Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A mesma fonte em duas versões diferentes; Lula na Economist – saída para fugir das ‘interpretações’, é ler o original reproduzido pelo Valor

Os jornais de hoje trazem várias informações contraditórias nas reportagens que tratam da balança comercial do primeiro bimestre do ano e das que repercutem as páginas da revista britânica The Economist dedicadas ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

O dólar barato continua no centro das reportagens sobre comércio exterior – e não poderia ocupar outro posto no dia em que todos os jornais reproduzem os números da balança comercial dos dois primeiros meses deste ano. O Globo é o único, dentre os jornalões, a projetar o balanço das exportações e importações em sua manchete principal. Como nos demais jornais, o jornal sublinha que o período foi marcado por uma forte alta das importações – de 19%.

As divergências mais notáveis encontram-se no O Globo e no Valor Econômico, jornal que pertence ao mesmo O Globo e à Folha de S.Paulo. O Valor traz o seguinte na reportagem ‘Exportações crescem, mas governo fica de olho na alta das importações’:



‘A taxa de câmbio está preocupando ‘seriamente’ a equipe do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A cotação do dólar fechou ontem em R$ 2,11, patamar que estimula as importações em geral e as de bens de consumo em especial’. (…)


No O Globo, a mesma fonte que emitiu a ‘preocupação’ – o secretário de Comércio Exterior do ministério, Armando Meziat –, diz o seguinte:



‘Segundo Meziat, o governo vê com simpatia a retomada das compras externas. Até porque a maior parte das encomendas é de bens de capital e matérias-primas, termômetros da taxa de investimento que move o Produto Interno Bruto (PIB)’.


Como fica claro, não há liga entre as duas versões. Numa Meziat está preocupado com o dólar barato porque ele ‘estimula’ a compra de bens de consumo, ‘em especial’; noutra, ele diz que o governo vê com ‘simpatia’ o crescimento das importações, pois a ‘a maior parte das encomendas é de bens de capital e matérias-primas’. Como também fica claro, um dos dois jornais não sabe exatamente o que ouviu da mesma fonte oficial – e transfere a dúvida para o leitor.

A segunda grande contradição não se trata propriamente de dados que colidem, mas de interpretações que são encaixadas segundo a linha política e editorial dos jornais. Trata-se da volta de Lula às páginas da The Economist, desta vez por meio de longa entrevista que o site da revista traz na íntegra, em inglês. Jornais contrários ao governo minimizam como podem o destaque dado ao presidente brasileiro. Isso porque sair na The Economist – a revista que todas as demais sonham ser um dia – não é para qualquer um. Para fugir das armadilhas, o leitor tem uma saída: ler diretamente a íntegra da reportagem que o Valor Econômico de hoje reproduz.