Sábado, 10 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1409

Petróleo, royalties e omissão

Com todo o respeito que merecem as instituições de imprensa e representantes de estados produtores de petróleo, este silêncio da não associação da questão dos royalties ao vazamento da Chevron chega a ser criminoso por omissão (melhor que tendencioso). A desinformação é tão arraigada que ninguém ainda se tocou que estamos diante do verdadeiro motivo dos royalties do petróleo serem atribuídos somente aos estados produtores: o risco do dano ambiental. Repita-se: o risco; não é preciso o efetivo dano. Se este efetivo dano causado pela Chevron fosse de amplitude similar ao do Golfo do México, quem teria sua economia seriamente afetada (fora os danos ambientais), o Rio de Janeiro ou o Acre? Quem viria desfrutar os atrativos de Copacabana, Ipanema, Leblon, Búzios e Cabo Frio com suas areias sujas de petróleo (só os curiosos mórbidos)? Da grande rede de hotéis ao taxista, toda a cadeia produtiva do Rio de Janeiro seria atingida. E todos os estados banhados pelo Oceano Atlântico são produtores, alguns apenas ainda não têm suas reservas conhecidas. Os royalties não existem para remunerar a produção. Este é o papel do lucro. Os estados não produtores já enchem seus cofres com o ICMS cobrado no destino em prejuízo dos estados produtores, que não podem cobrar na origem (ao contrário das demais mercadorias). Os royalties existem para compensar os riscos a que estão expostos os estados produtores. Fora disso temos apenas o silêncio e a cegueira do oportunismo (Eudes Gouveia da Silva, advogado, Rio de Janeiro, RJ)

 

Matéria de capa do portal iG

No dia do assunto postado (23/11) ,o iG entrevistou o galã de telenovelas Caio Castro, que disse: “É preferível ser chamado de pegador do que de veado… Só que essa frase deselegante estava exposta para todos (inclusive para quem não queria ler). Não é hora de discutir o quanto as fofocas sobre celebridades estão tomando lugar na imprensa? (Lucas Cantino, estudante, Santos, SP)

 

Estadão não respeita assinantes de longa data

Acabo de renovar minha assinatura e, se não confiro minha fatura do cartão de crédito, não teria visto um inacreditável aumento de 40% acima dos valores acertados! Como podem as editoras de jornais e revistas serem críticas aos departamentos de atendimento ao cliente se também não se comportam nada bem? Os departamentos financeiros estão buscando atingir metas de crescimento de receita enganando seus antigos clientes? http://www.reclameaqui.com.br/2008968/jornal-estado-de-sao-paulo/reajuste-unilateral-das-parcelas-da-renovacao-de-assinatura/(Tomio Kusano, economista, Osasco, SP)

 

Manchete em quadrinhos fabrica paz no Complexo do Alemão

A primeira página da edição de 24/11 do jornal Extra informa que a “pacificação do Alemão faz um ano e reduz em 61% o número de baleados”. Erra o jornal ao usar a expressão “pacificação”, cujo radical é “paz”, na mesma frase em que fala em queda – e não erradicação – do número de vítimas de disparos de arma de fogo. Experimente ficar com 39% de visão em ambos os olhos, ou ter queimaduras em 39% do corpo. Se alguém de jaleco branco e estetoscópio pendurado no pescoço disser que você está com a saúde em dia, acredite em mim: ele não é médico, mas um político a caminho de festa à fantasia. A manipulação da informação, em plena luz do dia, mostra o quanto pode estar afetada a saúde de um veículo, quando se trata de mínimo compromisso com a realidade factual. Sintomaticamente, um leitor da manchete em quadrinhos – já contaminado pela novilíngua – comenta: “Com a UPP e o exército, o Complexo do Alemão ficou 100% melhor em todos os aspectos.” Viu só? Torturando-se a aritmética e a semântica chega-se a isso, à fabricação de uma imagem de “pacificação”, ao convencimento de que tudo “ficou 100% melhor”, de que, em última instância, 39% e 0% significam a mesma coisa. Não olhe agora, mas são editores assim que decidem o que você vai ou não vai ler, o que entra na primeira página e o que é suprimido. E todos sabemos que se não saiu no jornal, não existe. O problema é que nem sempre existe o que saiu. Já a imagem em si é prato cheio para exercício de análise semiológica: – processo conotativo que enquadra os soldados em primeiro plano e ângulo baixo, destacados do restante da cena: supremacia do poder constituído. – presença preponderante de mulheres e jovens, justamente as pessoas mais vulneráveis em situações de conflito: estado de completa paz e segurança. – céu azul e teleférico, comumente associados a estâncias turísticas: paz, paz e mais paz. Ironicamente, uma imagem diagramada imediatamente abaixo remete ao “segredo de Tereza Cristina em Fina Estampa”, como que admitindo não haver mais barreiras entre fantasia e realidade. Nota: o dia seguinte, 25/11, trouxe a realidade de volta à pauta, com o registro de confronto entre traficantes e tropas do Exército (Ricardo Goldbach, jornalista, Rio de Janeiro, RJ)

 

Crítica a um programa esportivo

Gostaria de mostrar minha indignação com a colocação da apresentadora Renata Fan, no programa Jogo Aberto de hoje (28/11), ao tratar do confronto entre torcedores do Palmeiras e a Polícia Militar. Não sou palmeirense (por sorte de nascimento), sou corintiano. Não sou favorável a esse tipo de “espetáculo” envolvendo cenas de violência, mas também não acho que a Bandeirantes deva expressar preconceito de classe ao atribuir a violência ao “preço reduzido dos ingressos (…) que possibilitam um outro público”, e que “ninguém pagaria R$50,00 para ir brigar no estádio”. A expressão foi preconceituosa, atribuiu valores de classe negativos aos “não ricos” e, ao generalizar a expressão e os valores que atribuiu, entra em confronto com o esforço coletivo que historicamente diversos setores tentam construir em vista de aprofundar os elementos que constituem a cidadania dos brasileiros. A expressão foi preconceituosa por desacreditar da possibilidade generalizada de civilidade para aqueles que não podem pagar um valor mais alto dos ingressos e apresentar, mesmo que indiretamente, uma solução: aumentar os preços e manter os “pouco civilizados” fora dos estádios. Essa tal apresentadora deveria perceber os esforços que se fazem nas cidades brasileiras no sentido da inclusão, da luta contra a valorização negativa desses não ricos, discurso que possibilitou manter setores sociais inteiros fora da vida política nacional e que, numa de suas vertentes, manteve a exclusão no próprio esporte, como no caso do racismo no futebol, são ainda um problema que persiste e causa espanto nesse tipo de programa esportivo em diversas transmissoras. Gostaria que o programa atentasse para dois itens da Declaração Universal dos Direitos Humanos: 1) “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; e 2) “toda pessoa tem direito a uma ordem social em que seus direitos e liberdades possam ser plenamente realizados”. Gostaria que essa apresentadora percebesse a função desses tais termos e não defendesse a exclusão de classe para milhares de pessoas. Não defendesse, de forma intencional ou não, que o futebol vai se livrar da violência quando o ingresso for mais caro e o tipo de gente que não pode pagar parar de frequentar o lugar do espetáculo. Esse tipo de discurso repudiável justifica muitas outras coisas: a política vai ser melhor quando os “pobres” saírem dela, dados esportes e espetáculos não são para “pobres” etc… No mínimo, a apresentadora, e tão logo a emissora que ela representa, deve um pedido de desculpas para com todos aqueles que gastam o que não podem (ou não deveriam pagar) para frequentar um estádio e que nunca se envolveram um uma briga, tumulto ou algo do gênero. Creio, tendo em vista algum senso de responsabilidade dessa emissora, que deve corrigir o discurso preconceituoso que emitiu. Acredito que em confronto ao preconceito que foi emitido, todos os brasileiros e torcedores tem direito de frequentar espetáculos esportivos pagando preços justos e acessíveis ainda que, obviamente, não tenham direito de promover violências nesses locais. O problema é que o conceito de violência é mais amplo que o contato físico e engloba, inclusive, o tipo de preconceito emitido (André Luiz Mattos, professor, cientista social e mestrando em História, São José do Rio Preto, SP)