Saturday, 02 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A falta de cobertura sobre os efeitos colaterais do “progresso”

(Foto: Labeurb_Unicamp)

Muitos veículos publicaram nesta semana notícias contando qual era a situação de Brumadinho cinco anos depois do rompimento da barragem de rejeitos da empresa Vale, aproveitando a rememoração do acontecimento, que completa cinco anos neste 25 de janeiro. Contudo, algumas matérias, como a do Uol e a do Valor Econômico, tratam dos avanços realizados pela mineradora em termos de organização nas buscas das vítimas ainda não encontradas, dos programas realizados e, sobretudo, dos montantes já desembolsados para reparação da tragédia, que vitimou 270 pessoas, duas delas grávidas. Em ambos os casos citados, na nota de rodapé, consta a seguinte informação: “a jornalista viajou a convite da Vale”.

Embora seja papel do jornalismo ficar atento ao desenrolar dos fatos e as efemérides costumam ser usadas como ganchos para pautar novamente o tema no debate público, tais notícias evidenciam o ponto de vista da empresa causadora do crime. Os questionamentos e efeitos negativos em cascata, ainda visíveis em Brumadinho, são minimizados em prol dos feitos daquela que segue lucrando a partir da destruição.

Na matéria do Valor Econômico, com 12 links que destacam o nome Vale, apresenta-se a narrativa de como o processo está bem encaminhado: “Erramos sim, mas o objetivo é tentar acertar para evitar novas tragédias. Dentro da reparação, tudo vem sendo construído com as comunidades”, afirmou Gleusa Jesué, diretora de reparação da Vale.” Outra fonte ouvida nesta notícia é Flávia Soares, gerente de fomento econômico da reparação da empresa, que também apresenta aspectos positivos do processo de reparação, que, é sempre bom recordar, é uma obrigação legal.

A jornalista dá espaço para Josiane Melo, integrante da diretoria da Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos da Tragédia do Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), porém o foco escolhido é a responsabilização de outros, neste caso o ex-presidente da Vale Fabio Schvartsman e a consultoria Tüv Süd. Por fim, o texto destaca a influência econômica que a mineradora segue tendo na cidade devastada: o Programa de Transferência de Renda (PTR) “traz para a região aumento de 50% na renda familiar”, demonstrando o impacto da empresa sobre os recursos do município.

De outra forma, na coluna de Eliane Trindade, da Folha de S. Paulo, a cobertura destaca os impactos sociais, ambientais e econômicos, relatando o adoecimento físico e psicológico de moradores, o inchaço populacional e a elevação do custo de vida em Brumadinho. Neste texto critica-se a divulgação dos valores pagos como indenização como sendo algo descolado das perdas e que geraria ganância. Além disso, pontua-se que PTR, chamado de “bolsa tragédia”, representa mais de 20% do PIB de Brumadinho, sendo uma renda indispensável para boa parte da população que vive uma realidade bem diferente do contexto pré-rompimento, ainda que tenha previsão de acabar em 2025.

O texto evidencia o processo de vulnerabilização da população que segue sobrevivendo às consequências do desastre. Uma das faltas trazidas pela jornalista resume: “É uma cidade doente em vários sentidos. É doente economicamente, pela dependência, e mentalmente, porque o luto se espalha de forma grave”. Tal situação, onde os interesses econômicos encobrem os reais problemas e o progresso é representado como algo inevitável, que requer certos sacrifícios (quase sempre daqueles que nada ganham com o aumento do PIB), deve ser visibilizada pelo jornalismo, uma profissão orientada para o interesse público.

Esse sistema que privilegia o lucro de poucos à custa do sofrimento de muitos se repete em vários cantos do Brasil. Desde 2018, mais de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas devido ao risco ‘iminente’ de desabamento da mina de sal-gema da Braskem, localizada em Maceió (AL). Tremores de terra, rachaduras, afundamento do solo entre dez centímetros e um metro e meio fizeram com que cinco bairros do município sucumbissem.

Como uma tentativa de remediar o irremediável, a Braskem já havia efetuado cerca de 18,5 mil pagamentos até outubro de 2023, totalizando R$ 3,85 bilhões em compensações por danos materiais e auxílios financeiros. Em média, cada pagamento realizado equivalia a aproximadamente R$ 207 mil. No entanto, considerando despesas cartorárias e honorários advocatícios, o valor líquido recebido pelas famílias é estimado em torno de R$ 113 mil.

De acordo com as famílias afetadas, os valores não têm sido justos e são insuficientes para reparar os danos causados. Segundo elas, o baixo valor recebido tem obrigado as pessoas a morarem em lugares mais distantes, periféricos e com infraestrutura deficitária, forçando até mesmo o deslocamento de famílias para outras cidades. No documentário “A Braskem passou por aqui: a catástrofe de Maceió”, lançado em 2021, moradores dos bairros atingidos relatam que não se sentiram ouvidos pela imprensa. “A Globo veio fazer ‘materiazinha’ de seis minutos, mas tem que fazer uma coisa ampla. […]. Talvez seja porque a empresa seja muito poderosa”, disse um dos moradores.

A omissão da imprensa local no caso Braskem demonstra bem como o respeito ao meio ambiente e à dignidade das pessoas pode ser relativizado quando há vantagens econômicas em jogo. Esse foi um dos assuntos mais comentados no final do ano, mas deve seguir na mira de jornalistas, afinal o risco de novos afundamentos é iminente, trazendo uma série de prejuízos que seguem sendo negados pela Braskem.

A Rádio Novelo publicou nesta semana um episódio sobre o que muitos chamam de “maior tragédia urbana do mundo”, contando como, desde a década de 1970, o setor consegue impor suas versões por meio do poder econômico. O rastro deixado pela Samarco em Mariana, pela Vale em Brumadinho e pela Braskem em Maceió são crimes socioambientais entendidos quase como um “efeito colateral” de um “progresso” a ser alcançado. Em um cenário em que a busca incessante pelo lucro muitas vezes resulta em impactos negativos para milhares de pessoas, para a fauna e flora, o jornalismo tem como responsabilidade ouvir e amplificar as histórias, os desafios e as resistências das comunidades afetadas.

Ao fornecer um espaço para essas vozes, o jornalismo não apenas informa, mas também sensibiliza o público sobre as realidades enfrentadas por aqueles que vivem nas proximidades de áreas de mineração (ou outras atividades poluidoras). Se o interesse público é pressuposto da prática jornalística, é inquestionável que sejam priorizadas as dimensões reais das consequências da exploração desmedida que afeta as diversas formas de vida. O uso prioritário e recorrente do enquadramento econômico, baseado em números e a um suposto “desenvolvimento”, colabora para a naturalização de zonas de sacrifício e o apagamento das injustiças ambientais.

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Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.