Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Receita de juventude

A ambicionada fórmula da juventude ainda é um mistério. Enquanto ninguém dá um jeito nisso, o público adulto vem se permitindo estender o período de leitura de romances voltados a jovens. Exemplo disso está há meses nas listas de mais vendidos. Os romances do americano John Green, autor de A Culpa É das Estrelas (Intrínseca), que diz nunca ter pensado em escrever algo que não fosse para jovens, aparecem tanto nas listas juvenis quanto nas de ficção adulta.

A dupla aparição decorre do modo como as editoras nacionais publicam os livros de Green. A Intrínseca os considera próprios a todas as idades; já WMF Martins Fontes e Rocco catalogaram Quem É Você, Alasca? e Deixe a Neve Cair, respectivamente, como infantojuvenis. Mas, mais que isso, o fenômeno é sintomático de um segmento, o juvenil, que cresceu tanto nos últimos anos que mal cabe nos rótulos que o mercado tenta lhe pregar, como young adult e new adult.

“As pessoas entram na adolescência mais cedo e demoram mais a sair. A área juvenil passou de grande a imensa”, diz Vivian Wyler, diretora editorial da Rocco, casa que tem desde 2000 o selo Jovens Leitores e prepara agora um selo de new adult.

Faixas etárias

Para o mercado, o “infanto-juvenil” engloba a faixa dos oito aos 12 anos. Entra aí, por exemplo, Diário de um Banana (V&R), de Jeff Kinney. Em seguida vem o young adult (jovem adulto), para leitores de 13 a 18 anos, com obras como As Vantagens de Ser Invisível (Rocco), de Stephen Chbosky, sobre um adolescente descobrindo a vida. Essa faixa costuma atrair leitores já na faixa dos 40 anos – como mostra o sucesso do próprio A Culpa É das Estrelas, livro sobre adolescentes num grupo de apoio a vítimas de câncer que passou todo o ano de 2013 na lista dos mais vendidos no Brasil.

Em seguida vem o segmento mais controverso, o new adult (adulto novo), para leitores de 18 a 25 anos – muitos editores o veem como novo rótulo para velha fórmula. O diferencial aqui seria trazer personagens que estão entrando na faculdade e lidam com sexo e violência. Um exemplo é Belo Desastre (Verus), de Jamie McGuire, um 50 Tons recatado.

Jorge Oakim, editor da Intrínseca, prefere definir grande parte das obras para jovens e adultos como crossover (cruzamento). “Desde A Menina que Roubava Livros [de Marcus Zusak, 2007] existe essa discussão. Ele saiu nos EUA como livro jovem, o que irritou o autor. É injusto classificá-lo assim, porque tem leitores de até 70 anos”, diz.

Precursor

O professor da Unesp João Luís Ceccantini, especialista em literatura infantojuvenil, afirma que, apesar de um precursor no século 18, Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe (1749-1832), o gênero juvenil ganhou força nos anos 1950. Foi nessa época que saiu O Apanhador no Campo de Centeio (1951), de J.D. Salinger. O Brasil esperaria outros 20 anos por essa mudança – antes, passava-se dos infantis para os clássicos adultos.

A persistência do leitor adulto no que se define como literatura juvenil é pouco estudada no país. Editores creditam o novo público à ascensão da classe C, mas o fenômeno ocorre no mundo todo. A referência incontornável é Harry Potter, lançado nos anos 1990. “Surgiu com ele um leitor que se formou na literatura transmidiática, que chega aos cinemas e aos games”, diz Ceccantini. Essa percepção leva ao entendimento de que houve certa infantilização do público. “Com Harry Potter, percebeu-se esse público que tem uma leitura mais simples, algo que lá fora chamam de leitor relutante”, diz Wyler.

Ceccantini diz, no entanto, que “nunca se leu como hoje”. “Um grande grupo que não tinha acesso ao mundo letrado ingressou nele, enquanto o pequeno grupo que consumia a chamada alta literatura’ ainda faz isso”, diz.

Dias atrás, o americano Chuck Wendig, autor de juvenis, resumiu assim a questão no Twitter: “Talvez adultos leiam young adult porque bons livros são bons livros e eles podem ler coisas que não podiam na adolescência porque elas não existiam.”

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Juvenil lidera crescimento nas vendas em 2013

O segmento juvenil foi o que mais cresceu em vendas nas livrarias em 2013, segundo dados da empresa de pesquisa GfK. Em relação a 2012, passou de 7,4% para 8,4% do total de exemplares vendidos, um aumento de 24%.

O único segmento maior que o juvenil é o de literatura estrangeira, com 21% das vendas. Mas esse número é inflado pelos juvenis, já que livros lançados lá fora como young adult saem aqui como ficção estrangeira, caso de A Culpa É das Estrelas (Intrínseca), de John Green.

Embora as editoras invistam cada vez mais nesse mercado, não há uma fórmula de sucesso. Levantamento da empresa de pesquisa Nielsen mostra que 80% das vendas dos juvenis estão nas mãos de cinco das centenas de casas publicadoras do país.

“Menos de 1% dos meus leitores têm de 13 a 15 anos”

São elas Intrínseca (Os Heróis do Olimpo, de Rick Riordan), V&R (Diário de um Banana, de Jeff Kinney), Rocco (Jogos Vorazes, de Suzane Collins), Galera Record (Cidade dos Ossos, de Cassanda Clare) e Gutenberg (Fazendo Meu Filme, de Paula Pimenta, raro nacional num cenário de estrangeiros). Se na década passada o mercado editorial viveu uma multiplicação dos selos infantis, esta é a dos selos juvenis. Ou, mais do que isso, a de uma reorganização no que se entende por selo juvenil.

Há um ano, a Companhia das Letras extinguiu seu selo infantojuvenil Cia das Letras e estreou o Seguinte, para público um pouco mais velho. “Concentramos no Seguinte livros com temas mais adultos. Outros, para leitores de 12, 13 anos, migramos para o Companhia das Letrinhas”, diz a editora Julia Schwarcz. A criação do Seguinte marcou uma guinada comercial do segmento na editora, antes mais focado em livros para escolas. O maior sucesso é Seleção, de Kiera Cass. Na Record, onde o juvenil garante 30% do faturamento total, o selo Galera acaba de passar por uma subdivisão.

Antes dividido em Galerinha (crianças) e Galera (adolescentes) agora tem o intermediário Galera Junior, para público de 10 a 14 anos, de séries como Artemis Fowl, de Eoin Colfer. Com isso, o Galera passa a visar jovens com 15 anos ou mais. “Não é tão rígido, mas ajuda a orientar os pais”, diz a editora Ana Lima. Já a Rocco, que tem o selo Jovens Leitores desde 2000, prevê para 2014 seu selo de new adult (18 a 25 anos).

Curiosamente, embora sejam vendidos como juvenis, nem todos os autores de new adult gostam de se ver associados a esse público. “Leitores jovens não são o alvo dos meus livros. Menos de 1% dos meus leitores têm de 13 a 15 anos. O resto tem 16 ou mais”, diz Jamie McGuire, autora da série Belo Desastre.

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Raquel Cozer é colunista da Folha de S.Paulo