Saturday, 15 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Livre, leve, solto

O fim de noite no domingo (4/4) trouxe ao ar, no Canal Livre – programa de entrevistas da Rede Bandeirantes de Televisão – o presidente Lula entrevistado por um grupo seleto de tarimbados jornalistas.


Foi possível observar o quanto emergiu um Lula solto e democrático em meio a perguntas que variavam da educação obsequiosa ao intuito obstinado de fazê-lo falar sobre questões delicadas ou possivelmente tangenciadas por respostas periféricas. Mas o que se apresentou, num bate-boca entremeado de salamaleques de todos os lados, contornando papéis de quem tem a responsabilidade profissional de perguntar e de quem tem o dever político de responder, pode-se dizer que o saldo foi positivo, comedido, revelador em alguns aspectos e intrigante em outros.


Um Lula questionador deixou no ar, como entrevistado, promessas de surpresas sobre sua militância política pós-governo ou ainda a especulação sobre sua futura atuação no cenário da política internacional, permitindo-se desfilar opiniões e promessas de cobranças aos dirigentes dos países que compõem o G20 a respeito do que efetivamente estão fazendo para driblar os efeitos da crise econômica mundial, ou mesmo evitar que ela ressurja em escala incontrolável.


Referindo-se aos mandatários de nações poderosas, o presidente não poupou palavras para demonstrar intimidade com essas figuras tão carismáticas quanto ele próprio. ’Bush virou um grande amigo meu e eu um grande amigo dele’, disse. Chegou a lembrar os conselhos sobre o Irã que deu ao presidente americano Barack Obama, ao francês Nicolas Sarkozy, e aos primeiros-ministros Angela Merkel (Alemanha) e Gordon Brown (Inglaterra).


Sem rancores


Um Lula solto no mundo das idéias, da governabilidade, das opiniões maturadas sobre o mundo atual, a economia, os passos que seus governos deram em torno do avanço brasileiro, e algumas questões sobre promessas não cumpridas – como, por exemplo, a falta de uma reforma tributária. Foi taxativo, esclarecendo que o Congresso não deixou e que alguns governadores também não, mas, estrategicamente, só citou o de São Paulo.


Pergunta dirigida ao ex-sindicalista Lula: por que o governo não fez a reforma sindical? Explicou sobre o grupo de trabalho criado com este objetivo, que, segundo ele, não avançou. Justificou que a sociedade tem um tempo para digerir mudanças e estabelecer concretamente novas reformas. Lembrou, por exemplo que cinco presidentes dos EUA que antecederam Obama tentaram fazer a reforma da saúde, mas só Obama, agora, conseguiu.


Questionado sobre a tentativa de controle dos meios de comunicação, Lula chamou de covardes os empresários da área de comunicação que se recusaram a participar da recente Conferência Nacional de Comunicação. Mas elogiou o presidente da Bandeirantes, que participou, e desferiu um petardo direto: ’Vocês, jornalistas, recebem mais censuras dos patrões do que do governo’. Lula parece ter vencido as barreiras da interlocução com a imprensa na medida em que expõe claramente o que lhe vai no pensamento.


Não se furtou a falar das próximas eleições. ‘No exercício da presidência da República eu não terei candidato. Todos serão meus candidatos. Mas quando acabar meu expediente, eu terei candidato. Que será o do meu partido.’


Acrescentou que todos terão grandes surpresas com o desempenho da candidata Dilma Rousseff. Traçou um perfil de mulher sem rancores, capaz de vivenciar situações para as quais um presidente precisa estar preparado.


Fora de cogitações


Naturalmente, a entrevista do presidente repercute, em graus diferenciados, no público diversificado, a partir de interpretações que vão desde os blogs políticos até as conversas entre os que prestaram atenção na espontaneidade com que o homem Lula transitou entre os experientes jornalistas que não esconderam nem a sede de sugar dele algo novo, tampouco o pouparam de alusões provocadoras como, por exemplo, a pergunta enviada pelo jornalista Ricardo Boechat, focando sua qualidade de presidente que mais viajou na história da República brasileira.


Um Lula articulado, parecendo psicanalisado, declarou-se acima de preconceitos do gênero, desafiou quem quiser dirigir países e negócios sem o necessário deslocamento para não perder o lugar na concorrência que é a disputa de espaço na economia mundial. Disse que seu sucessor ou sucessora com certeza terá que viajar muito mais do que ele, e considerou chique quando encontra seus amigos ‘catadores de papel’ em aeroportos, viajando também para congressos internacionais.


Acrescentou que é preciso pensar grande, que se orgulha de estar vivendo num Brasil onde cresce a auto-estima e onde se acredita em dias cada vez melhores. Avisou que não pretende presidir o Corinthians, ao ser indagado sobre isso, pois acha que cada ‘macaco deve atuar no seu galho’. Brincou com palavras, aludiu a questões cruciais como violência e tocou numa questão passível de muita discussão sobre o conteúdo das mídias. Segundo ele, já não bastam os enlatados, que nos impõem tiros no café, no almoço e no jantar. Sugeriu por que não pensarmos, juntos (lembrou a tempo que deve ser uma decisão de ouvintes, telespectadores e leitores), um equilíbrio com notícias de cunho sócio-educativo, mais estimulantes e produtivas. Neste momento, a reação dos jornalistas pôde ser sentida como um receio diante de uma ameaça de censura.


Mas, o novo Lula, solto e direto, bradou em alto em bom som que é um democrata e que só acredita em liberdade, pois ele mesmo é uma prova viva de governante que chegou aonde chegou por meios proporcionados através da imprensa livre e democrática.


Acalmaram-se então os ânimos, a entrevista marcou praticamente um pacto velado de ajuste entre as respostas acanhadas do antigo Lula a quem se perguntava, anos atrás, se sabia falar inglês, e o novo Lula capaz de aferir conceitos socioeconômicos de um Brasil democrático e proativo.


Nas suas respostas mais abrangentes, o presidente lembrou que esse mesmo Brasil se insere hoje num cenário de respeitado interlocutor internacional, enquanto a geoeconomia pressiona a ONU a um novo mapa no qual países da África, Ásia e América Latina sejam ouvidos, falando suas próprias línguas nativas, buscando equilíbrio para a construção de um mundo melhor. Mas Lula deixou bem claro que essa história de ele vir a ocupar cargo de secretário-geral das Nações Unidas é boato, especulação, e não se encontra em suas cogitações.

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Jornalista