Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

O jornalismo como vítima

Foi reeditado em formato de bolso O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm. O momento é apropriado. Lançado em 1990, tornou-se um clássico instantâneo. Foi classificado nos Estados Unidos como uma das “100 Melhores Obras de Não Ficção” do século 20. É um livro de pequenas dimensões e leitura rápida que reúne dois artigos publicados em 1989 na revista The New Yorker e um posfácio da autora. Esta edição traz um segundo posfácio, de Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo.

O livro tem provocado polêmicas infindáveis. Não tanto pelo conteúdo, como pelo longo parágrafo de abertura: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente ser tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou o livro aparece – a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do `direito do público a saber´; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

Esse parágrafo, uma hipérbole bem escrita e que generaliza em excesso, é realmente um soco no fígado e, como certamente sua autora esperava, desencadeou reações em série numa profissão tão narcisista como é o jornalismo. Sem esse parágrafo sensacionalista, escrito para chocar, é improvável que o livro tivesse tanto sucesso. Os primeiros comentários na imprensa foram, como podia esperar-se, negativos em sua maioria.

Exército absolveu médico acusado

O veterano repórter J. Anthony Lucas, já falecido, reconheceu na revista Washington Monthly que as críticas do livro são sofisticadas e feitas por uma praticante da própria profissão que está atacando. Mas diz que se trata de uma “obra de charlatanice inspirada” e que o parágrafo de abertura revela uma profunda incompreensão do jornalismo americano. Segundo Lucas, as principais falhas da profissão não são sedução e traição, mas preguiça e excesso de proximidade com as fontes. O parágrafo de abertura, diz, erra o alvo; sua aplicação pode ser limitada a apenas um pequeno segmento do jornalismo: os livros e as reportagens investigativas das revistas – quando o repórter sabe que nunca mais vai tratar com essa fonte e com esse tema.

A própria autora diferencia os dois tipos de jornalismo ao comparar a falta de “sutileza” de um repórter do jornal Newsday, suas perguntas e sua maneira direta de “repórter de notícias”, com a “técnica mais japonesa” – leia-se, elitista – dela.

Joseph Nocera escreveu que o famoso parágrafo é de uma chocante hipocrisia e de um desprezo fulminante pela profissão que a própria autora pratica. Mas encoraja o leitor a continuar lendo. Acha interessante a discussão do relacionamento autor-fonte que o livro propõe. Diz que é uma obra de leitura compulsiva, quase mórbida. Para outro crítico, o livro espelha uma “visão rabugenta” da profissão.

O tema de O Jornalista e o Assassino são as estranhas relações entre um escritor, Joe McGinniss, e Jeffrey MacDonald, um médico do exército acusado de ter matado sua mulher grávida e duas filhas pequenas, de cinco e dois anos e meio de idade, a pauladas e facadas, em 1970, em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Ele alegou que quatro intrusos invadiram sua casa, três homens e uma mulher de cabelos longos que cantava “Ácido é legal” e “Matem os ratos”. Os tais intrusos não deixaram vestígios e só feriram MacDonald ligeiramente, mas o exército o absolveu em um primeiro julgamento e ele só foi condenado dez anos depois, em um segundo julgamento, porque o Departamento de Justiça reabriu o caso.

Duplicidade chocante

Em 1979, McGinniss entrevistava MacDonald para um jornal quando este lhe propôs que escrevesse um livro sobre ele. Chegaram a um estranho acordo, pelo qual o escritor dividiria com ele os direitos autorais em troca de exclusividade e de acesso amplo ao réu, aos advogados e a todas as informações e documentos. Um pacto que Malcolm qualifica de “diabólico”. Pelo contrato, MacDonald não teria acesso ao conteúdo do livro antes da publicação e não processaria o autor caso não gostasse. Este se incorporou à equipe de defesa como observador.

Durante o julgamento, McGinniss se convenceu de que MacDonald era culpado. Mas não mudou seu comportamento em relação a ele. No dia seguinte à condenação, em agosto de 1980, MacDonald lhe escreveu dizendo: “Acho que hoje seria difícil olhar para você e apertar sua mão – sei que vou chorar e querer abraçá-lo. (…) Espero (…) que você seja meu amigo.”

Em resposta, McGinniss disse: “Não poderá haver um pesadelo pior que aquele que você está atravessando agora. (…) Completos estranhos não precisam de mais de cinco minutos para ver que você não teve um julgamento justo.” Em outra carta: “Em que porra aquele pessoal estava pensando? Como foi que 12 pessoas puderam não só concordar em acreditar em uma sugestão tão horrenda, como concordar, tendo a vida de um homem em jogo, que acreditavam nela além de qualquer dúvida razoável? Em seis horas e meia?” A correspondência entre eles durou quase quatro anos. A duplicidade de McGinniss é chocante quando se sabe que, durante o julgamento, dizia a si mesmo: “Se eu fosse do júri, votaria pela condenação.”

Advogados solícitos

Finalmente, em 1982, McGinniss publicou o livro, Fatal Vision (visão fatal), no qual MacDonald foi retratado como um frio psicopata assassino que matou num acesso de raiva, um narcisista patológico. Janet Malcolm escreveu que, durante os quatro anos em que McGinniss se correspondeu e falou com MacDonald, ele conseguiu ocultar que o livro que preparava retratava o médico como um matador psicótico. Ela, contudo, retrata MacDonald como uma pessoa ingênua, que imaginava estar “ajudando” o autor a escrever um livro que o eximia do crime e que o apresentaria como “pai e marido extremado”, “médico dedicado”, “realizador esforçado”. A respeito de Fatal Vision, porém, ela não apontou erros, falhas ou mentiras; diz apenas que houve “traição”.

MacDonald achou, segundo a autora, que McGinniss tinha cometido uma espécie de assassinato da alma, pelo qual teria que prestar contas, e o levou aos tribunais. O julgamento se deu em três meses, em 1987. O médico encontrou um advogado esperto, Gary Bostwick. O principal argumento que esgrimiu durante o caso foi o conteúdo das cartas, para ele um caso clássico de fraude. No julgamento, escreveu Janet, ele se apresentou como o anjo vingador: “Trata-se aqui de um processo contra um falso amigo”, disse dramaticamente o advogado na sessão de abertura. De traição premeditada. Ele insistiu no cinismo e oportunismo do escritor, na aparente incapacidade de McGinniss em sentir compaixão por MacDonald. Segundo Janet, o advogado conseguiu fazer com que cinco (de seis) jurados e um suplente aceitassem sua versão do encontro entre MacDonald e McGinniss como uma fábula de falha moral e do julgamento como um ritual necessário de retribuição. Depois de três meses de um julgamento inconclusivo, McGinniss, sem reconhecer que estava errado, pagou US$ 325 mil a MacDonald para acabar com a disputa.

Janet se interessou pelo caso. Depois de algumas entrevistas com McGinniss, este e o seu advogado se recusaram a falar de novo com ela. Procurou, então, MacDonald e seus advogados, que se mostraram solícitos em atendê-la. Dois anos depois, em 1989, ela publicou os artigos na New Yorker.

“Tendemos a acreditar uns nos outros”

Neles, entre o jornalista e o assassino, Janet toma as dores do assassino. Mostra um escritor ambicioso e um assassino frágil e inocente, ele mesmo uma vítima: “Era um homem bonito, alto, loiro, atlético, de 34 anos (…) e sempre manteve uma espécie de equilíbrio sobrenatural, um ar de quem está à vontade no mundo”; “um médico de sucesso que trabalhava duro”. Mais adiante o apresenta de novo, na prisão, como um homem alto e bem-apessoado, vestido com um macacão de algodão azul-claro, realizando uma proeza em termos de pose e escutando com muita atenção o que ela falava. “Quase dava para sentir a intensidade da escuta dele e fiquei impressionada com a sua inteligência como interlocutor.” Ela disse ter vislumbrado uma das facetas mais cativantes de sua personalidade, seu estoicismo frente às severas condições do confinamento solitário, levando-a a relevar outros aspectos negativos de sua personalidade. Na prisão, ficou impressionada com a graça física daquele homem que manuseava as rosquinhas – partindo-as em pedacinhos e mantendo o açúcar, de maneira inexplicável, sob controle – com a delicada destreza de um veterinário consertando uma asa quebrada.

Finalmente, ela assegura que qualquer pessoa que não adote posições extremadas tende a conceder a MacDonald o benefício da dúvida a respeito das acusações. Ela se recusa a aceitar a conclusão do tribunal de que ele era culpado e insiste em afirmar que os investigadores passaram anos trabalhando e que não há nenhuma resposta segura sobre o que “realmente” aconteceu. No entanto, a Corte Suprema sabia o que “realmente” aconteceu ao confirmar a sentença. Ela deixa de lado o fato de que não foi McGinniss quem condenou MacDonald a passar o resto da vida na prisão: foi a Justiça.

É surpreendente o argumento de Janet a respeito da inocência do assassino: “Não acreditar no que uma pessoa diz vai contra todos os nossos instintos. Tendemos a acreditar uns nos outros.” Ao resenhar o livro, o crítico do New York Times escreveu que, ao apresentar MacDonald como suave, e não vilão, ela induz a acreditar que possivelmente fosse inocente.

“Ambivalência”, e não “traição”

Quando as reportagens foram publicadas na New Yorker, alguns jornalistas disseram que seriam uma espécie de versão disfarçada do processo de US$ 13 milhões que a autora tinha enfrentado ao ser acusada de calúnia por Jeffrey Masson, personagem de uma reportagem publicada na revista e depois em forma de livro. Estranharam que esse processo, que guardava um inegável paralelismo com o processo sobre o qual ela escreveu, não fosse mencionado. Para responder, Janet escreveu o posfácio do livro explicando que, como ganhara a causa, o assunto tinha ficado para trás. Mas, num curioso entrelaçamento das duas obras, quando O Jornalista e o Assassino foi publicado, Masson recorreu de novo aos tribunais, usando o livro como argumento. Teve o caso reaberto e perdeu de novo.

A longa saga, porém, ainda não terminara. McGinniss reagiu ao retrato que Janet pintou com um epílogo para a edição de 1989 de Fatal Vision. Como comenta Otavio Frias Filho no segundo posfácio de O Jornalista e o Assassino, McGinniss sugere, com malícia e sem elegância, que Janet, “como muitas mulheres”, seria fascinada por homens condenados por crimes violentos, “especialmente contra mulheres”. Mas o epílogo traz informações interessantes. Diz que MacDonald testemunhou que escolhera McGinniss para escrever o livro porque achou que ele era muito brilhante, cínico e divertido. O fato de ser “cínico” seria favorável aos seus interesses, comenta McGinniss.

Quanto ao fato de ele “seduzir” MacDonald, ao ler a primeira coluna que publicou depois do primeiro encontro e de aceitar escrever o livro, o médico disse que era lixo, que o deixara aborrecido e que estava “realmente desapontado”, pois as coisas que esperava que não fossem mencionadas estavam no primeiro parágrafo. Um começo pouco apropriado para uma sedução. No transcorrer do processo, MacDonald disse saber que o livro poderia não retratá-lo como inocente e que já tinha pensado a respeito disso. McGinniss negou que houvesse “traição” em suas atitudes, mas, sim, “ambivalência”. Menciona que, em várias ocasiões, MacDonald e seus advogados desconfiaram que o livro não lhes seria favorável.

O “jornalismo fiteiro”

Não é difícil perceber que Janet construiu sua obra sobre alicerces frágeis. No entanto, O Jornalista e o Assassino reavivou, talvez por linhas tortas, a questão das relações entre o jornalista e suas fontes.

Para alguns, a resposta é simples. O próprio McGinniss disse, como justificativa para sua “ambivalência”, que “minha única obrigação, desde o começo, era com a verdade”. Joseph Nocera, em sua resenha, escreveu: “Para que o jornalismo tenha algum valor, o jornalista não pode preocupar-se sobre se ele tratou bem ou mal a fonte. O que importa é se ele contou a verdade como a entendeu. Aferrar-se a este ideal é o que permite ao jornalista dormir bem à noite, mesmo depois de cometer traições.”

Mas será que o jornalista, nesse caso, pode dormir realmente o sono dos justos? Defender a colocação de McGinniss e de Nocera não significaria aceitar que os fins justificam os meios? Colocando a questão num contexto mais amplo: não significaria aceitar o comportamento do News of the World e de outros tabloides britânicos, acusados de pagar para obtenção ilegal de acesso à caixa postal de personalidades, entre outras violações da lei, porque, independentemente da maneira como as informações foram obtidas, elas eram verdadeiras?

A questão do uso de fitas gravadas ilegalmente se estende ao Brasil. É o que Alberto Dines qualifica como “jornalismo fiteiro”. Aqui, a imprensa não encomenda a gravação clandestina, mas utiliza fitas gravadas por terceiros. São quase sempre ilegais e usadas para prejudicar um concorrente ou um adversário. A imprensa costuma lavar as mãos, alegando que cumpre sua obrigação de informar. Mas será que pode alegar olimpicamente não ter nada a ver com isso? Ao publicar a informação gravada ilegalmente, e sem dizer como foi obtida, não estaria participando, conscientemente, de uma briga de interesses que não são os do leitor?

Uma variedade do “pacto faustiano”

Há frequentes críticas à “imprensa burguesa e monopolista”, não pelos seus numerosos erros, mas por alguns de seus acertos, como as denúncias na área do governo federal. Fica subjacente, embora não seja dito claramente, que, para esses críticos, as denúncias de corrupção, malversação de fundos, nepotismo, uso indevido dos cargos públicos feitas pela “grande imprensa” nunca deveriam ter sido publicadas.

É inegável que, nesses casos, a imprensa age de maneira pouco transparente. Jornais e revistas que publicam as denúncias não revelam como as informações foram conseguidas e que acordos foram feitos. É possível deduzir que as denúncias são resultado de brigas internas nos círculos do poder. Razão pela qual a imprensa recebe, de mão beijada, acusações sobre corrupção. A imprensa aceita, apesar de que a fonte da informação pode ser tão corrupta quando os denunciados.

Mesmo quando as informações das fitas clandestinas são do interesse da opinião pública, é também importante divulgar a origem das denúncias e das fitas e, principalmente, os interesses por trás delas. Se o jornal ou revista que publicou as denúncias deve manter o sigilo da fonte, o resto da imprensa, não; só tem compromisso com o leitor. Quando a imprensa se limita a repassar as acusações das partes interessadas, sem procurar quem e por que as faz, não estaria fazendo o jogo delas e bebendo em fontes de água contaminada?

A relação com as fontes estende-se também à aliança implícita pela qual o jornalista protege o informante e deixa de publicar qualquer fato negativo sobre ele porque o abastece de notícias exclusivas. Desvios de caráter, irregularidades, corrupção ou outros fatos negativos relacionados com a fonte são escondidos da opinião pública. É o elevado preço que o jornalista paga pela informação – uma variedade do “pacto faustiano”, ou “pacto com o diabo”.

O Jornalista e o Assassino levantou um debate que ainda perturba a imprensa.

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[Matías M. Molina é jornalista e autor de Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]