Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

O telespectador como protagonista

Costuma-se dizer que ele é o maior e o melhor telejornal jamais feito no Brasil. É pouco. Visto todas as noites por uma teleplatéia que bate na casa dos 30 milhões de cidadãos, o Jornal Nacional é o principal concentrado de notícias servido hoje ao público brasileiro. Daí a extrema atualidade deste livro de Isabel Travancas, Juventude e televisão, sobre o JN. A partir de uma pesquisa antropológica junto a telespectadores universitários, ela acrescenta novos dados para a compreensão do que representa esse que é o programa jornalístico mais influente do país. Para melhor aquilatar o valor da contribuição de Isabel Travancas, é conveniente olhar um pouco mais de perto a evolução e o amadurecimento do grande telejornal da Globo. Comecemos pelo reconhecimento dos trunfos que ele conquistou. É um reconhecimento devido.

Em relação aos diários impressos, que são locais, ancorados cada qual na cidade de origem, o JN leva a vantagem intransponível de ser verdadeiramente nacional. Comparado às revistas semanais, tem a vantagem óbvia de ser diário. Confrontado com os jornais impressos e as revistas, tem a vantagem de falar para muito, mas muito mais gente.

Além da abrangência mais ampla, mais maciça e mais assídua, o ponto que mais o distingue é que sua qualidade também mudou. Há 20 anos, ou até o início dos anos 1990, ele era sinônimo de fraude e empulhação. Podia ter mais audiência, mas não tinha esse atributo fundamental do jornalismo que é a credibilidade. Não era respeitado em termos de fidelidade aos fatos, ao menos junto aos públicos mais informados. Não era sem motivo. Naqueles tempos, havia mais realidade nas novelas do que nos noticiários de TV, assim como havia mais ficção nos noticiários do que nas novelas. O Jornal Nacional era de um governismo alucinado, mesmo nos tempos em que nada era mais alucinado que os governos. O cidadão ligava o telejornal e logo desconfiava que alguém ali estava tentando enganá-lo sobre algum assunto que ele não sabia bem qual era, por que era, onde é que era, mas que estavam tentando tapeá-lo, isso ele intuía rapidamente. [Um dos primeiros estudos de recepção a demonstrar esse distanciamento cauteloso que o telespectador sabia guardar em relação ao Jornal Nacional pode ser lido em Lins da Silva (1985)] Em 2006, a fisionomia do telejornalão já era outra. Após uma seqüência de reformulações, plásticas e estruturais, passou a construir uma credibilidade que jamais teve.

Durante as eleições de 2002, sua cobertura foi reconhecidamente mais equilibrada que as anteriores e, em seguida, o olhar que lançou sobre o primeiro governo Lula caminhou no mesmo diapasão. Foi assim, pelo menos, até meados de 2006, quando a disputa eleitoral mudou um pouco esse comportamento, de que tratarei logo adiante. Até ali, o JN retratou o governo com um claro esforço de equilíbrio, o que foi percebido e registrado por setores expressivos do próprio governo e da oposição. Sem o oficialismo que antes fazia dele uma versão em vídeo de A Voz do Brasil, soube informar o país honestamente. Sem a velha doença da adulação, embora fosse indisfarçável o seu entusiasmo editorial com a política econômica abraçada pelo governante operário, prestou um bom serviço informativo, que em nada lembrava o servilismo de antigamente.

Não é de se descartar a hipótese de a seqüência de reformulações que ele sofreu ter sido motivada justamente por isso, quero dizer, pela constatação de que o maior telejornal do Brasil padecia de carência crônica de respeitabilidade. As reformulações foram bem-sucedidas. Buscando construir a credibilidade essencial, trouxeram um cuidado maior em separar as falas de opinião e de informação. O recurso malicioso de se publicar opinião sob o manto da informação objetiva refluiu. O noticiário se livrou da subserviência solícita ante o Executivo federal.

O reconhecimento de seus trunfos deve ir ainda mais longe. Segundo um velho esquematismo das análises dos media, à televisão caberia massificar o que o diário impresso noticia. A fórmula pode ter tido sua validade em algum outro tempo, em algum outro lugar, mas no Brasil não funciona mais – se é que um dia funcionou. Aqui, revista semanal dá furo nos diários e televisão descobre fatos bombásticos que aos jornais impressos caberá apenas interpretar um dia depois. Ou só dois dias depois. Não há (mais) esse tipo de divisão de tarefas entre os diferentes meios de comunicação do jornalismo brasileiro. Não é (mais) verdade que a TV não pode analisar o tema da notícia. Não é mais verdade que o jornal não pode explicar os acontecimentos pela imagem. Não é (mais) verdade que algum veículo esteja dispensado de procurar o furo. Depois da internet, não é (mais) verdade um monte de outras coisas. Daí que um telejornal pode muito bem informar em primeira mão, lançar as vias principais de entendimento do assunto e, com isso, pautar os outros veículos. O Jornal Nacional é a prova disso. Sem demérito de nenhuma outra, pode-se dizer que ele é a instituição jornalística central no Brasil de hoje. Sua centralidade na comunicação social brasileira ultrapassa os escaninhos dos manuais dos comunicólogos.

Já se profetizou mais de uma vez o declínio de audiência para a TV aberta. Trata-se, como se sabe, de uma tendência mundial. Até hoje, contudo, o JN mantém a liderança em relação aos seus concorrentes de TV aberta ou fechada e, de uns tempos para cá, afirmou sua centralidade no campo do jornalismo em geral. Digo tudo isso para ser explícito. Os méritos do Jornal Nacional não podem mais ser ignorados por aqueles que cuidam de analisá-lo. O dado novo do jornalismo na televisão brasileira, dado que se instaurou de modo mais definido a partir do final da década de 1990, não é outro senão esse: o Jornal Nacional, em relação ao que era antes, é bom, é bem-feito, e retira seu sucesso de sua competência e não de apelos sensacionalistas. Ou se admite isso, com todas as letras, ou se abandonam as condições de criticá-lo com maturidade e honestidade intelectual.

Passemos, então, às críticas.

Desvios no caminho

Quando olhamos de longe a trajetória por ele descrita entre 1989 e 2006, notamos uma linha evolutiva mais ou menos contínua em busca da correção informativa e da credibilidade como um valor – valor ético e, também, valor de mercado. Há, na base desse deslocamento, uma razão calculada bastante simples: um noticiário não sobrevive na democracia sem credibilidade; portanto, trata-se de construí-la onde ela faltava. Ao longo do caminho dessa linha mais ou menos contínua, o JN cometeu erros, naturalmente. Poucos dias antes do primeiro turno das eleições de 2006, um erro memorável fez com que ele recuasse a patamares éticos inferiores à média registrada durante a campanha de 2002. A edição do dia 29-9-2006, uma sexta-feira, pode ser vista como a síntese de um desvio que se verificou de modo mais diluído no decorrer da campanha. Naquela noite, o JN fez proselitismo contra um dos candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva. Deixou de lado a imagem de apartidarismo que se lhe fez tão crucial e trocou-a pela eloqüência, ainda que contida, dos doutrinadores, ainda que discretos. [A observação da cobertura das eleições de 2006 me levou a reescrever parte deste prefácio. Deu-se o seguinte: uma primeira versão foi enviada à editora em fevereiro de 2006 e lá se encontrava para ser publicada, mas, diante do comportamento do telejornal quando da aproximação do primeiro turno, comportamento que me pareceu atípico, solicitei o texto de volta à editora e fiz nele vários acréscimos e modificações.]

Naquela noite, sexta-feira, 29 de setembro, foram ao ar as fotografias do dinheiro encontrado duas semanas antes com dois integrantes da campanha do PT dispostos a comprar um dossiê contra José Serra, candidato do PSDB ao governo do estado de São Paulo, no episódio que ficou nomeado como ‘o escândalo do dossiê’. Foi de fato um escândalo. Os petistas foram presos e o dinheiro, retido, num caso que se transformou, com justiça, num dos principais focos da imprensa durante a campanha de 2006. A sua cobertura exaustiva se tornou um dever ético do jornalismo político. As imagens das notas de dólares e reais (num total de R$1,7 milhão) não tinham sido divulgadas antes porque eram mantidas em sigilo pelo comando da Polícia Federal. Passados 15 dias das prisões, caíram nas mãos dos jornalistas por iniciativa de um delegado, também da PF, o mesmo que comandara a operação de apreensão das cédulas e dos seus portadores. O delegado, porém, quis se manter incógnito: ao ‘vazar’ as imagens, escondeu-se atrás de uma versão falsa, montada com o conhecimento de repórteres, de que as fotos lhe teriam sido roubadas.

Com pilhas e pilhas de dinheiro – esse ícone imbatível para representar corrupção no ordenamento sígnico da televisão brasileira –, aquela foi uma edição retumbante. Que, no entanto, soava estranhamente parcial, ou mesmo partidária. Deu-se uma onda de indignação em algumas parcelas da audiência. O JN recebeu, em seguida, pelo menos duas acusações pesadas. A primeira dizia que ele tinha sido conivente com a falsa história do delegado (a segunda tardará um pouco mais para ser aqui analisada). De poderoso efeito retórico, a primeira acusação acabou por se revelar discutível. Não é exatamente verdadeiro que o JN tenha reforçado a mentira do delegado. Na sexta-feira, ele não a reproduziu e também não a desmentiu: limitou-se a declarar que obtivera as imagens de uma fonte graduada da polícia, sem dizer que essa fonte inventara uma desculpa esquisita. Só no dia seguinte, sábado, 30 de setembro, véspera da votação do primeiro turno, identificou o delegado como o responsável pelo vazamento e informou corretamente que ele tinha mentido ao declarar que sofrera um furto. Se o JN errou na sexta, corrigiu-se no dia seguinte. Corrigiu-se a tempo.

Mesmo assim, errou na mão. Não por ter dado ouvidos, ou melhor, microfones, à trama fantasiosa do delegado. Isso não foi feito. O erro se apoiou no conjunto da edição daquela noite, que deixou no ar um claro desequilíbrio. Convém lembrar quais foram as peças estruturantes do jornal daquela noite. Após a reportagem sobre as fotos do dinheiro, com oito minutos e uns poucos segundos de duração, em que fontes da situação e da oposição tiveram direito de se manifestar, outra reportagem, igualmente extensa, tratou do debate entre os candidatos à presidência que se realizara na emissora na noite anterior. Nessa reportagem, Lula, que não tinha ido ao debate, levou a pior, inapelavelmente. Embora lhe tenha sido dado um espaço para se justificar, numa declaração feita no meio da rua, em meio às atribulações características do corpo-a-corpo das campanhas, as falas dos outros candidatos, em estúdio, em tom professoral e solene, revestiam-se de mais aparência de verdade, quase de juramento, e foram o bastante para condená-lo moralmente pela ausência.

Pouco mais adiante, os candidatos de oposição teriam mais uma vez o direito ao microfone, quando aquela edição do JN se aproximava do final. Os três principais candidatos de oposição – Heloísa Helena, Cristovam Buarque e Geraldo Alckmin – falaram novamente, agora flagrados em suas andanças de campanha. Tiveram, cada um, entre 17 e 20 segundos para se pronunciar sobre as fotografias do dinheiro, o dinheiro de novo. Uns apontaram ‘crimes’ no episódio. Ora, sabe-se que o porte de papel-moeda e a compra de informações, em si, não constituem obrigatoriamente crime, ainda que possam guardar conexões com crimes, mas o ponto não foi esclarecido ao telespectador. Com um agravante: nesse momento do telejornal, a ninguém da candidatura do PT foi permitida a palavra. Não se observou o contraditório. Ao fim da edição daquela sexta-feira, os apresentadores fecharam o programa desejando ‘bom voto’ um ao outro, dizendo ‘bom voto no domingo’ como quem diz ‘boa-noite’, e desejando ‘bom voto’ também para o Brasil. Ficou no ar, sem que ela fosse anunciada expressamente, uma reprovação ao candidato Lula – mesmo sem ter sido explicitada, essa reprovação foi inequivocamente composta no correr da edição. A antipatia a um dos candidatos mostrou-se aparente, maculando a imagem de isenção e imparcialidade que compõe a credibilidade jornalística. [Para essa perspectiva de leitura do noticiário, colaborou a pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da UnB, Liziane Guazina. Agradeço também a Aloísio Milani a revisão atenta, que me impôs diversas correções.] Foi um tombo. A edição de sábado, é verdade, reparou parcialmente a prática do vício do partidarismo, mas esse ainda voltaria, em doses menores e muito mais sutis, em edições logo após o primeiro turno.

Estudos posteriores revelarão onde mais o vício do partidarismo ficou exposto, quais foram as razões do desvio e quais foram os danos que disso resultaram à credibilidade do JN. Interpretar além daqui é mais difícil, mas não é impossível ensaiar elementos de um diagnóstico. É possível que, abandonado o manto do governismo do passado, o organismo tenha se dado por desgarrado, desprotegido, e tenha regurgitado um classismo ancestral, como que por reflexo, numa adesão descuidada a teses e a trejeitos discursivos dos representantes dos pactos mais convencionais de poder. Haveria, nesse caso, um comprometimento entre o programa da Globo e o velho poder político, que estaria apenas transitoriamente alijado do Estado.

Interessante, a esse respeito, é notar como, na edição do dia 29 de setembro, numa das passagens da matéria sobre o debate da véspera, o candidato Geraldo Alckmin é forçadamente chamado apenas de Geraldo, numa forma de tratamento que serviu de ressonância à campanha do PSDB. O leitor há de se lembrar que, na época, em seu horário de propaganda política na televisão e no rádio, o PSDB, partido de Alckmin, insistia em rebatizar seu candidato, antes conhecido pelo sobrenome difícil, com esse prenome, Geraldo, com o intuito de torná-lo mais familiar ao repertório popular. Nenhum outro veículo jornalístico se referia a ele pelo prenome, o que por sinal demarcava uma distinção entre o discurso jornalístico e o discurso publicitário; nenhum, só o Jornal Nacional. Do mesmo modo, não custa anotar, o JN, como outros veículos, permitiu-se fazer dueto com a campanha do PSDB, ao enfatizar diariamente o número de dias que já era passado da prisão dos envolvidos no chamado ‘escândalo do dossiê’ sem que – ou para que – essa ou aquela resposta para essa ou aquela pergunta tivesse aparecido. Claro que a passagem do tempo fazia parte da notícia, era preciso sublinhá-la, mas a enunciação da passagem dos dias, no JN, parecia não ter preocupação de se diferenciar do linguajar da publicidade política. Confundiu-se, desse modo, com a enunciação partidária da campanha do PSDB.

O movimento tem lá sua lógica. Tendo expelido de si a figura do senhor governamental, um superego (ou um mestre a quem servir) desalojado no caminho, o discurso do JN não teria superado a necessidade estrutural de um senhor, e foi buscá-lo noutro senhor, na oposição, como se não se visse autorizado a se pôr como fala no espaço público segundo sua própria autonomia. Como se não suportasse a solidão da independência. A esse novo senhor, oposicionista apenas transitoriamente, ele teria passado a servir pela satanização dos novos titulares do poder, transitoriamente postos aí, cujos deslizes denotariam ameaças remotas, mas potenciais, à ordem. Em outras palavras, ele teria embarcado, no susto e no escuro, num ‘antichavismo’ sem objeto, menos por premeditação e mais por força de um instinto preventivo. Isso, de todo modo, só se saberá no futuro. Por enquanto, não passa de uma hipótese débil. A se examinar melhor.

O avião que caiu no mesmo dia

De um jeito ou de outro, a edição do dia 29 de setembro incorreu nesse desvio, e o maior prejudicado pelo desvio – e talvez o único – acabou sendo o próprio JN. Sua direção teve de se explicar no calor de inúmeras polêmicas que se seguiram ao primeiro turno, em diversas publicações impressas e eletrônicas (e o modo como a discussão se alastrou foi um bom indicador da saúde do debate público no Brasil, que vai melhor do que costumava ir). Houve mesmo quem acusasse o telejornal de ter sonegado ao seu público a notícia da queda do avião da Gol, naquela mesma sexta à tarde, matando 154 pessoas, para com isso impedir que outro acontecimento de grande proporção rivalizasse em destaque com as fotos do dinheiro do dossiê. Essa, a propósito, foi a segunda acusação que o JN sofreu – só aqui chegamos a ela. Novamente, uma acusação ociosa e, não obstante, de imensa repercussão.

Rapidamente ficou demonstrado que, no instante em que o JN foi ao ar, não se dispunha de dados sobre o acidente, mas isso não dissipou as nuvens pesadas da suspeição pública. O JN foi crucificado. Naquela sexta-feira, o Jornal da Band deu a notícia no final de sua edição, e o fez em palavras telegráficas, de não mais que três linhas, lidas pelo apresentador. Não havia imagens, não havia comprovação oficial. Supor que essa nota telegráfica pudesse ter o poder de retirar um grama do impacto causado pelas fotografias das cédulas parece uma piada mórbida. Também no Jornal da Band, é bom saber, a manchete ficou a cargo das fotos do papel-moeda. O erro do JN na noite de 29 de setembro não foi ter omitido o acidente, nem ter protegido o delegado: o erro foi ter posto no ar uma edição tendenciosa – o que despertou desconfiança geral, mas uma desconfiança pouco elaborada: os desconfiados não sabiam apontar exatamente por que desconfiavam.

Alguns disseram que as fotos emergiram por força de um complô ‘das elites’ para ‘tentar melar’ o resultado das eleições. Os dias subseqüentes provaram que nada disso fazia muito sentido. Uma autoridade ‘vaza’ um dado confidencial a meia dúzia de repórteres sem se deixar identificar: isso não é complô; infelizmente, é a rotina do jornalismo pátrio, adepto do vale-quase-tudo em off. Depois, não se pode mais aceitar a tese de que a informação, se vinda em hora errada, atrapalha a democracia. A informação jornalística não tem contra-indicação: esse dado simplíssimo ainda não foi processado e assimilado pelos que caraminholam tramóias conspiratórias a cada nova notícia que adentra o espaço público. O problema da democracia não é o excesso de informação, mas a falta de informação. Informação não faz mal. A sua falta faz mal. O seu esquartejamento faz mal – noticia-se um pedaço e se esconde outro pedaço, de modo desonesto.

A notícia traz à luz um episódio incômodo? Não há problema. Quanto mais se fala de um episódio incômodo, melhor. No tempo próprio, os entendimentos serão decantados e o bom senso vai se reacomodar. Se há uma derrotada na experiência eleitoral de 2006, no Brasil, essa derrotada é justamente a veleidade daqueles que julgavam, à esquerda e à direita, que os meios de comunicação formatam unilateralmente a mentalidade do público. Saíram derrotados os que acreditavam no mito de que o sistema de comunicação admite a manipulação dos tolos pelos espertos. Não adianta: a verdade, ainda que precária, acaba aparecendo. No segundo semestre de 2006, foi isso o que vimos. Os (de)formadores de opinião perceberam, a contragosto, que não o são. Ou, ao menos, não são plenipotenciários em suas veleidades de formar a convicção dos demais. A opinião pública lhes escapa, e isso para o bem de todos.

Cadê a diversidade?

Num país que não lê, ou que lê pouco, a informação veiculada pela TV, a assumir a centralidade do campo jornalístico, aí comparece com tons melodramáticos e um andamento típico de entretenimento – o que é próprio da natureza da televisão e, sendo-lhe próprio, é quase inevitável. A inexistência de contrapartidas ou de contrapontos a esse tipo de modulação espetacular da notícia – inevitavelmente espetacular, vale repetir – é o maior gargalo para um ambiente mais equilibrado, mais universalizado e mais crítico no que se refere ao acesso à informação. Sem esses contrapesos, o jornalismo é menos debatido do que deveria ser.

A construção do sentido da informação jornalística requer a participação do cidadão tanto na sua confecção quanto no seu entendimento. O cidadão deve ser o protagonista e o receptor do jornalismo. A narrativa jornalística é, por definição, uma narrativa que se tece pela participação. Ela mobiliza mais que anestesia. Acontece que a televisão ou, para sermos minimamente específicos, a televisão segundo o modelo consagrado pela Rede Globo no Brasil, por mais que cultive valores como responsabilidade social, cidadania etc. – e ela os cultiva –, é insuficiente para a construção dessa narrativa social da informação. E ainda repousa sobre um trono com tintas de monopólio.

O texto escrito, seja ele impresso ou eletrônico, é vital. É preciso que existam redes em condições reais de competir entre si, o que contribui para um espaço público menos monolítico. O debate dos media, pela própria TV, também, claro, não pode faltar. A desconstrução em público do discurso jornalístico, sobretudo do discurso jornalístico tal como ele se põe na televisão, deveria ser um exercício regular. Para sorte do público, foi mais ou menos isso que se viu durante a cobertura eleitoral: o jornalismo virou notícia, pelos seus defeitos, não importa, ou pelos seus defeitos presumidos, também não importa, o fato é que virou notícia e, tendo virado notícia, virou tema de debate generalizado. Poucas vezes se discutiu tanto o jornalismo. Infelizmente, essa discussão ainda não é a regra entre nós, mas ainda ocorre como excepcionalidade.

Um país não se faz só de homens e livros, por certo, mas também não se faz apenas com uma emissora e uma multidão de telespectadores. É pouco. E estamos vivendo desse pouco. O Jornal Nacional tem se recuperado, um tanto aos tropeços, do seu déficit histórico de credibilidade, mas o Brasil ainda permanece em déficit no que se refere ao acesso à informação. É um acesso precário, quando existe. E, se algum existe, ele se deve em boa parte ao velho JN. Pontos para o JN – mas não é bom para ninguém que as pessoas se informem apenas por ele.

O telespectador vai tomar a palavra

Esta nova pesquisa antropológica de Isabel Travancas investiga a relação dos estudantes universitários do Rio de Janeiro com o carro-chefe do jornalismo da Globo. Por meio dessa abordagem nada usual, ela descortina um pouco mais o profundo e sólido enraizamento do JN na sociedade brasileira. Indo a campo, visitando a casa dos telespectadores, conversando demoradamente com eles, a pesquisadora encontra in loco os prós e os contras da centralidade do Jornal Nacional no universo da imprensa.

Primeiro, Isabel conseguiu que 264 alunos de cursos universitários respondessem a um questionário. Embora o conjunto não seja – como não pretende ser – uma amostragem adequada para conclusões estatísticas quantitativas, há resultados expressivos que podem tranqüilamente servir de pistas e de indicações. Do total dos que responderam ao questionário, 95,1% afirmam que assistem ao JN. Desses, nada menos que 60% costumam vê-lo todos os dias ou com freqüência. São 67,3% que declaram gostar do programa. Para 33,5%, ele é informativo. Para 8,7%, é tendencioso. Para 7,2%, é superficial.

O questionário, porém, foi apenas o primeiro passo da pesquisa que se estendeu por um ano. Graças a ele, Isabel encontrou 43 voluntários para serem entrevistados em profundidade. Selecionou 16 e, além de conversar com todos, assistiu ao lado deles, na casa de cada um deles, a mais de uma edição do noticiário. A partir daí, foi colhendo depoimentos, desenvolvendo observações e montando relações que descortinam um universo pouco conhecido do leitor (e telespectador) comum. A começar pela verificação empírica de que o programa é central não apenas no âmbito do espaço público brasileiro, o que soa um tanto abstrato, mas também no cotidiano dos universitários do Rio. ‘Eu me perguntava no início deste trabalho’, escreve a autora, ‘se os jovens assistiam ao Jornal Nacional e o que eu faria se, durante a pesquisa, descobrisse que eles não o vêem. Mas, aos poucos, não só fui confirmando o quanto o JN é uma referência também para eles, como ele é fonte de sentimentos os mais variados, que vão do amor ao ódio. Jamais de indiferença.’

No seu percurso, Isabel Travancas também tomou contato com as barreiras erguidas contra a universalização do acesso à informação no Brasil. Na vida concreta. Uma de suas entrevistadas, citada no livro como ‘L.’, estudante de Pedagogia, conta que gostaria de ter assinatura de um diário mas, no lugar em que mora, Cidade de Deus, ‘não entregam o jornal’. Assim, L. tem acesso a jornais na casa da vizinha, que os compra regularmente e ‘permite uma leitura comunitária’, ou no lugar em que trabalha. L. afirma gostar de ler e gostaria de ler mais, apesar dos obstáculos materiais que encontra. É alguém que se diferencia do meio em que vive, um meio condenado à desinformação, onde apenas a TV cumpre o papel de contar o que se passa no mundo. Isabel escreve que ‘ficou evidente, com a pesquisa, a supremacia da televisão sobre os outros meios de comunicação, ainda que esta hegemonia seja nuançada em relação às classes sociais’. Não pode deixar de concluir: ‘quanto mais pobre e com mais baixa alfabetização, maior o peso da televisão’.

Algumas outras sutilezas cortantes, sistematicamente ignoradas, comparecem a este estudo de modo suficientemente realçado. Por exemplo: o efeito de tranqüilizante do olhar que um telejornal pode ter. E tem. Há aqui o sinal claro de que a natureza dos telejornais guarda uma contradição congênita: informar é pôr em alerta e, muitas vezes, os telejornais, com o cardápio repleto de notícias, servem para o contrário. Eles divertem, pacificam, neutralizam, relaxam. Não mobilizam o público; em lugar disso, convidam-no a adormecer. Os próprios telespectadores, em seus depoimentos, classificam o noticiário como um programa de entretenimento. ‘Vários jovens acreditam que a televisão continua sendo fonte de prazer, diversão e relaxamento’, diz Isabel. ‘Dentro dessa perspectiva está enquadrado também o Jornal Nacional. Não é apenas a novela que é classificada como entretenimento ou forma de relaxamento da rotina estressante do dia-a-dia.’ Ela continua, mais adiante: ‘Não é à toa que alguns comentavam que, embora o jornal mostrasse muitas tragédias e notícias negativas, assistir a ele dava uma sensação de tranqüilidade. E comentavam que viam o JN também para relaxar de suas rotinas estressantes e corridas de uma grande metrópole.’

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O trabalho da antropóloga Isabel Travancas não vem para consagrar o Jornal Nacional, embora ela não negligencie os méritos consolidados desse grande telejornal. Sua perspectiva analítica ilumina sem paixão e sem partidarismos ângulos diversos da relação entre o JN e os universitários do Rio de Janeiro. Não fica só nisso. O passado do telenoticiário é fartamente discutido, de um modo tal que o leitor tem acesso a um balanço equilibrado do que ele representou na história recente do país. O presente é também examinado, num percurso que inclui uma visita à redação do telejornal, ao longo de um dia inteiro de trabalho, e uma longa entrevista com o âncora e editor-chefe do programa. Aqui, o leitor-telespectador descobrirá que não se apreciam índios que usam chinelo na edição final do Jornal Nacional. A consciência do formato acoplado à forma geral do espetáculo está presente, ela demonstra, o tempo todo, durante a confecção do programa. Do mesmo modo, essa consciência se manifesta nos núcleos de recepção que ela cuidadosamente visitou.

Aqui não devo me estender. Deixo a continuação para Isabel Travancas. Ou melhor: deixo a ela o que ela já tem, uma pesquisa original sobre os processos que definem o modo pelo qual se dá a recepção do Jornal Nacional entre integrantes anônimos do público. Às vezes, ir atrás de quem vê e ouve a notícia, postado diante da tela da TV, é mais vital do que ir atrás da notícia. Às vezes, só às vezes. Este livro registra de modo muito feliz e certeiro uma ocasião dessas. Com a palavra, Isabel Travancas. Com a palavra, o telespectador. Aqui, diferentemente do que vemos todo dia na televisão, o telespectador é o protagonista.

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Jornalista, crítico de televisão, doutor em ciências da comunicação pela ECA-USP