Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Escolhas políticas em Berlim: lições para o Brasil

Mohammad Rasoulof. (Foto: Wikimedia)

O festival confirmou sua natureza política. O Urso de Ouro concedido ao filme iraniano Não há nenhum mal, de Mohammad Rasoulof, confirmou essa preocupação. O filme brasileiro Todos os mortos poderia ser uma opção se não houvesse o filme iraniano, mas não conseguiu ter a penetração esperada junto à crítica e nem junto ao júri, mesmo havendo ali um brasileiro, para obter algum prêmio.

Teremos de nos habituar a uma nova realidade: com as atuais dificuldades criadas aos produtores de filmes, haverá, a partir de agora, uma diminuição de títulos brasileiros nos festivais. Mas é verdade que, a exemplo do que aconteceu durante os anos da ditadura militar, os filmes brasileiros terão apoio no exterior, seja dos festivais, de distribuidores e da imprensa.

O balanço final desta Berlinale é magro para o Brasil: dos dezoito filmes levados às diversas mostras, só um foi premiado, Meu nome é Bagdá, da cineasta Caru Alves de Souza, na mostra Geração 14Mais. Porém, o público lotou geralmente as salas com filmes brasileiros.

Foi o caso do filme de adolescentes Alice Júnior, também na mostra Geração 14Mais, com standing ovation no cine Urania por mais de cinco minutos. Dirigido por Gil Baroni e já com sucesso no Brasil, tem no papel principal Anne Celestino Motta, a vida e alma do filme, no papel da trans Alice, na verdade Jean Genet no registro civil.

Os filmes focando histórias LGBTQ terão ainda maiores dificuldades para realização no Brasil, dadas a homofobia e a transfobia declaradas do presidente Bolsonaro e dos pastores evangélicos.

(Foto: Divulgação 70ª Berlinale, filme “Le Sel des Larmes”)

O amor na classe operária

Um filme francês não premiado me chamou bastante a atenção: foi O sal das lágrimas, do realizador Philippe Garrel. Histórias de amor em preto e branco de um jovem do interior da França, Luc, vivido por Logann Antuofermo, um novo ator que surge.

A importância desse filme é mostrar um quadro operário. Luc é filho de um carpinteiro que deseja se aperfeiçoar na marcenaria e vai a Paris para um curso. Mostra a vida e as dificuldades do pessoal que trabalha sem as lantejoulas dos filmes americanos, nos quais amor vem geralmente misturado com personagens de classe média para cima.

O sal das lágrimas é um filme romântico à maneira dos anos 1950/60, no estilo de filmes de Godard e Truffaut, incluindo mesmo o triângulo amoroso consentido. Mas nossa época não está para o romantismo e muito menos para amores entre operários. Passou despercebido.

(Foto: Divulgação 70ª Berlinale, filme “There is no evil”)

Urso de Ouro iraniano é sobre a pena de morte

O iraniano There is no evil (Não há nenhum mal), filme crítico da pena de morte no Irã, ganhou o principal prêmio da Berlinale, o Urso de Ouro. Mas seu diretor, o iraniano Mohammad Rasoulof, não pôde vir a Berlim nem para a estréia do filme e nem para receber o prêmio.

Mohammad foi condenado a um ano de prisão por seu filme anterior, Um homem íntegro, sobre a corrupção na polícia iraniana, premiado em Cannes na mostra Um Certo Olhar e considerado pelo governo iraniano como “propaganda contra o Irã”.

O cineasta iraniano já vinha sendo tolhido de sua liberdade em setembro de 2017, quando foi privado do direito de circular livremente dentro de seu próprio país e de viajar para o exterior, tendo seu passaporte confiscado.

Sua condenação, há quase um ano, em julho passado, incluiu igualmente a proibição de sair do Irã por dois anos. Já em 2011, Mohammad não pôde ir a Cannes receber seu prêmio na mostra Um Certo Olhar por outro filme, Até logo. Essa obra também tinha lhe custado um ano de prisão “por atividades contra a segurança nacional”.

Essa condenação quase coincidiu com a de outro grande cineasta iraniano, Jafar Panahi, premiado em Cannes, Veneza e Berlim por filmes críticos da sociedade de seu país, como a condição das mulheres. Existe uma longa lista de cineastas iranianos cujos filmes foram proibidos no Irã ou que decidiram fazer cinema fora de lá.

Segue uma síntese do filme: Heshmat, marido e pai exemplar, acorda muito cedo todos os dias. Onde ele vai? Pouya não pode imaginar matar outro homem, mas lhe dizem que deve fazê-lo. Javad não sabe que pedir sua amada em casamento não será a única surpresa no aniversário dela. Bahram é médico, mas incapaz de praticar medicina. Ele decidiu explicar à sobrinha visitante o motivo de sua vida como pária.

As quatro histórias que compõem Não há nenhum mal oferecem variações sobre os temas cruciais da força moral e da pena de morte, perguntando até que ponto a liberdade individual pode ser expressa sob um regime despótico e suas ameaças aparentemente inescapáveis.

Mohammad Rasoulof apenas cria um elo narrativo frouxo entre essas histórias e, no entanto, todas estão trágica e inexoravelmente conectadas. No contexto da opressão estrutural, a escolha parece se limitar a resistir ou sobreviver. Mas, a cada história interrompida abruptamente, somos instados a considerar como homens e mulheres podem afirmar sua liberdade, mesmo em tais situações.

Um risco para o Brasil

A lição que se pode tirar da experiência do cineasta Mohammad é a de que certas semelhanças do Irã com o Brasil devem ser consideradas com atenção. O Irã é um Estado religioso e são os mulás, o clero iraniano, que controlam o país. O próprio poder político deve obediência ao aiatolá. Ou seja, o chamado poder divino dirige o poder político.

Não se pode dizer que os evangélicos terão, nos próximos anos, o controle temporal e político do Brasil, à maneira dos chefes religiosos muçulmanos iranianos. Porém, poderão assumir um controle tácito e indireto do país. E, dominada a maioria da população crédula, será quase impossível se retornar a um Estado laico.

No caso do cinema, se as atuais dificuldades da arte brasileira se complicarem com um controle das produções e uma entrega aos evangélicos, os filmes governistas e religiosos resultantes irão reforçar o controle autoritário e a cultura do pensamento.

Mohammad não esconde viver o Irã um clima de ditadura. O Brasil vive hoje um clima de pré golpe para uma ditadura, cuja base ideológica será evangélica e reacionária. Que a experiência vivida hoje pelo cineasta Mohammad Rasoulof não venha a ocorrer com os cineastas brasileiros num futuro próximo.

(Foto: Divulgação 70ª Berlinale, filme “Todos os mortos”)

Um crime contra o cinema, diz atriz portuguesa em Berlim

Atriz portuguesa no filme Todos os mortos, Leonor Silveira define “como um crime, como uma vergonha mundial” o que o governo Bolsonaro está fazendo contra o cinema no Brasil. A declaração foi feita ao Brasil de Fato durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Leonor Silveira – descoberta por Manoel de Oliveira, um dos maiores cineastas portugueses – deu um salto em sua carreira, atravessou o Atlântico e foi filmar no Brasil. Ela faz parte do elenco de nove mulheres do filme Todos os mortos, exibido na competição internacional do Festival de Cinema de Berlim.

A presença de Leonor no filme dos brasileiros Caetano Gotardo e Marco Dutra foi importante, pois Todos os mortos lembra uma época em que o Brasil era ainda bastante próximo de Portugal – fazia apenas dez anos da proclamação da República, logo depois de ter acabado a escravatura dos descendentes dos negros levados da África.

Um crime e uma vergonha

Para Leonor Silveira, o que ocorre hoje no Brasil com o corte de subvenções ao cinema “é um crime e uma vergonha mundial. Tenho pena por não perceberem o mal que estão a fazer ao Brasil. Mas também sei que foram se meter com quem não deviam, porque artista tem resistência, como diz a Sara Silveira, para continuar a criar. E o artista brasileiro é muito bom em todas as áreas. E esse palco, como é o da Berlinale, que traz este ano dezoito filmes brasileiros e outros que vierem no próximo ano, mostra e mostrará o que é a coragem e a capacidade do cinema brasileiro e não há nada que impeça que isso continue”, disse.

“Nunca participei em filmes do cinema brasileiro, essa é a minha primeira vez, e o fiz com muita satisfação e muito orgulho. Caetano e Marco vieram ao meu encontro em Portugal e me propuseram essa participação, uma oportunidade maravilhosa. Tivemos os primeiros contatos por email, mas depois vieram a Lisboa.”

Sobre as diferenças de linguagem, Leonor explica ter havido momentos nos quais algumas palavras tiveram de ser trocadas para serem entendidas. E sua participação previa justamente o sotaque português de Portugal, pois na época do filme era grande a influência portuguesa no Brasil.

(Foto: Divulgação 70ª Berlinale, filme “Meu nome é Bagdá”)

Skatista andrógina vence em Berlim

Enquanto o governo Bolsonaro tenta destruir o cinema nacional, como denunciou a produtora Sara Silveira, os filmes brasileiros conquistaram a crítica e os espectadores do 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim.

O primeiro prêmio anunciado e conquistado pelo cinema brasileiro foi o Prêmio do Júri para melhor longa metragem da mostra Geração, dedicada aos jovens cineasta e aos temas da juventude. Meu nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza, foi escolhido por unanimidade dos membros do júri, que assim justificaram sua escolha:

“Por unanimidade, escolhemos o filme vencedor: uma impressionante peça de liberdade, cheia de maravilhosas amizades, música, movimento e solidariedade. Era impossível não ficar impressionado com a protagonista, com as pessoas ao seu redor, e era também impossível esquecer o clímax glorioso e poderoso deste filme. Isso é prova de que a vida pode não fazer milagres por nós, mas podemos superar todos os obstáculos se seguirmos nossa paixão”.

O prêmio é para Caru Alves de Souza, a diretora, mas é também para a atriz Grace Orsato, interpretando a jovem skatista andrógina Bagdá. Para Caru, o filme fala sobre a solidariedade existente entre as mulheres e suas dificuldades cotidianas. Um filme no qual se joga muito com a improvisação, mostrando a amizade num grupo de jovens.

Segundo a diretora, o tema do skate não era nenhuma novidade, pois ela mesma praticava skate aos 16 anos. A escrita do filme começou há dois anos e foi sendo montada cena por cena. Caru fez, nessa ocasião, um levantamento das principais pistas de skate em São Paulo. O roteiro foi sendo pensado em alguns meses, mas o texto final “veio como um enxurrada”, como ela diz. Caru é filha da cineasta Tatá Amaral, mas já se impôs ela própria no ofício.

(Foto: Divulgação 70ª Berlinale, filme “Berlin Alexanderplatz”)

Do filme Joaquim a Berlin Alexanderplatz

Talvez seja inédito: um filme alemão, Berlin Alexanderplatz, baseado num livro antológico do escritor Alfred Döblin, tendo como ator principal um guineense, estreando na competição internacional do Festival de Cinema de Berlim. Trata-se do ator e realizador Welket Bungué, que vive em Lisboa e que, para assumir seu estrelato, precisou fazer um curso intensivo de alemão.

No filme, Welket Bungué vive um imigrante guineense que sobrevive a um naufrágio e consegue entrar na Europa pelo Mediterrâneo. Chega, enfim, a Berlim, onde passa a se chamar Franz e fica a serviço de um traficante de drogas também psicopata. Um filme de três horas que dividiu a crítica.

Welket pertence às companhias de teatro Rastilho, de Lisboa, e Homlet, de Beja, das quais foi fundador. Já realizou seis curtas-metragens, convidados por diversos festivais, e ganhou o prêmio de melhor ator com curtas-metragens em Ovar e Viseu.

Foi sua participação no filme Joaquim, de Marcelo Gomes, exibido há dois anos no Festival Internacional de Cinema de Berlim, que valeu o convite para encenar Berlin Alexanderplatz. Em uma entrevista, Welket mostrou a importância do cinema brasileiro em sua carreira, já que, em Portugal, recebia apenas papéis secundários.

Foi Trump quem abriu a porta para Bolsonaro

Enfim, o 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim ficará na nossa lembrança sem grandes destaques, sem aqueles filmes marcantes, embora com uma seleção de bons títulos.
Não faltou a presença da ex-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, apresentando uma minissérie de quatro capítulos sobre sua vida. Num encontro com a imprensa, ela confirmou ter sido a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos a criadora das condições para surgirem lideranças autoritárias no mundo, como Bolsonaro no Brasil.

A relação dos principais prêmios – Festival Internacional de Cinema de Berlim 2020

URSO DE OURO
There Is No Evil
Mohammad Rasoulof (Irã/Alemanha/República Checa)

GRANDE PRÉMIO DO JÚRI
Never Rarely Sometimes Always
Eliza Hittman (EUA)

PRÉMIO DA 70ª BERLINALE
Effacer l’historique
Benoît Delépine e Gustave Kervern (França/Bélgica)

MELHOR REALIZAÇÃO
Hong Sang-Soo por The woman who ran (Coreia do Sul)

MELHOR ATRIZ
Paula Beer por Undine, de Christian Petzold (Alemanha/França)

MELHOR ATOR
Elio Germano por Volevo Nascondermi, de Giorgio Diritti (Itália)

MELHOR ARGUMENTO
Fabio e Damiano D’Innocenzo por Favolacce, de Fabio e Damiano D’Innocenzo (Itália/Suíça)

MELHOR CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA
Jürgen Jürges, pela direção de fotografia de DAU. Natasha, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Alemanha/Ucrânia/Reino Unido/Rússia)

MELHOR PRIMEIRA OBRA
Los Conductos, de Camilo Restrepo (França/Colômbia/Brasil)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Irradiés, de Rithy Panh (França/Cambodja)

O autor do texto esteve em Berlim convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.