Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Desmentido com exclusividade

Na quarta-feira da semana passada, como o Globo foi o primeiro a dar, o titular da Secretaria de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, pediu demissão ao presidente Lula.

Naquele dia, na sequência de matérias anteriores, os jornais deram que o faturamento da empresa de consultoria da qual Gushiken deixou de ser sócio pouco antes de virar secretário com status de ministro, mas que continuava funcionando na casa da mulher dele, tinha subido como um rojão desde a posse de Lula.

Na sexta-feira, o presidente disse em público que Gushiken – talvez o seu mais íntimo amigo entre os companheiros que levou a Brasília – só sai do governo se quiser. “Não posso mantê-lo na marra”, disse o presidente. No jargão do poder, é um convite à renúncia.

Àquela altura, a crise do PT tinha se tornado incontrolável com os dólares na cueca de um assesssor de um deputado estadual cearense irmão do presidente da legenda, José Genoíno. Em compensação, afastou as incômodas luzes que incidiam sobre Gushiken.

Mas continuava a fazer falta uma explicação dele, clara e objetiva, sobre o sucesso comercial da Globalprev, a empresa em questão.

Hoje ela aparece na colunista de Luís Nassif na Folha e é convincente. A Globalprev começou a ficar próspera não com o advento da era Lula, mas nos anos finais da era FHC, alega o já não demissionário Gushiken – que ficará no governo, porém não mais como ministro. A sua defesa se ampara em um fax da Prefeitura de Indaiatuba, sede da firma. Os números, a serem verdadeiros, não deixam margem a dúvidas.

“Há um emaranhado a ser deslindado nos contratos do governo com agências de publicidade”, conclui o colunista. Mas, “no caso Globalprev, as explicações e os números guardam lógica entre si”.

Tanto melhor. Mas o que não tem lógica é a forma que o ainda ministro encontrou para dar as suas explicações. Primeiro, pela demora – uma semana depois que nome Globalprev caiu na boca da mídia. Segundo, por seu caráter seletivo: por que, em vez de privilegiar um jornalista com o que, afinal de contas, é um furo, ele não fez distribuir a toda a imprensa o fax que parece lhe dar razão.

Será que os jornais que divulgaram, até com barulho, os números que aparentemente não guardavam lógica com os fatos não faziam por merecer a mesma atenção de sua excelência?

Não só teria sido a coisa certa a fazer em matéria de relacionamento entre uma autoridade e a imprensa, mas o agora secretário só teria a ganhar com isso, porque um número muito maior de leitores interessados teria acesso às suas explicações.

Vitória do bom senso e da justiça

Informação quentíssima da repórter Mariângela Gallucci, que cobre o Judiciário, em Brasília, para o Estadão.

Ela revela na edição de hoje que – embora o Supremo Tribunal Federal ainda não tenha terminado de julgar se é constitucional o dispositivo da Lei de Crimes Hediondos que proibe a mudança da pena de regime fechado para semi-aberto e, enfim, aberto – ministros da corte estão dando liminares nesse sentido.

Condenados por crimes como latrocínio e sequestro “estão recebendo autorizações para estudar e trabalhar fora de dia e voltar à cadeia para dormir”, informa Mariângela.

É uma noticia animadora. A grande maioria dos juristas lúcidos e o pessoal dos movimentos de defesa dos direitos humanos, além de 4 dos 6 ministros do STF que já se manifestaram sobre o assunto, defendem que todos os condenados possam pleitear a progressão do regime penal.

Primeiro, para acabar com a superlotação das cadeias. Segundo, porque a Lei de Crimes Hediondos trata de maneira igual presos com bom e mau comportamento, o que seria inconstitucional. Terceiro, porque, mesmo que fosse constitucional, a lei “estimula a prática de crimes, em vez de combatê-la”, como diz o presidente do Supremo, Nelson Jobim.

Pois os criminalistas sabem perfeitamente, desde o século 19, que o que desestimula a prática do crime não é o tamanho da penas, mas a certeza da punição.

As exceções, é o caso de dizer, apenas confirmam a regra.