Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

‘Viúvas perigosas’ atacam outra vez

Dois assuntos quentes – um nobre, outro cheirando a baixaria – monopolizaram semana passada a atenção do mundo cultural mexicano, com chamadas de primeira página e matéria principal de suplementos literários: o Premio Cervantes, tido como o Nobel das letras espanholas, concedido ao escritor Sergio Pitol, e o lamentável incidente criado pela família de outro escritor, Juan Rulfo, na Feria Internacional del Libro de Guadalajara.

A premiação ao ex-diplomata mexicano Pitol, autor de uma ampla e bela obra narrativa, ensaística e tradutória, um mestre do estilo, foi divulgada sem provocar qualquer controvérsia ou mal-estar entre seus colegas e leitores. Terceiro mexicano a ganhar o prêmio concedido pelo Ministério da Cultura da Espanha (os outros dois foram Octavio Paz e Carlos Fuentes), Pitol, criador de uma fusão original de gêneros em um mesmo texto – narrativa ficcional, impressões de viagens, reflexão e ensaio – é uma das raras unanimidades nas enciumadas igrejinhas literárias do México, todas chegadas a picuinhas.

De fato, os integrantes do júri do prêmio destacaram o que consideram a ‘dimensão cervantina’ do escritor, pois, diz Victor García de la La Concha, presidente da Real Academia Española (RAE), ‘Pitol evoca muito a Cervantes porque toda sua obra, e fundamentalmente seu romance, é uma reflexão sobre a leitura, sobre os livros e sobre o que a literatura é e supõe na vida, e essa ‘dimensao cervantina’ foi valorizada pelo júri’.

Enquanto Pitol, que vive longe do burburinho da Cidade do México, em Xalapa, interior do estado de Vera Cruz, saía de seu isolamento e abria um enorme e cálido sorriso a repórteres, amigos e admiradores, ainda um pouco zonzo e deslumbrado com esse reconhecimento internacional (e os 90 mil euros que vêm junto!), a família do escritor Juan Rulfo, já falecido, uma das maiores figuras da moderna literatura mexicana, aprontava mais uma em sua conhecida sofreguidão – paranóia, na opinião de muita gente – para ‘proteger a obra do escritor’: exige, ou então vai à barra dos tribunais, numa ‘decisão bem meditada, irrevogável’, a retirada imediata do nome do autor no Premio de Literatura Latino-Americana e do Caribe Juan Rulfo.

O fantasma de Paz

O motivo alegado pela família – a viúva Clara Aparicio e os filhos Juan Francisco e Juan Pablo, devidamente orientados pelo presidente da Fundação Juan Rulfo, Victor Jiménez – é que o prêmio foi ‘infiltrado por certos grupelhos’ que só querem faturar prestígio com o nome de Rulfo. Eles não esclarecem quem faz parte desses grupelhos, só insistem, herméticos e mal-humorados, que se trata de gente que, no fundo, sempre desprezou a obra e até mesmo a pessoa do escritor.

‘É imoral portanto que continuem agindo como se fizessem um favor ao meu pai com esse prêmio, quando é todo o contrário, o prestígio ao galardão é dado pelo nome de Rulfo¨, diz o filho Juan Francisco.

Na verdade, tal comportamento reflete fundas mágoas e vaidades feridas passadas, que vêm desde quando estavam vivos Juan Rulfo e Octavio Paz, dois monstros sagrados da literatura mexicana, dois inimigos declarados que pelo menos uma vez chegaram aos tapas tal era o grau de suas divergências literárias e pessoais.

Gente próxima a Paz, os chamados pazianos (aí incluída a viúva Marie-José), que até hoje cultuam a memória do grande poeta e pensador, integram o júri do Premio e, por essa razão, teriam favorecido o poeta espanhol-mexicano Tomás Segovia, o mais recente contemplado, que também pertenceu ao grupo de Paz.

A essas acusações, delirantes para outros, soma-se uma mais surpreendente: a família se sentiu ofendida pelas declarações de Segovia, que ao referir-se a Rulfo em seu discurso de agradecimento, qualificou-o de ‘um escritor muito peculiar, um escritor misterioso, ninguém sabe por que tinha esse talento… Afinal, não teve uma vida deslumbrante, não foi um grande estudioso nem um grande conhecedor, ele simplesmente nasceu com esse dom extraordinário’.

Para a viúva e os filhos do escritor, Segovia simplesmente tachou Rulfo de ignorante, inculto. Assumido leitor apaixonado de Rulfo, Segovia ficou perplexo com a repercussão de sua fala, e justifica: ‘O que eu disse de Rulfo é o maior elogio que pode receber um escritor: ele tinha mesmo um dom especial, fora do comum. Não era desses que estudam muito, escreveu sua pequena e magnífica obra literária graças a esse dom particular¨.

O assunto, que logo virou escândalo e deixou paralisadas as autoridades culturais do México e da Feria de Guadalajara, vem provocando todo tipo de reações, incluindo as de ordem legal – indagações do tipo se a família de Rulfo pode realmente tomar medidas para impedir o uso do nome do escritor no prêmio. O próprio Segovia afirma que ‘é lamentável que a família considere o nome de Rulfo como próprio, quando é um nome que pertence a todos’.

O presidente da Sociedad General de Escritores de México (Sogem), Víctor Hugo Razcón Banda, apóia a posição da família de Rulfo e afirma que eles têm todo o direito de permitir ou não o uso do nome do escritor, embora o problema não esteja previsto na Lei Federal do Direito de Autor, mas ‘bastaria uma olhada no Código Civil, que fala dos atributos da pessoa e a personalidade’, diz Razcón Banda. ‘Um desses atributos é o nome que pertence ao ser humano. Daí ninguém tem o direito de usar um nome para nada, nem como marca, cidade ou prêmio.’

Contrato assinado

Para os observadores mais céticos da cena literária mexicana, a polêmica não tem lá maior novidade, pois não é a primeira vez que os filhos do escritor criam dificuldades e obstáculos a todos aqueles que se apresentam para pesquisar ou escrever sobre o famoso autor de Pedro Páramo e El llano en llamas.

Tudo isso se deve – confirma a este Observatório um escritor mexicano que prefere ficar no anonimato, ‘pois não quero nada com essa gente maluca’ – a um profundo e doentio ressentimento da família com episódios antigos nos quais Rulfo, um sujeito tímido, nada chegado a bate-bocas, viu-se indefeso diante de estrelas mais agressivas e contundentes, como Octavio Paz, que não levava desaforo para casa e respondia no ato a provocações, até mesmo as imaginárias ou de pouca monta, e de forma ainda mais virulenta.

Rulfo, por exemplo, teria sofrido muito com boatos espalhados nos meios culturais garantindo que outro escritor importante na época, seu amigo Juan José Arreola, resolvera e escrevera o final de Pedro Páramo, que completa agora 50 anos de sua publicação.

Se a fofoca, infame, tem ou não procedência, o fato é que os filhos de Rulfo não perdoam e de modo geral não se têm mostrado receptivos a divulgação póstuma de aspectos da obra do pai – exegeses, dissertações de mestrado ou teses de doutoramento e biografias. Só aceitam o que autorizam expressamente, e isso depois de muito inquirir e questionar as intenções dos interessados.

E quando alguém se atreve a sair dos parâmetros determinados pela família (por exemplo, referencias ao alcoolismo e os estados depressivos do escritor são censuradas), logo sente os efeitos de campanhas de desprestigio, corte do nome em eventos importantes relacionados com Rulfo, telefonemas ou cartas de protesto, súbita desaparição de recomendações.

Registrados também estão os desentendimentos com as editoras das obras de Rulfo, entre elas o importante Fondo de Cultura Económica, que depois de 40 anos editando os dois livros do ‘maestro’ perdeu os direitos de autor, em seguida cedidos por pouco tempo ao selo Plaza y Janés, da multinacional Random House Mondadori, e agora nas mãos da pequena espanhola RM, via a intermediação da célebre agente literária Carmen Balcells. Os dois livros foram apresentados na Feria de Guadalajara com os textos definitivos, depois de cotejadas diversas edições e corrigidos erros menores, com base também em anotações do próprio autor nos originais datilografados, incluído o uso de vírgulas e aspas, com as quais Rulfo, meticuloso, se preocupava muito.

Terá sido provavelmente a opinião do editor catalão Jorge Herralde, dono da prestigiosa Anagrama, na Feria de Guadalajara, o melhor resumo do affair Rulfo. Diz ele, dando nomes aos bois – atitude que os mexicanos, mais cautelosos e retraídos, preferem evitar, na base do não me comprometa: ‘Existe uma receita para evitar que as ‘viúvas perigosas’ restrinjam a difusão da obra de um escritor ou que inclusive tentem fazer do nome ou da imagem uma marca registrada: isso se resolve mediante um contrato’.

E entrega os nomes:

‘Há uma lenda negra de viúvas, que talvez não seja tão lenda assim: temos aí os casos de María Kodama, com Jorge Luis Borges; de Cicita Calvino, con Italo Calvino; de Marina, com Camilo José Cela, que têm fama de ‘viúvas perigosas’. Mas assim é a vida. O ideal seria que os herdeiros fossem sempre sensatos e pensassem na perdurabilidade da obra de seu familiar’.

Na Espanha, diz Herralde, tudo se faz preto no branco, com um contrato, sobretudo quando o autor ainda está vivo. Essa providência, conta, foi o que poupou de maiores dores de cabeça a editora Seix Barral na azeda briga que teve com a família do escritor chileno Roberto Bolaño, insatisfeita com a capa da reedição do livro La literatura nazi en América, sobre a qual não foi consultada. A resposta do editor da Seix Barral, Adolfo García Ortega, a Carolina López, viúva de Bolaño, foi direta: ‘Como há um contrato assinado pelo escritor com a editora, não precisávamos pedir a opinião de ninguém para fazer nosso trabalho, a familia incluída’.

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Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México