Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Manual de sobrevivência na selva da profissão

Antes de mais nada preciso declarar que não sou um traidor da minha espécie. Não estou aqui para revelar “segredos” da categoria na qual trabalhei os últimos 22 anos. Este não é um manual para ajudar facínoras. Se você é um criminoso de colarinho branco, um empresário corrupto, um político safado ou um meliante picareta atrás da solução para seus problemas, este livro não vai ajudá-lo: isso porque você faz parteda “cadeia alimentar” natural dos jornalistas e certamente merece ser devorado, lenta ou rapidamente.

O objetivo deste pequeno livro (que também é de humor) é, isso sim, orientar e ajudar cidadãos comuns, empresários e políticos (honestos) e mesmo jovens assessores corporativos a lidar com essa complexa e – por que não dizer? – perigosa categoria profissional chamada jornalista, caso um dia necessitem.

Além dos efeitos de qualquer repercussão jornalística, vamos apresentar outros exemplos de crises nas quais empresas ou pessoas podem cair a qualquer momento. Não faltam exemplos de gente “de bem” que, por acidente de percurso, descuido ou força do destino teve de lidar com repórteres, paparazzi, consumidores e mesmo a sociedade irada em condições altamente desfavoráveis.

Predador insensível

Embora a lista de predadores seja grande (não há só jornalistas no mundo), a de presas parece ser ainda maior: gente inocente acusada por crime ou irregularidades que não cometeu; executivos inocentes ou ignorantes que são vítimas de funcionários fraudulentos ou criminosos; empresas desorganizadas que se envolvem em acidentes ambientais e precisam responder por isso, atendentes de SAC grosseiros etc. etc. etc.

Em bem menor escala do ponto de vista da gravidade, no jornalismo, casos como o da Escola Base – quando completos inocentes foram acusados de cometer barbaridades sexuais contra criancinhas, em 1994 – são mais comuns do que se pensa. A cada hora, dia, semana, mês e ano há sites, TVs, jornais e revistas cometendo uma infinidade de erros, injustiças e enganos. E são raríssimos os veículos que se corrigem publicamente.

Muitas vezes, tais erros significam danos permanentes em nomes, direitos e reputações. No caso da Escola Base, no qual infelizmente trabalhei como repórter, os danos significaram o fim de uma escola, de casamentos e da saúde dos acusados por um crime que jamais ocorreu (veja entrevista sobre o assunto no posfácio deste livro). Todos os acusados eram inocentes, mas, antes que pudessem prová-lo, ou que a imprensa descobrisse por si, foram destruídos.

A chamada imprensa predadora tem muitos outros exemplos trágicos, inclusive internacionais. O mais famoso ainda é o da morte de Lady Di, em 1996, em um acidente em Paris, enquanto tentava se livrar dos paparazzi (uma subespécie de jornalista, só que mais voraz).

Após o acidente, a princesa agonizava em meio aos destroços da Mercedes em que estava com o namorado, Dodi Al-Fayed, também morto. Vocês acham que algum paparazzo tentou em algum momento socorrê-los? Não, todos preferiram fazer fotos de ambos morrendo. Difícil imaginar um predador mais insensível que esse. Flash! Flash!

Também fiz este livro para auxiliar assessores de imprensa. Conheci e travei amizade com muitos em mais de 20 anos como jornalista, editor, colunista e chefe da redação do mais importante site jornalístico do país, o da Folha de S.Paulo (hoje chamado Folha.com).

Faro de caçador

Os assessores, embora também pertençam à “espécie” jornalística, muitas vezes se relacionam com seus pares em grandes veículos de comunicação de forma bastante ingênua. É como se um suculento linguado tentasse fazer amizade com um tubarão branco faminto. Como jornalista em um veículo online, descobri que assessores têm o hábito de ligar para pessoas erradas e em horários impróprios; tentam atualizar o mailing da empresa com o chefe da redação; fazem convites para lançamento de seus produtos e serviços quase sempre para as editorias erradas e principalmente querem vender pautas de um novo produto de beleza ao editor de esportes. Sério. Eu vi e vivi isso.

Lamento, amigos assessores, não quero magoá-los, mas a verdade é que vocês dariam praticamente um livro à parte. No entanto, optei em dedicar apenas um singelo capítulo desta obra com algumas dicas de como podem melhorar e proteger seu trabalho e a imagem de seus clientes diante de uma estressada grande imprensa.

Há pouco eu disse “tubarão faminto”? Sim, por isso usei de brincadeira o substantivo “predador” no título deste livro. O jornalista de verdade está sempre faminto e atento à notícia. E eventuais presas. Caso um dia você caia em suas mandíbulas e seja um infeliz inocente, este livro poderá ajudá-lo a lidar com a situação. Bom, antes de mais nada, espero que nunca se depare com tais mandíbulas. Brrrrrrrrrrr!

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Posfácio – “Eu tive medo de jornalistas e medo de ler jornal”

Depoimento do maestro João Carlos Martins

Quase 20 anos depois, os olhos do maestro João Carlos Martins ainda marejam quando ele toca no assunto “Caso Pau Brasil”.

Para quem não lembra ou não conhece a história, Pau Brasil era uma empresa de engenharia, sediada em Cubatão (SP), que foi atraída pela campanha eleitoral de Paulo Maluf nas eleições de 1990. O convite (ilegal) era para que emitisse notas fiscais “frias” para doadores da campanha malufista.

Quem conhece Martins de perto sabe o quanto ele é íntegro e honesto, mas também ingênuo. A campanha de Maluf o atraiu com a promessa de que seria o futuro secretário de Estado da Cultura. O maestro sabe que caiu como pato.

Martins tinha abandonado a carreira de pianista alguns anos antes, devido a uma série de acidentes que tirou o movimento de suas mãos. Ele decidiu virar investidor da Bolsa e em pouco tempo já havia ganhado mais do que em toda a carreira de músico. Então veio o chamado da sereia malufista… Martins achou que não haveria problema… Ledo engano.

Naquele tempo, empresas não podiam fazer doações a políticos, somente pessoas físicas. Para driblar a restrição, alguns empresários faziam doações a partidos e candidatos mediante recebimento de notas frias. Era isso que a empresa do então pianista fazia. Emitia notas como se estivesse prestando um serviço a essas empresas.

O dinheiro, no entanto, era repassado para Calim Eid e outros comandantes da campanha malufista ao governo de São Paulo. Toda a ação era obviamente ilegal, embora disseminada em vários partidos e estados.

Depois da campanha, por volta de 1993, a Procuradoria-Geral da República e a Receita Federal descobriram o caso Pau Brasil.

A empresa acabou “condenada” pela Receita Federal, que não quis saber se o dinheiro havia sido repassado a Maluf ou não. Para o Fisco, o que valia mesmo era que a companhia havia emitido R$ 18 milhões em notas fiscais. A Receita multou a Pau Brasil em mais de R$ 6 milhões, na ocasião.

A campanha de Maluf (que perdeu a eleição para Luiz Antonio Fleury Filho) tirou o corpo fora. Sobrou para Martins lidar não só com a Justiça e a Receita Federal, mas, principalmente, com a imprensa. Quem lhe deu apoio foi seu irmão, o famoso advogado Yves Gandra Martins, que o defendeu no caso.

A seguir trechos de entrevista exclusiva com o maestro (e único pianista do mundo a ter gravado integralmente as obras de Bach para teclado).

Em 1990 o senhor havia abandonado a música, devido aos acidentes que sofreu e que paralisaram suas mãos. Ao mesmo tempo, se tornou um operador de sucesso na Bolsa de Valores. Por fim, adquiriu uma empresa de engenharia quase falida, a Pau Brasil. Por que o senhor também se meteu na política?

João Carlos Martins– Um erro. Quando eu comprei a Pau Brasil ela funcionava na base do “caderninho do português”. Nunca atrasava nenhum pagamento, mas tributariamente era uma bagunça. Não tinha um contador especialista, não tinha auditoria. Por causa dessa bagunça, eu resolvi abrir outra empresa, totalmente profissional. Eu nunca tinha sido empresário, mas decidi que a empresa antiga tinha todos aqueles vícios de uma companhia concordatária e achei melhor fazer tudo certo a partir do zero. Essa nova empresa absorveria os 600 funcionários da antiga Pau Brasil.

Então o senhor abriu a empresa…

J.C.M. – Abri. E o que aconteceu? Veio o Plano Collor e, ao mesmo tempo, apareceram em casa o Calim Eid (1923-1999) e o Maluf. Eles disseram: “Olha, nós queremos que você faça a campanha, porque você tem muito prestígio… E você vai ser o futuro secretário de Estado da Cultura, pois Maluf já está [praticamente] eleito governador”.

Para explicar: o Plano Collor acabou com um negócio chamado “título ao portador”. Todo mundo fazia campanha com esse título. Desde Pedro Álvares Cabral, sempre foi assim que se fez o chamado Caixa 2. Título ao portador era uma letra de câmbio que não tinha nome de ninguém. E o Plano Collor acabou com isso. Então qual a solução? A partir de então, tudo em uma campanha eleitoral tinha de ser declarado em nota fiscal. Acho que a lei brasileira era hipócrita porque só pessoa física podia fazer doação a políticos; pessoas jurídicas eram proibidas. Mas faziam do mesmo jeito.

Aí [Calim e Maluf] me perguntaram: “Já que você vai fechar a firma, por que você não mantém ela aberta e passa pra gente as notas [e aos doadores da campanha]?” Eu falei “ok, dou as notas, mas também vou pagar todo mundo com nota: os fornecedores, os shows, os cabos eleitorais, tudo…” Na minha opinião ia ser uma espécie de caixa 1, embora essa prática também fosse proibida. Como é que eu podia emitir uma nota para um serviço que eu não tinha feito? Era ilegal, embora todo mundo fizesse. Achei que não daria em nada… eu não estava ganhando nada com isso.

E por que o senhor fez?

J.C.M. – Porque na época eu pensei comigo: é ilegal e não é. Eu estou pagando todo mundo. Vinha o fornecedor de bandeirinha de candidato, de santinho, por exemplo, ou o cara que organizava o comício, a carreata, e eu pagava a todo mundo com cheque e exigia um recibo ou uma nota.

Mas para quem o senhor entregava nota?

J.C.M. – Por exemplo, vinha uma grande empreiteira e dizia que queria colaborar com Maluf. Eu dava a nota, como se tivesse prestado serviço, e a empresa dava um cheque para a Pau Brasil. Só que eu repassava o dinheiro à campanha.

Mas a Pau Brasil não tinha sido feita pra isso…

J.C.M. – Não, não era o objeto social dela.

Ou seja, ela não podia fazer isso…

J.C.M. – Legalmente, não. Isso era ilegal.

Desculpe, maestro, mas por que raios o senhor se meteu nisso?

J.C.M. – Olha… (os olhos marejam) foi um enorme erro meu…

Como os jornalistas trataram o caso?

J.C.M. – Vieram para cima como feras. Bom, não tinha como ser diferente, né?

O senhor diz que chegou a ter medo de jornalista nessa época…

J.C.M. – Não só medo de jornalista, mas ao mesmo tempo tinha pavor de jornal. Eu nem dormia mais. Fiquei doente. Eu saía de casa às 4h e ia procurar alguma banca de jornal aberta para comprar o jornal, mas ia tremendo. Eu lia, na rua mesmo, tudo que estava saindo sobre o caso. Cada dia era uma angústia maior, uma dor maior.

Em algum momento o senhor achou que estava sendo injustiçado?

J.C.M. – Como eu disse, eu sei que errei, mas aquilo estava sendo feito por todo mundo, por todos os partidos. Lembro que o [governador Orestes] Quércia foi o único que saiu em minha defesa. Ele chegou a dizer que também tinha feito campanha do mesmo jeito, só que nenhum jornal ou jornalista deu destaque a isso. Era só o caso Pau Brasil na imprensa.

O senhor acha que superou tudo?

J.C.M. – Superar, sim, mas nunca esqueci. E fiz uma promessa naquela época: que eu deixaria uma imensa obra social no lugar daquele erro. E é isso que eu quero fazer. Deixar pelo menos mil orquestras de câmara espalhadas pelo país. É isso que estou fazendo e espero deixar de herança.

Não acha que os jornais à época concentraram mais as matérias no senhor e na Pau Brasil do que no Paulo Maluf, que era a, digamos, origem de tudo?

J.C.M. – Sem dúvida, mas fazer o quê?

O senhor me disse uma vez que acha que ainda há jornalistas que ainda julgam toda sua carreira apenas pelo episódio Pau Brasil…

J.C.M. – Disse. Eu sei que ainda há jornalistas, e da área musical, que, quando escrevem sobre meus concertos… eu sei e sinto que não é pela música que eles me julgam e muitas vezes falam mal. Ainda é pelo caso Pau Brasil.

***

“Há risco de ocorrer um novo caso Escola Base”

Depoimento de Suzana Singer, ombudsman e ex-editora da Folha de S.Paulo

Em 28 de março de 1994 começou o caso Escola Base, que está marcado até hoje como uma das maiores injustiças já cometidas pela imprensa contra inocentes.

A imprensa teve cúmplices diretos, como um delegado tagarela e mães histéricas.

As mães de dois alunos da escolinha Base foram os detonadores do caso. Eram mães, respectivamente, de um menino e uma menina, e foram registrar queixa em uma delegacia de polícia, em São Paulo, quando, sabe-se lá por que, começaram a desconfiar que seus filhos estivessem sendo vítimas de abuso sexual na escola.

O depoimento era uma bomba: as mães acusavam, apesar de não terem provas, vários funcionários e donos da escola Base de promover orgias pedófilas com seus filhos. Logo outras mães se juntaram àquela insanidade acusatória.

O delegado à época se chamava Edélcio Lemos e foi responsável pela investigação. Ele acabou afastado do caso após ampliar a onda de sensacionalismo. Ele também não havia encontrado provas cabais. Provavelmente nem indícios.

“O delegado falava o tempo todo, tinha as declarações das mães (…). Não sei se hoje teria como esse caso não ser publicado também”, declara a hoje ombudsman da Folha.

Na entrevista a seguir, Suzana Singer relembra um dos momentos mais tensos e difíceis de sua carreira – e um dos episódios mais tenebrosos do jornalismo nacional.

Como começou o caso Escola Base na Redação da Folha? Você lembra que horas ocorreu e quem trouxe as primeiras informações para o jornal?

Suzana Singer– Tinha acabado de passar uma matéria na Globo; creio que só ela tinha a história. O que lembro era que havia todas as evidências que tinha ocorrido alguma coisa absurda. O que mais me chamou a atenção era o depoimento das mães, que diziam que os filhos chegavam em casa chorando. Depois diziam que um deles tinha feito exame de corpo de delito e que havia “evidências” de abuso sexual. Só que o laudo não havia concluído que ele havia sido abusado. Ele tinha achado escoriações [anais] ou algo assim. O fato é que cada mãe falava uma coisa pior.

Então não havia nenhum repórter da Folha na história até então… Ninguém suspeitou de algo errado? Nenhum chefe, assistente ou repórter…

S.S. – Posso estar sendo injusta, mas não me lembro de ninguém ter parado e dito: “Peraí, essa história está esquisita”.

Já havia acontecido alguma coisa parecida antes?

S.S. – Não. Não lembro de nenhum caso de cobertura policial desse tipo.

Como editora, quando viu o caso, você já decidiu que a cobertura seria grande? Que o jornal daria grande espaço?

S.S. – Não lembro ao certo. No começo parecia uma coisa meio mundo-cão, um caso para o Notícias Populares [diário já extinto, publicado pela mesma Empresa Folha da Manhã que edita a Folha de S.Paulo]. Mas, depois, o caso foi ganhando tamanho, todo mundo comentando…

Pelo que vi nos arquivos da Folha, o jornal começou de forma não muito exagerada…

S.S. – A Folha teve uma vantagem em relação a outros veículos porque ela sempre colocou “outro lado” e sempre colocou tudo no condicional (teria sido abusado, seria um dos envolvidos etc.), como manda o Manual [da Redação]. Não é um mérito meu, é da chamada “escola Folha”, que exige esse procedimento. Sempre colocar no condicional e na dúvida. Isso não significa que a gente não contribuiu para o linchamento moral dessas pessoas. O ideal seria…

Não publicar?

S.S. – Não sei, acho que tinha um caso ali, tinha uma denúncia de verdade, não sei se seria possível não publicar…

O Diário Popular [também extinto; foi substituído pelo Diário de S.Paulo] não publicou.

S.S. – Não?

Não. Aparentemente o chefe de redação à época sentiu que havia alguns furos na história e decidiu não publicar. Mesmo depois, quando o caso tomou corpo e virou assunto nacional, ainda assim o Dipo não publicou. Apesar de achincalhado pelos leitores, que o acusavam de ser conivente com “criminosos”.

S.S. – Talvez ele tivesse alguma informação de antemão sobre o delegado…

Pode ser… Mas, em que momento você, como editora, parou e começou a desconfiar. Algo do tipo: “peraí, acho que tem algo errado nisso tudo…”?

S.S. – Acho que foi quando o delegado foi afastado. Começaram a aparecer mais e mais dúvidas se as investigações haviam sido feitas de forma correta. O que acontecia era que o tal delegado falava tudo. Dava entrevista em on para todo mundo. E as mães vinham com suas histórias. Tudo conspirava.

Outra coisa: os coitados dos donos da escola e o perueiro [homem que dirigia uma Kombi para levar e trazer as crianças] estavam tão amedrontados que eles quase não falavam, nem o advogado deles. Eles não tinham voz, não tinham argumentos diante de toda essa coisa. E tem mais: uma vez eu falei isso numa palestra e um menino fez um livro e colocou umas aspas minhas de forma horrível… A verdade é que a imprensa fica o tempo todo se culpando, e com razão, sobre esse caso, mas teve um fenômeno de histeria coletiva por parte das mães que fizeram a denúncia. Uma coisa que até hoje ninguém explicou. Como é que apareceram três ou quatro mães diferentes contando histórias parecidas? Como as crianças começaram a falar sobre isso [abuso] e por quê?

Teria sido um surto coletivo?

S.S. – Isso eu não sei.

Lembro que eu trabalhei no caso pela Folha, você era minha chefe. Minha função era, exclusivamente, ouvir os acusados. Todo dia. A orientação era conseguir declarações de qualquer um dos acusados injustamente. Lembro que todo material que eu conseguia virava um abre de página ou ganhava amplo espaço, matérias enormes. Depois de perceber o erro, você acha que isso foi uma forma de o jornal tentar se desculpar com as vítimas?

S.S. – Sim! Aí até ficou aquela overdose de erramos, erramos, erramos… Foram dados seminários [prática comum na Folha de S.Paulo, os seminários internos procuram melhorar a qualificação dos jornalistas da empresa], sempre repetindo que o que houve foi uma grande sacanagem, que acabamos com a vida daquela gente…

Você não acha que nós, jornalistas, acabamos dando crédito demais às autoridades como fontes? Por exemplo, delegados, policiais, bombeiros…

S.S. – Acho, sim

E qual a saída para fazer um jornal de qualidade já que não podemos confiar totalmente em ninguém como fonte, nem mesmo autoridades?

S.S. – Esse eu acho que é um grande problema específico do jornalismo de polícia. As demais editorias considero mais simples. Agora, como é que se faz quando a polícia faz uma declaração? Veja por exemplo a recente matança de policiais em São Paulo. Por duas semanas a polícia negou isso, ficava dizendo “não tem matança, esses números estão dentro da média” O que você vai fazer quando eles estão negando algo que você apurou?

Acha que o jornalismo ainda poderá cometer outra barbaridade como a Escola Base?

S.S. – Acho que sim, há riscos. Mas, acho que no caso de abuso sexual, esse tipo de coisa, agora, fica todo mundo morrendo de medo [de publicar]. Deixa eu te contar um caso, essa é uma apuração minha: [o médico especialista em reprodução] Roger Abdelmassih. Há anos eu ouvia gente falando que ele abusava de mulheres [no consultório]. Ninguém dava nome. Tinha marido que ligava sempre que saía qualquer matéria sobre inseminação artificial e ele era o entrevistado. Sempre alguém ligava ou mandava e-mail dizendo: “Vocês [Folha] protegem esse cara, a mídia é vendida para esse bandido, ele abusa das pacientes”. Aí o Ministério Público começou a ouvir mulheres que tinham sido pacientes dele…

E você não pautou ninguém?

S.S. – Claro, milhões de vezes. E isso muito antes do caso estourar. Então soubemos que o Ministério Público havia colhido depoimento de quatro mulheres, que também não queriam falar em on [serem gravadas e identificadas]. Então, só com isso, eu enchi tanto o saco aqui dentro [da Folha] que a gente deu. Mas, o que a chefia me questionava era que o cara era uma sumidade, que era rico, que só tinha mulher sem nome fazendo acusação… Mas eu briguei muito e saiu. Mas, como saiu? Não foi capa de Cotidiano, não. E nem saiu a foto do Abdelmassih. Saiu uma foto só da clínica. Para piorar, a Veja não deu no fim de semana seguinte [ao furo da Folha]. A gente estava sozinho durante uma semana na cobertura. Então mais mulheres começaram a ligar… Finalmente conseguimos uma mulher que falava em on.

O que acontece era que ele mesmo, o Abdelmassih, dava entrevista pra gente. Ele dizia “Isso é um absurdo, olha o lugar em que eu trabalho, olha como eu sou bonitão (sic); vocês acham que eu preciso disso pra conseguir mulher?”

Ou seja, o cara enfraquecia toda a apuração…

S.S. – Isso mesmo, porque ele não se escondia! Mas, aí começou uma bola de neve de denúncias e graças a Deus ele foi descoberto. Ei, coloca no livro que, quando alguém achar que está sofrendo alguma injustiça dos jornalistas, pelo menos os da Folha, que essa pessoa pode procurar a figura do ombudsman e reclamar.

Prometo colocar. Infelizmente mais nenhum grande jornal do Brasil tem ombudsman.

S.S. – Mas, aqui tem. E funciona.

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Ricardo Feltrin é jornalista