lula em ser entrevistado por Igor Coelho no seu Flow Podcast, ao invés de ocupar o púlpito vazio.
***
Pedro Varoni é jornalista e professor do Departamento de Letras da UFSCar. Autor de A voz que canta na Voz que Fala: poética e política na trajetória de Gilberto Gil. Coordena o grupo de pesquisas Tessituras.
