Sunday, 07 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Ecossistema de jornalismo local da Região Sul apresenta fragmentação com blogs e veículos nativos de redes sociais

(Imagem: Atlas da Notícia)

  • Iniciativas nativas digitais emergentes se caracterizam por equipes enxutas ou solo
  • Região ainda concentra grande proporção de veículos analógicos, apesar de tendência de migração digital
  • Os três estados têm alta densidade de veículos por habitante, apesar de pouco mais da metade dos municípios serem desertos de notícias
  • Paraná lidera em veículos digitais, enquanto RS se destaca em estações de rádio. Santa Catarina tem maior proporção de impressos

 

O jornalismo local brasileiro tem se voltado ao digital para sobrevivência. A quarta edição do Atlas da Notícia identificou nos estados da Região Sul um aumento na quantidade de veículos digitais. No total, são 939 veículos online identificados na região, 197 a mais do que na última edição, o que indica uma tendência de adoção do meio online para a distribuição de notícias locais. Hoje, iniciativas digitais perfazem 28% dos veículos do Sul. No levantamento passado, a proporção era 23%. Em termos gerais, no entanto, veículos impressos e estações de rádio ainda são os mais frequentes no panorama de iniciativas do Sul do Brasil. Relembre-se que não necessariamente esses veículos surgiram em 2020, mas sim apareceram no radar do Atlas, seja por atenção maior a uma região ou uma profissionalização maior de sua atuação.

Os veículos digitais estão bem dispersos pelos três estados, mas o Paraná se destaca. Lá, 423 veículos deste segmento perfazem 36% do total, índice acima daqueles do Rio Grande do Sul (23%) e de Santa Catarina (24%). Além de uma aceleração nos veículos digitais da capital, Curitiba (em que, em anos recentes, a Gazeta do Povo, maior jornal diário da região, abandonou a edição impressa em favor da digital), nota-se um crescimento dos veículos digitais no interior do estado, numa trajetória de descentralização, em todas as regiões.

O Paraná e o Rio Grande do Sul demonstram ainda uma presença marcante de blogs ou veículos nativos de redes sociais – de 423 veículos digitais paranaenses, 32% se enquadram nesta categoria, que demonstra experiências mais iniciantes e normalmente vinculadas a apenas um funcionário. O Rio Grande do Sul acompanha com 30%. Santa Catarina, por sua vez, tem uma proporção de 16% de veículos nesta categoria frente ao total de iniciativas digitais.

Os veículos jornalísticos digitais do interior da Região Sul costumam seguir um padrão similar, embora haja variedade. Normalmente são equipes pequenas, de até cinco integrantes, com uso constante de redes sociais e uma combinação de republicação de conteúdo estadual ou nacional com a publicação de conteúdo original local. A presença de redes sociais desses atores acabou se concentrando em principalmente três plataformas: Facebook, Instagram e WhatsApp, este último principalmente como canal de contato do público com a equipe. Nota-se também como o Twitter perdeu a relevância ao longo do tempo. Dos poucos veículos locais que o utilizam, a maioria não atualiza mais o perfil.

De acordo com o verificado ao longo das avaliações das submissões ao Atlas, os veículos digitais ainda são altamente dependentes da publicidade, com poucos deles estabelecendo outras fontes de renda. Embora os sinais da pandemia ainda não sejam vistos diretamente na base, esta relação forte com a publicidade tende a ser perigosa a médio prazo, com as fontes de financiamento de jornalismo se diversificando ao redor do mundo.

De qualquer forma, o crescimento e profissionalização das iniciativas digitais no sul do Brasil fomenta inclusive novos tipos de organização, como a Associação dos Portais de Notícias Independentes do Interior do RS, um tipo de agremiação que, embora ainda incipiente, deve se tornar mais comum com o passar do tempo.

Três veículos digitais do Sul do Brasil que demonstram o potencial positivo do jornalismo local são, por exemplo, Casa de Notícias, de Toledo, PR; Revista Artemísia, de Chapecó, SC; e Qwerty, de Dom Pedrito, RS. Embora cada um tenha seu foco e se diferenciem em diversos pontos, são exemplos de produção focada em locais interioranos que souberam se atualizar frente a possibilidades digitais.

Região concentra alta densidade de veículos

Em termos absolutos, o Rio Grande do Sul lidera em quantidade de veículos com 1.283. É seguido de perto pelo Paraná, com 1160. Já Santa Catarina, que possui uma população menor, apresenta 872 veículos jornalísticos.

Falando de todos os quatro segmentos monitorados pelo Atlas, o Rio Grande do Sul lidera proporcionalmente em estações de rádio, com 38% (seguido pelo Paraná, com 32% e SC, com 26%). Já Santa Catarina, o estado com menor número absoluto de veículos, se destaca pela proporção de jornais impressos: compõem 45% do total, ante 32% no Rio Grande do Sul e 24% no Paraná. A Região Sul do Brasil é a que mais concentra proporcionalmente veículos impressos, sendo eles 33% do total, o Sudeste logo atrás com 31%. Ainda em termos proporcionais, é a região que menos apresenta iniciativas digitais, com apenas 28% delas, índice muito abaixo do Nordeste, por exemplo, que tem 43%. Isto demonstra que ainda há uma centralidade grande da mídia analógica na oferta de informação dos sulistas, inclusive com certa dificuldade de migrar para o online, embora este movimento já seja identificável no Atlas.

A Região Sul congrega 3.315 veículos jornalísticos, ou 25% do total do Brasil. Como reúne 14% da população brasileira, representa uma concentração de veículos proporcionalmente alta. Os três estados do Sul se destacam também pela alta densidade de veículos por habitante. Neste quesito, Santa Catarina aparece em 4º lugar nacional, com 14,7 veículos a cada 100 mil habitantes, com o Rio Grande do Sul logo atrás, em 5º, com 13,6 iniciativas por 100 mil habitantes. O Paraná, com 12,1, fica um pouco atrás, mas ainda em 7º lugar. Esse padrão pode ser resultado de altas médias dessas três unidades federativas no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). No ranking nacional, os três mantêm respectivamente as mesmas colocações que no índice anterior: 4º, 5º e 7º. É difícil, no entanto, precisar o que exatamente motiva a concentração de veículos. Porém, o Paraná também é aquele que reúne mais veículos na capital, Curitiba, com 22% do total do estado. Porto Alegre tem 14%, e Florianópolis, 10%. Isso significa que os veículos jornalísticos do Paraná acabam ficando mais concentrados na capital, principalmente por conta do ecossistema forte de jornais de bairro de Curitiba, enquanto nos outros estados há, proporcionalmente, uma movimentação maior no interior. Ainda assim, o Paraná é o único estado da Região Sul com mais um município entre os 30 com mais veículos, sendo este Londrina, com 40.

Fechamentos e desertos são constantes

Mas nem tudo são flores no jornalismo do Sul do Brasil. Os desertos permanecem endêmicos na região. Pouco mais da metade dos municípios (54,5%) são considerados desertos de notícia, ou seja, aqueles em que não há um veículo jornalístico presente. Em termos absolutos, são 649 cidades que não têm acesso a notícias locais, com todos os prejuízos para a vida em sociedade que isto pode trazer. É um número maior do que todos os municípios do Rio Grande do Sul somados. Embora ainda seja uma proporção altíssima, em comparação com as outras regiões do Brasil, esse índice demonstra boa posição nacional. Se trata da segunda região com menos desertos, atrás apenas da Centro-Oeste (que é grande em extensão, mas tem menos municípios), com 34,5%, e próximo da Sudeste, com 58%.

As áreas sem cobertura jornalística local estão dispersas pelos três estados em proporções similares. O Rio Grande do Sul lidera com 57%, mas é seguido de perto por Paraná (53%) e Santa Catarina (52%). Na comparação nacional, os três estão entre os 50% de estados com menos desertos.

Pandemia dificultou mapeamento

O levantamento da Região Sul do Atlas da Notícia foi possível apenas com a participação de dezenas de voluntários interessados em ajudar a mapear o jornalismo local. Por conta da pandemia e das medidas de isolamento social, no entanto, eles também tiveram dificuldades em adequar suas rotinas e continuar colaborando com o mapeamento. Em algumas situações, como os alunos estavam em casa e não nas universidades, não dispunham de telefone para contatar os veículos, se limitando ao contato online. Por outro lado, por vezes os estudantes haviam regressado aos seus municípios de origem, facilitando a interação com veículos de outra forma mais distantes. Esse tipo de movimentação contribuiu para aprimorar a capilaridade do Atlas nesta edição. Ao mesmo tempo, a sobrecarga emocional e de trabalho em vários alunos, por conta da pandemia e da migração das aulas para o modelo online, dificultou um resultado ainda melhor, sendo necessária uma busca mais intensa por voluntários.

Os dados completos da Região Sul, assim como de todo o Brasil, estão disponíveis para outras análises do público. Dê uma olhada você também!

O levantamento da Região Sul teve a participação de 68 voluntários, sendo 48 estudantes universitários de graduação, três de pós-graduação, sete professores e 10 jornalistas autônomos.

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Marcelo Fontoura é jornalista com experiência em produtos digitais, estratégia digital e startups. Professor de jornalismo digital e de dados na PUCRS. Doutor em Comunicação Social com estágio de doutorado-sanduíche na Northwestern University. Pesquisa novas definições do jornalismo na internet. Foi Fellow do International Center for Journalists em 2015. Atualmente, é avaliador de novas iniciativas de checagem de fatos na International Fact Checking Network, do Poynter Institute, e coordenador de pesquisa da Região Sul do projeto Atlas da Notícia.

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Colaboradores

Colaboraram na quarta edição do Atlas da Notícia os seguintes voluntários:

Adriana Brum
Adriana Palumbo
Alan Wiliam Cavalieri dos Anjos
Alessandra da Veiga Nimer
Amarildo Volpato
Ana Carolina Reolão Stobbe
Anna Carolina Roque Furlanetto
Barbara dos Santos Zanoni
Barbara Wagner Horst
Bruna Tkatch Pereira
Carolina Almeida Ghilardi
Cláudia Regina Pavão Silva
Cristiane Lindemann
Eduarda Ferreira da Silva
Eduardo Magnus Chaves
Emilly Danielle Martins de França
Evellyn Ribeiro Schulze Santos
Fabrine Fiss Bartz
Felipe Conte Rocha
Franco Iacomini
Gabriela Ukracheski de Souza Peixoto
Gabriele Aparecida de Moraes
Giovanna Bettini
Heloísa Krzeminski
Heryvelton Martins
Isabelle da Silva Marinho
Isadora Castro Nolf
Jéssica Procópio
Joyce Heurich
Julia Haas Kroth
Julia Leão
Julia Sansana
Juliana dos Santos Mews
Ketllyn Brenda dos Santos
Leonardo Berto de Barros
Leonardo de Paula Pereira
Leonardo Duarte
Luan Lopes Turcati
Luana Neves
Lucas Picarelli Canever
Lucas Reichert
Luís Paulo Müller Schmitt
Luisa Monteiro Roman
Luiz Gustavo dos Anjos Gallas
Margarida Cristina Goldschmidt
Maria Catharina Lavorski Edling
Maria Eduarda Bastos de Brito
Maria Paula Neiman
Mariana Real Rodrigues
Marília Crispi de Moraes
Marina Lisboa Empinotti
Marina Vasques Oliveto
Matheus Luiz Antunes Trevizan
Matheus Rolim
Mirella Tavares Joels
Muriel Emídio Pessoa do Amaral
Neivo Angelo Fabris
Nicoly Bruna Chemilowski Borges
Paula Melani Rocha
Rafael Vanny Bento
Raíssa Gomes Figueiredo
Ramon da Silva Oliveira
Raquel Longhi
Renata Lages A Eberhardt
Roberta Roos Thier
Vanessa Pereira de Souza
Vivian Faria
Wellington Felipe Hack

Com o apoio das seguintes instituições:

Faculdade Ielusc
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro)
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)
Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac Lages)
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Universidade Federal do Pampa (Unipampa)