Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

A ciranda dos fatos e das notícias

Todos os grandes problemas, disse alguém, têm uma solução simples – e errada.

O problema, no caso, é o da correção técnica e ética da cobertura jornalística da crise do mensalão, posta em dúvida, quando não negada de cabo a rabo, pelos petistas e aliados.

A solução simples, a julgar pelo que o governador paulista Geraldo Alckmin disse num discurso para uma platéia de donos e executivos de jornais, seria os políticos se indignarem com os fatos e não com as notícias sobre eles.

Isso pressupõe que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Necessariamente.

Por esse raciocínio as notícias não apenas seriam um retrato “objetivo” de algo que merece ser publicado – Sua Excelência, o Fato, como diria o saudoso doutor Ulysses Guimarães – mas tampouco elas desencadeariam fatos novos.

Fatos e notícias são anverso e reverso de uma mesma moeda. Por isso, pessoas podem perfeitamente bem se indignar com notícias que considerem distorções de fatos ou pura e simples fabricação, para gerar, agora sim, fatos de interesse de quem distorceu ou fabricou.

E jornalistas que tentam dar o melhor de si para relatar o que lhes parece serem verdades têm todo o direito de se sentir injustiçados ou caluniados.

Para tornar esse texto menos abstrato, deixem-me dizer desde logo que, na atual crise brasileira, não dá para dizer de bate-pronto que os fatos e as notícias formaram um círculo virtuoso, ou o seu oposto, o vicioso.

Com isso não estou subindo ao muro. Nem defendo qualquer coisa parecida com o proverbial nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Tenho para mim que determinados órgãos de mídia acumularam suficiente culpa em cartório na narrativa do mensalão para não poderem posar impunemente de intimoratos defensores do interesse público.

O que tampouco significa que os críticos do comportamento da imprensa brasileira em geral nesses últimos seis meses sejam todos, sempre, vítimas inocentes e indefesas de uma conspiração.

Há uma bola quicando na pequena área para os estudiosos da comunicação: é a oportunidade de tocar adiante um projeto de pesquisa consistente sobre o desempenho da mídia no caso. Para não ficarmos presos, jornalistas, políticos e o grande público, a condenações sumárias que podem, ou não, ter fundamento na realidade, nem a simplificações politicamente confortáveis sobre a presumida inocência do noticiário.

Os potentados da Antiguidade matavam os mensageiros que lhes traziam más notícias. Hoje, uns postulam uma absurda neutralidade intrínseca das mensagens trazidas; outros, uma implausível beatitude do mensageiro.

Como já dizia um alemão barbudo do século 19 que esteve muito em moda e depois foi dado como perdido sob os escombros do Muro de Berlim, “se a aparência e a essência das coisas fosse a mesma, a ciência seria desnecessária”.

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Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.