Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Mercadores de informação

Não é inédita a proposta do Center for Science in the Public Interest (CSPI) para que os jornalistas incluam na apresentação de suas fontes a informação sobre os possíveis conflitos de interesses [veja remissão abaixo]. Muitas revistas científicas exigem esse procedimento porque está comprovado que, no mundo da pesquisa científica, há para pesquisadores e/ou instituições receberem capitais privados: certos resultados são divulgados, outros não.

Mas, na mídia, deixar de apresentar uma fonte como o ‘Dr. Genius, da Harvard University’, e cravar ‘Dr. Genius, da Harvard University que recebe dinheiro da Coca-Cola’ é, em minha opinião, ingênuo, ineficaz e impraticável.

É verdade que os títulos e os nomes enganam. Não é fácil de se imaginar que o CSPI, uma instituição com um nome tão ambicioso (que em português seria algo com ‘Centro para a ciência de interesse público’) seja apenas uma organização antifast-food. Quem visitar sua página na internet (www.cspinet.org) verá que sua principal campanha – denominada ‘Trans Free América’ – não busca a liberdade em todo o território americano, mas a proibição de alguns óleos de uso habitual na fabricação de bolachas, por exemplo.

Mas devemos esquecer o mensageiro e comentar a mensagem. 

1. A ação é ingênua porque sempre alguém estará tentando vender alguma coisa em todo momento. Às vezes oferecem algo de interesse para o leitor, mais às vezes não. É preciso ficar atento o tempo todo. Há interesses ocultos em todas as áreas: científica, política, empresarial e jornalística. As pessoas nas quais o nível ético não está à altura de sua competência profissional conformam uma espécie de sucesso.

2. É ineficaz porque receber recursos privados não implica que o pesquisador não tenha limites éticos, e tampouco é verdade que é ‘puro’ aquele que não os aceita. Nos países nos quais a ciência não ocupa o lugar que merece nos orçamentos públicos, e que as contas do Estado estão com freqüência sujas de corrupção, interesses partidários e ideologias, isto é fácil de entender.

3. É impraticável porque inútil como método para destacar as pessoas que podem dizer mentiras. O dinheiro pode ficar a nome de outros, ser repassado por intermédio de uma fundação, ser usado só para comprar bilhetes aéreos, equipamentos etc. E os auditores não vão achá-lo.

Missão impossível

Caso o jornalista fale dos interesses do pesquisador científico, deveria também fazê-lo em relação às ONGs e até às celebridades. Ou alguém acaso pensa que eles não recebem benefícios a troca de exposição na mídia?

A proposta do CSPI é só um método para limpar a consciência. Mas o jornalista tem que deixar de ser só um amplificador de informação alheia – isto, nas empresas, chamam de porta-voz.

A boa prática jornalística exige fazer a seleção e valoração da informação antes de divulgá-la. Isto significa, consultar distintas fontes, comprovar se as conclusões derivam dos dados apresentados, confrontar opiniões, aprofundar os interesses que entram no jogo e se perguntar sobre os efeitos possíveis da publicação.

Todo dia alguém vai tentar nos enganar. Felizmente, alguém pode enganar a algumas pessoas por muito tempo, ou a muitas pessoas por pouco tempo. Mas não e possível enganar a todos o tempo todo.

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Bióloga e jornalista especializada em saúde