Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

‘Como o livre-mercado matou Nova Orleans’

A Agência Latino-Americana de Informação (http://alainet.org)colocou ontem no ar o artigo “How the free market killed New Orleans”, do cientista político americano Michael Parenti, Ph.D pela Universidade de Yale e autor de 18 livros. O mais recente, de 2004, é “Superpatriotism”. Eis o artigo:

“O livre-mercado desempenhou um papel crucial na destruição de Nova Orleans e na morte de milhares de seus residentes. Advertidos a tempo de que um colossal furacão (de força 5) iria abater-se sobre a cidade e arredores, que fizeram as autoridades? Puseram em campo o livre-mercado.

Anunciaram que todo mundo deveria evacuar a cidade. Se esperava que cada qual planejasse a sua própria saída da área de desastre por meios particulares, assim como dita o livre-mercado, como acontece quando desastres atingem os países de livre-mercado do Terceiro mundo.

É uma beleza este livre-mercado, em que cada um persegue os seus próprios interesses pessoais, de tal modo a produzir um resultado ótimo para a sociedade inteira. É assim que a mão invisível opera as suas maravilhas.

Ali não haveria nenhuma evacuação “coletivista e regimentada”, como ocorreu em Cuba. Quando um furacão de alcance especialmente grande golpeou a ilha no ano passado, o governo de Castro, apoiado pelos comitês de vizinhança e os quadros locais do Partido Comunista, evacuou 1,3 milhão de pessoas, mais de 10% da população, sem a perda de uma única vida; uma proeza alentadora que passou praticamente despercebida pela imprensa americana.

[Isso, me permito observar, não faz de Fidel um democrata nem de Cuba um país livre. Mas, como dizem os cubanos, “palante”:]

No Dia Um do desastre causado pelo furacão Katrina já estava claro que centenas, se não milhares, de vidas americanas estavam perdidas em Nova Orleans. Muitas pessoas haviam se “negado” a deixar suas casas, explicou a imprensa, simplesmente porque eram “teimosos”.

Só lhes restou confiar na sorte

Apenas no Dia Três os comentaristas – relativamente abonados – começaram a se dar conta de que dezenas de milhares de pessoas não puderam fugir porque não tinham para onde ir, nem meios para se deslocar.

Com pouco dinheiro vivo nas mãos e à falta de veículos próprios, só lhes restou ficar e confiar na sorte. No fim das contas, o livre-mercado não funcionou tão bem para eles.

Boa parte dessa gente era afro-americana de baixa renda, juntamente com um número menor de brancos pobres. Vale recordar que a maioria deles tinha um emprego antes da visita mortal de Katrina. Isso é o que faz a maioria dos pobres neste país: trabalha, geralmente muito duro, em empregos que lhes pagam muito mal, às vezes em mais de um emprego.

São pobres, não porque sejam preguiçosos, mas porque lhes custa sobreviver com salários de miséria, tendo de arcar com preços altos, aluguéis elevados e impostos regressivos.

O livre-mercado incidiu ainda de outra forma. A agenda de Bush é reduzir os serviços públicos ao mínimo e obrigar as pessoas a recorrer ao setor pirvado para suprir as suas necessidades.

Assim, cortou US$ 71,2 milhões do orçamento do Corpo de Engenheiros de Nova Orleans, uma redução de 44%. E foram arquivados os planos de fortificar os diques de Nova Orleans e de melhorar o sistema de bombeamento para a drenagem da água.

Bush sobrevoou a área e disse que ninguém poderia ter previsto esse desastre. Mais uma mentira que sai de seus lábios. Pessoas as mais diversas vinham prevendo um desastre em Nova Orleans, ressaltando a necessidade de consolidar os diques e as bombas, e proteger as terras costeiras.

Mais uma vez, a velha mão invisível

Em sua campanha para aniquilar o setor público, os sequazes reacionários de Bush também permitiram que os construtores drenassem áreas extensas de pântano. Mais uma vez essa velha mão invisível do livre-mercado se encarregaria de cuidar das coisas. Os construtores, em busca do seu próprio lucro privado, acrescentaram que isso seria benéfico para todos.

Não obstante, os pântanos funcionavam como absorventes e barreiras naturais entre Nova Orleans e as tormentas vindas do mar. Há alguns anos, os pântanos vem desaparecendo em ritmo espantoso da Costa do Golfo. Mas nada disso causou preocupação aos reacionários da Casa Branca.

Quanto à operação de resgate, os defensores do livre-mercado costumam dizer que a ajuda aos mais desafortunados entre nós deve ficar em mãos da caridade privada. Era uma prédica preferida do presidente Ronald Reagan dizer que “a caridade privada pode resolver”. E, de fato, nos primeiros dias, essa parecia ser a política para o desastre provocada pelo furacão Katrina.

O governo federal se esfumou, mas a Cruz Vermelha entrou em ação. Sua mensagem: “Não enviem alimentos nem cobertores; enviem dinheiro.”

Enquanto isso [o tele-evangelista] Pat Roberttson e a Rede Cristã de Emisoras, fazendo uma breve pausa na sua obra divina de apoiar a nomeação de John Roberts à Corta Suprema, pediu doações e anunciou a “Operação Bendição”, que consistia no envio altamente divulgado, mas totalmente inadequado, de conservas e Bíblias.

A propriedade antes das pessoas

Para o Dia Três, até a mídia míope começou a se dar conta do enorme fracasso da operação de resgate. As pessoas estavam morrendo porque a ajuda não chegara.

Não obstante, surgiram perguntas que o livre-mercado não parecia capaz de responder:

Quem estava encarregado da operação de resgate? Por que tão poucos helicópteros e apenas um punhado de membros da Guarda Costeira? Por que os helicópteros demoraram cinco horas para tirar seis pessoas de um hospital? Onde estava a Polícia Federal? A tropa do Estado? A Guarda Nacional? Onde estavam os ônibus e os caminhões? As tendas e os toaletes portáteis? As provisões médicas e a água?

Onde estava o Departamento de Segurança Interior [criado em consequência do 11 de setembro]? O que o órgão fez com os US$ 33,8 milhões que lhe foram alocados no ano fiscal de 2005? Até o noticiário vespertino da ABC-TV, no dia 1/9, citou funcionários locais que disseram que ‘a resposta do governo federal tem sido uma vergonha nacional’.

Em um momento de ironia saborosa (e talvez maliciosa), chegaram ofertas de ajuda externa da França, Alemanha e várias outras nações. A Rússia se ofereceu para enviar dois aviões carregados de alimentos e outros materiais para as vítimas.

Os franceses queriam outro soco no nariz?

Como era de prever, todas essas ofertas foram rapidamente rechaçadas pela Casa Branca. A América, Formosa e Poderosa, Salvadora Suprema e Líder Mundial, Provedora da Prosperidade Global, não podia aceitar a ajuda alheia. Isso seria uma inversão humilhante e insultuosa de papéis. Será que os franceses queriam outro soco no nariz?

Tem mais. Aceitar a ajuda externa teria significado admitir a verdade: que os bushistas reacionários não tinham nem o desejo, nem a decência de proteger os cidadãos comuns, muito menos aqueles em situção de extrema necessidade.

E as pessoas talvez começassem a pensar que George W. Bush realmente não passa de um agente em tempo integral da América das grandes corporações empresariais.”

Agradeço a indicação a Carolina Trevisan. Pela tradução, L.W.