Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Jornalismo digital reduz abrangência de desertos de notícia

  • Quarta versão do Atlas da Notícia em 2021 identifica 1.170 novos veículos digitais
  • Veículos digitais são agora a segunda maior categoria no Brasil, atrás apenas de rádios
  • Mídia impressa apura fechamento de 200 veículos
  • Desertos de notícia encolhem 5,9%, num total de 3.280 municípios
  • População em desertos de notícia tem queda de 9,6%, para 33,7 milhões de habitantes

 

O surgimento de pequenas iniciativas digitais no Brasil nos últimos anos ajudou a preencher espaços carentes de presença de jornalismo local, os chamados desertos de notícia, à medida que o número de veículos impressos encolheu significativamente, de acordo com o mais recente levantamento do Atlas da Notícia.

Todas as regiões registraram 1. queda no total de desertos de notícias (-5,9% em municípios e -9,6% na população desses desertos) e, ao mesmo tempo, 2. aumento no número de veículos digitais catalogados (+1.170 em todas as regiões combinadas), com destaque para o Nordeste.

Nos levantamentos anteriores, o Nordeste era a região com o maior número proporcional de desertos, levando em conta proporção sobre o total de municípios. No último levantamento, de 2019, 73,5% das cidades da região não tinham veículos catalogados na pesquisa. Agora, em 2021, esse percentual caiu para 66,3%, fazendo o Nordeste superar o Norte, onde 69,8% dos municípios são considerados desertos de notícia na classificação do Atlas da Notícia.

Além de sites de notícia, a partir de 2019 passaram a ser considerados na categoria digital também iniciativas nativas de redes sociais e blogs individuais de notícias — considerados veículos não tradicionais, mas que ajudam a informar comunidades com um baixo custo de operação e manutenção. Essa categoria representa um terço de todos os veículos digitais cadastrados no levantamento. No Nordeste, o percentual é ainda maior: 66%.

O Atlas da Notícia é a maior pesquisa nacional de dados abertos sobre o jornalismo brasileiro e chega, em 2021, à sua quarta edição. O levantamento, que conta com uma equipe de cinco pesquisadores regionais e cerca de 330 voluntários, ampliou em 10,6% o número de veículos jornalísticos registrados na base, chegando a um total de 13.092 iniciativas. A última edição foi publicada em dezembro de 2019.

Vale notar que, por possuir um acervo tão grande atualizado anualmente, mudanças nas composições de desertos de notícias podem demorar algum tempo para serem refletidas em nossas análises. Por conta da ausência de documentação, ainda é muito difícil identificar a data de criação e também de fechamento de muitos veículos, especialmente fora das grandes cidades. Dessa forma, mesmo com veículos criados e fechados há mais de um ano, só depois de validação é possível identificar reflexos desse cenário digital.

(Foto: Atlas da Notícia)

Fechamento de veículos

Além da inclusão de novos veículos na base, foi identificado o fechamento de 602 veículos de jornalismo no Brasil nos últimos 30 anos, sendo 61 apenas em 2020. Desde 2010, deixaram de circular mais de 350 iniciativas jornalísticas no Brasil (uma média de 32 por ano). O número pode ser ainda maior: como explicado, há pouquíssima documentação sobre encerramentos de atividades de veículos fora dos grandes centros urbanos, torna-se muito difícil identificar todos fechamentos e muitas datas.

Os principais fechamentos de veículos foram de impressos (395), seguidos de online (173), rádio (25) e TV (9). Com algumas exceções, os registros começam a partir do ano 2000.

(Foto: Atlas da Notícia)

Desertos irrigados?

O número de municípios sem registro de cobertura noticiosa local caiu 5,9% em relação à última edição do Atlas, e agora totaliza 3.280 desertos. Essas localidades possuem, em média, 6.900 habitantes.

De toda forma, mesmo com a animadora redução no número de municípios sem cobertura noticiosa local, ainda há 33,7 milhões de pessoas (15,9% da população) vivendo nesses desertos, que possuem, em média, 10.200 habitantes.

A redução de 9,6% sobre o levantamento anterior no número de brasileiros em desertos de notícia, no entanto, chama atenção para outra questão: os chamados quase desertos — municípios que possuem apenas um ou dois veículos . Como muitos municípios passaram a ter iniciativas jornalísticas cadastradas na base, essa categoria teve alta de 5,3% no número de habitantes que vivem nesses locais, totalizando 28,9 milhões (13,7% da população).

Os quase desertos representam uma questão importante porque, além do risco mais alto de se tornarem desertos, a qualidade do jornalismo nesses locais pode ser afetada por falta de concorrência e transparência.

Combinados, desertos e quase desertos de notícias representam 29,6% da população brasileira.

(Foto: Atlas da Notícia)

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Sérgio Spagnuolo é jornalista, Knight Fellow pelo ICFJ e fundador da agência Volt Data Lab. No Atlas da Notícia, atua como coordenador de dados e análise.