Sunday, 23 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

A raposa, as galinhas e os recursos naturais

As veias abertas da América Latina ainda não se cicatrizaram, como denunciou Eduardo Galeano em seu famoso livro sobre a posse indevida das riquezas pelos reinados ibéricos. As feridas não se curaram porque a região – ao contrário do que diz a edição especial da revista The Economist (veja aqui) – ainda é vista como o ‘quintal do mundo’.

Talvez a revista mais neoliberal – e também de maior credibilidade no mundo corporativo –, o semanário britânico tem se prestado ao papel de ser luz do mundo no campo dos negócios. É o que se vê em vários dos seus últimos números, especialmente as 14 páginas dedicadas à região, com destaque às melhorias das instituições político-econômicas.

The Economist, no número da última semana, tece elogios à economia latina que cresce em ritmo animado (veja aqui). Prega-se a ideia do vasto território com recursos infindáveis, cenário animador aos investimentos, regras econômicas em estágio de consolidação (especialmente Brasil, Colômbia, Chile e México). O mundo ideal para as raposas corporativas.

Não obstante, os argumentos da revista britânica não apagam os séculos de saque ao patrimônio natural (ou de empreendedorismo – para ser mais fiel ao jargão mercantil). Ficaram os buracos, o passivo ambiental, a dívida etnocultural. Ademais, sabe-se, historicamente, que os latinos serviram de base agroexportadora daquilo que não tinham os ricos das regiões pouco produtivas e geladas.

Parte da carcaça antes desprezada

O que teria mudado – aos olhos da The Economist – para não sermos mais o quintal do mundo? Passados 200 anos de independência (?), olham-se os países ao sul da América com a esperança do desenvolvimento. Andamos, enfim, com as próprias pernas? Não devemos a ninguém? Não beijamos a mão dos mais fortes? Era o que se esperava. Mas o que se vislumbra não é o que parece, tão pouco o que se vê.

Neocolonialismo?

Não se fala mais dos navios, dos porões e das correntes nos pulsos negros. O que era quintal via-se as velhas raposas do capital (pouco globalizado até então, é verdade) salivavam com os recursos minerais e agrícolas. Espanhóis, franceses, ingleses e portugueses usavam as colônias latinas apenas como caixa de empréstimo.

Entre a transição de colônias depredadas para os novos emancipados o saque continuou, mas como nova cara. Sem capital para investir, restava, aos recém-convidados à festa, aceitar as condições dos anfitriões, as metrópoles. O capital travestiu seus interesses na forma de ‘investimentos’, não somente retirando os minerais das lavras, como os industrializando.

Os minerais ainda são importantes, bem verdade, mas no século presente, as riquezas são também outras. As gordas e suculentas galinhas dos países latinos oferecem, agora, partes de sua carcaça antes desprezadas: recursos naturais e ambientais – para alegria do esfregar de mãos das velhas raposas. Novas tintas lançadas a velhos afrescos. Este é o cenário pintado por The Economist no atrativo celeiro latino de recursos naturais.

Controle de muitas áreas

Com as preocupações ambientais propaga-se, agora, as vantagens dos projetos verdes, os mercados de carbono, o papel da água e dos alimentos, as florestas vastas em biodiversidade e infindáveis em oportunidades, as minas que – mesmo após séculos de bolinação ainda mantém se viço. Não esqueçamos da terra agricultável, mão-de-obra (barata?) e, algo novo, mercado para a venda dos produtos.

Na Amazônia, por exemplo o eldorado das oportunidades –, tem-se os grandes projetos mínero-energéticos (várias hidrelétricas, projeto Carajás – no Pará – e Serra do Navio no Amapá etc.). Para muitos do ramo, há um claro desbalanço entre o que se deixa aqui, na forma de recursos investidos e melhorias, e o que se leva (à reboque desta discussão está o velho impasse de se exportar apenas bens brutos – alimentos, madeira, produtos da biodiversidade etc. – em detrimento de industrializar-se, bem à moda capitalista; entre outros leia: Muitos minérios no Pará, quem se beneficia?, de Lucio Flavio Pinto).

O caso brasileiro é animador, segundo se divulga na mídia do ramo. Tido como a grande fazenda do mundo, por dispor dos recursos (em abundância) necessários à produção dos alimentos (terra, energia, sol, tecnologia e mão-de-obra), The Economist novamente levanta a bola do Brasil quando afirma haver milagre na agricultura do cerrado.

Sem terras agricultáveis disponíveis muitos países, cujo o nível de renda impulsiona o consumo de alimentos per capita acima do necessário, já começam a brilhar os olhos. Muitos investidores destes países – sabedores do valor destes recursos naturais para agora e mais ainda no futuro – já miram seus calibres para comprar mais áreas no país. Este interesse tem preocupado o governo federal que prepara conjunto de medidas para tentar conter o ímpeto. A verdade é que o controle de muitas áreas para agricultura significa o controle de outros recursos, como minérios, água e floresta.

Se correr o bicho pega…

O empreendedorismo das raposas regionais

Alguns bons observadores e com a bandeira do desenvolvimento à mão podem argumentar que sem o grande capital, sem os investimentos, sem a ótica da propriedade privada – e todo corolário que segue este enredo – do que adianta possuir tantas riquezas naturais?

Não se discute a necessidade de se desenvolver. É o que todos na região querem. Mas, a qual custo, pra quem e pra onde?

Os neocolonos não são mais as coroas nem os reis. Raposas ávidas que, sim podem representar seus países, figuram nos cartões de visita dos chefões das empresas. Neste cenário, o que é mais sensato e prudente no mundo das galinhas e das raposas? Entregar-lhes as melhores coxas com a promessa de melhores ganhos, tendo a cobertura da sobremesa como grand finale?

Aproveitar a boa onda da economia é um caminho sem volta e sem alternativas. Atrair as raposas, mas não se esquecer de mostrar-lhes que as melhores galinhas não serão atiradas à sua fome. Estimular o empreendedorismo das raposas regionais. Estas estão adaptadas ao clima latino e sabem manter o nível populacional das galinhas sem exterminá-las. Afinal, do que viverão amanhã?

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Engenheiro agrônomo, mestre em Ciências de Florestas Tropicais, Manaus, AM